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“Este museu é resultado de uma longa história de luta”, diz Hélio Menezes

O novo diretor do Museu Afro Brasil fala com exclusividade sobre a proposta de reestruturação da instituição e o legado de Emanoel Araújo

Por Mattheus Goto
7 jun 2024, 06h00

O Museu Afro Brasil Emanoel Araújo está sob nova direção. O antropólogo, curador e pesquisador soteropolitano Hélio Menezes, 37, foi nomeado diretor artístico da instituição em março, com a missão de dar continuidade ao legado de Emanoel Araújo (1940-2022), fundador do museu e artista plástico essencial para a disseminação e valorização da arte afro-brasileira.

O novo diretor chega ao posto em um momento de celebração, o aniversário de 20 anos do MAB, em outubro. Após três meses de escuta e diálogo com cada setor, Menezes completa 100 dias no cargo com uma visão panorâmica da estrutura, entre forças e fraquezas, e uma proposta bem definida para repaginar o espaço.

Com experiências como a curadoria de arte contemporânea do Centro Cultural São Paulo (2020-2021) e da 35ª Bienal de Arte (2023) no currículo, o mestre e doutorando em antropologia social pela Universidade de São Paulo fala com calma e confiança, em sua primeira entrevista desde a nomeação, sobre os novos rumos do museu.

Como se sentiu ao assumir o cargo?

Primeiramente, me senti muito honrado. O Museu Afro Brasil é um espaço ao qual eu dediquei meus últimos doze anos de pesquisas formais. A honraria vem acompanhada de uma enorme responsabilidade. Eu sou muito consciente das dificuldades que ele enfrenta. Ao longo desses vinteanos, gestou uma geração importantíssima e, ao mesmo tempo, não foi capaz de incorporá-la. Trazer a contemporaneidade é a missão que está em minhas mãos agora, e ela só pode ser realizada de forma coletiva.

Como foram os primeiros 100 dias?

De muita emoção e muita escuta com os funcionários da casa. Muitos deles trabalham aqui há quase duas décadas. Eles trazem um acúmulo de experiência e memória institucional. A escuta crítica tem apontado uma série de diagnósticos. Um deles é a necessidade de uma reestruturação institucional para a elaboração do organograma, a composição dos fluxos de trabalho e a criação de protocolos para se abrir mais à sociedade. Isso acaba sendo pouco visível ao público. O segundo diagnóstico é a necessidade de uma reestruturação conceitual, para entender e estabelecer linhas do nosso programa de aquisições e de gestão de acervo. Identificar quais são as lacunas e as preciosidades, as pratas da casa, que constituem o acervo.

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Já houve alguma mudança notável?

As primeiras transformações apareceram no espaço expositivo. Sempre me incomodou, pessoalmente e intelectualmente, a exibição ostensiva de uma série de objetos de tortura do período de escravidão e das chamadas imagens de controle, de reprodução da violência contra corpos negros. Vivemos em uma sociedade que vê arte negra ou negritude como signo da dor. Para mim, é fundamental que essa relação se dê pelo signo do valor. A partir da escuta, descobri que esse incômodo não era apenas meu, era generalizado. Tudo isso me levou a pensar na necessidade de retirar de circulação esses objetos de tortura. Afinal de contas, este é o Museu Afro Brasil e não o Museu da Escravidão. Estamos buscando estratégias para falar da violência sem reencená-la. Para a gente conseguir se encantar com obras magníficas de artistas como Maria Lídia Magliani, Rosana Paulino, Sidney Amaral e tantos outros. Há vinte anos, a exibição tinha uma dimensão pedagógica importante. Temos assistido a uma multiplicidade de dimensões da vida negra. A denúncia continua a fazer parte, mas não é mais protagonista.

Que legado Emanoel Araújo deixou?

Imensurável. Tanto do ponto de vista institucional quanto de sua produção artística. Ele passou por algumas das instituições mais importantes do Brasil, como o Museu de Arte da Bahia, a Pinacoteca, e criou o Museu Afro Brasil. Há toda uma geração de artistas, curadores e críticos formados nessa “escola”, seja por adesão ao projeto ou posicionamento crítico. Este museu é o resultado de uma luta histórica, que encontrou em Emanoel uma figura de proa. Das conversas que tive com ele, Emanoel foi tudo menos uma pessoa estática. O espírito de dinamismo é o principal legado que ele deixa.

“Quero imprimir um momento de maior abertura às vozes negras das sociedades brasileira e afro-atlântica e de maneira mais ampla”

Hélio Menezes

Acha que sua gestão será comparada?

O Emanoel foi fundamental na história das instituições negras no Brasil. Não é à toa que este espaço carrega orgulhosamente seu nome. Mas este museu não é de uma só pessoa. Este museu é resultado de uma longa história de lutas negras. Quero imprimir nele um momento de maior abertura às vozes negras das sociedades brasileira e afro-atlântica e de maneira mais ampla.

Parte da coleção do Emanoel foi leiloada em novembro para a Fundação Lia Maria Aguiar. Na sua percepção, esse destino foi apropriado? Há uma conversa para tentar empréstimos?

Esse gesto de leiloar parte considerável da coleção obedeceu aos trâmites legais que ele deixou. O diálogo com a fundação já está em curso, na verdade com uma série de colecionadores e amigos que foram presenteados com obras ao longo da vida. É curioso notar que ele não deixou muitas peças autorais no acervo. Como gestor e curador, ele foi bastante modesto.

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Como você avalia o cenário atual da arte afro-brasileira?

Houve, sem dúvida, avanços importantíssimos, um número crescente de artistas, fruto da luta negra de séculos. Isso encontrou nos últimos dez anos uma cena mais fértil no mundo das artes, mas que ainda está muito longe da real promoção de justiça igualitária.

Como estão os preparativos para o aniversário de 20 anos?

Estamos preparando uma grande festa. Queremos fazer um balanço desse legado e pensar para onde ele nos orienta. Ainda não posso contar detalhes da programação, mas as pessoas podem esperar um momento de grande celebração e memória, com exposições e artistas emblemáticos. Este museu é um legado negro mundial, e os 20 anos devem ser comemorados à altura.

Como vê o museu daqui mais duas décadas?

O Museu Afro Brasil inspirou uma série de instituições mundo afora. É um lugar de referência, unindo história, memória, cultura e arte. Eu o visualizo se tornando cada vez mais importante como um centro de referência afro-diaspórica, expandindo a própria conceituação do que entendemos por museu. Um museu não é uma janela para o passado. É um espaço dinâmico, vivo, de encontro, em que a sociedade se vê espelhada.

Publicado em VEJA São Paulo de 7 de junho de 2024, edição nº 2896

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