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Novos camarotes: era das baladas ostentação chega ao fim na capital

Enquanto saem de cena as casas luxuosas com bebidas que piscam, ganham espaço as festas itinerantes promovidas em galpão, estádio e outros locais

Por João Batista Jr. e Juliene Moretti Atualizado em 13 dez 2019, 15h08 - Publicado em 13 ago 2016, 00h00

Começo da madrugada de sábado, 6. Um Camaro cinza chega à porta da Provocateur, no Itaim. O motorista abaixa o vidro insulfilmado e acena com a cabeça para um sujeito na calçada. Como se fosse ensaiado, o rapaz entra em um Voyage prata que estava guardando vaga na porta da casa noturna, dá partida no automóvel e o coloca a 100 metros de distância, perto de uma van que vende hot-dog. O esportivo importado ocupa o espaço. Seu proprietário desce e entrega uma nota de 100 reais a quem lhe facilitou a vida. Logo depois, tira a camiseta, fica com o torso nu no meio da rua e veste outra peça do tipo, mais justa e com a estampa YES no peito. Dentro da boate, junta-se a um grupo de amigos e duas mulheres. “Sem entrevista, sou comprometido”, disse ao repórter de VEJA SÃO PAULO, apontando para a aliança no dedo.

+ Relembre: O rei do camarote

A balada só esquenta duas horas depois, com cerca de 400 pessoas. Mas o clima era de despedida. Sem discursos nem algo especial no roteiro, o negócio encerrou as portas para sempre às 6 horas. Filial de uma balada nova iorquina, em seus dias de glória reunia a moçada mais bonita da cidade. Jovens modelos tinham passe livre, DJs renomados não deixavam ninguém ficar parado e frequentadores como o empresário Alexander de Almeida, o rei do camarote, curtiam a valer. Depois de quatro anos de existência, no entanto, uma das casas noturnas mais luxuosas da cidade virou abóbora.

Alexander de Almeida - Rei do Camarote

Naquela mesma noite de sábado, a temperatura da boemia estava quente do outro lado da Marginal Pinheiros. “Cadêêêêê?”, perguntava a promoter Valentina Drummond, de 33 anos, dando, em seguida, uma sonora gargalhada dentro do bufê La Luna, no Butantã. Uma pessoa aflita havia discado para seu iPhone 6 querendo entrar na festança agendada no local. Batizada de Eden, ela reuniu um público cinco vezes maior que o da última noite da Provocateur. Os frequentadores pagaram até 180 reais por ingresso, sem direito a drinques nem a comida.

Em vez de camarotes, havia por lá um cercadinho vip, animadíssimo. Alguns dançavam em cima do sofá e muitos tiravam selfie, enquanto garçons traziam baldes cheios de vodca e energético. Entre os presentes estavam Tato Malzoni, sócio de uma fábrica de suco e água de coco, e Eduardo Scarpa Julião, piloto de moto. A decoração tinha tule branco no teto, folhagem verde no chão e lustres suspensos iluminados por velas brancas. Na pista, telões com projeções psicodélicas faziam cenário para a apresentação dos DJs Junior C. e The Juns.

A Eden é uma das mais de 100 baladas itinerantes que rolam por ano na capital. Algumas custam 1 milhão de reais aos seus organizadores, que recuperam o investimento com a venda de ingressos, de bebidas e com a verba de patrocínio. A diferença entre o apagar das luzes estroboscópicas do Itaim e a multidão reunida para uma noitada em um bufê do Butantã é reflexo de uma mudança importante no circuito boêmio da cidade. Uma a uma, todas as baladas chiques encerraram suas atividades.

Pista de dança Provocateur

Entre 2014 e 2015, as baixas mais importantes foram Pink Elephant, Ballroom e Disco. “As pessoas querem experiências diferentes, evitam visitar sempre um mesmo endereço”, diz Caio Jahara, um dos sócios da Provocateur. O aluguel mensal do ponto na Zona Sul era de 33 000 reais, e o empreendimento funcionava apenas às quintas e aos sábados. “Terminamos com a casa cheia, sem precisar tocar funk”, comemora Jahara. Antes de micar de vez, a Disco, por exemplo, tentou uma sobrevida trocando a música eletrônica pelos pancadões de funk.

Aos poucos, as agências de evento foram ocupando o espaço. Todas essas novas empresas têm nome estrangeiro, como a Keep Young, de Chico Barbuto e Guilherme Amora. Seus clientes já escutaram batidas eletrônicas na Hípica Paulista, apreciaram jazz na Praça do Patriarca e dançaram hip-hop em trilhos desativados na Mooca, entre outras experiências. Uma das maiores festas dos últimos anos, realizada em julho, reuniu mais de 15 000 pessoas no sambódromo para dançar sertanejo. Esse mercado começou a ser desbravado pela Multicase e pela Haute, em 2008. “Queríamos sair daqueles ambientes fechados”, diz Iquinho Facchini, um dos proprietários da Multicase, que no início fazia festas em mansões do Morumbi e do Jardim América.

Barbuto e Amora

Agora, ele atrai 100 000 pessoas por noite para locais como o Museu da Casa Brasileira e o Parque do Ibirapuera. Facchini espera faturar 15 milhões de reais em 2016, 40% mais do que no ano passado. “Fazemos visitas a diretórios acadêmicos de faculdades para saber o que os jovens querem”, conta. A Haute, de Bruno Dias e outros três sócios, encarrega-se de baladas também fora de São Paulo. Há oito anos comanda um dos réveillons mais quentes de Trancoso, com a presença de modelos como Alessandra Ambrosio e Ana Beatriz Barros.

Ex-frequentador e advogado da Pink Elephant, Omar Maluf criou a festa Clubinho dentro do lugar, em 2010. Sem que ele percebesse, iniciava-se uma nova carreira. Dois anos depois, Maluf abriu a Reunion. “Fizemos 107 edições do Clubinho desde então, cinquenta delas em São Paulo.” Os novos donos da noite têm um grupo de WhatsApp para discutir o nome de fornecedores e trocar informação sobre a data de eventos. Quando as baladas coincidem, todos perdem. Toca-se de tudo nesse mercado: eletrônico, samba, pagode, rock e funk.

+ Eataly vende sanduíches e chope na calçada

A promoter Val Drummond trabalha para todas as agências. Amiga de Neymar, Anitta e outras celebridades, ela tem a missão de fazer uma festa lotar de gente bonita. “Meus fins de semana já estão tomados até fevereiro de 2017”, conta, teclando no celular, com mais de 700 mensagens não lidas. “Ela consegue conectar pessoas diferentes”, diz o artista plástico Otávio Pandolfo, da dupla osgemeos, que, certa vez, terminou uma noitada grafitando um muro no Cambuci com o também artista francês JR.

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Bruno Dias, Guga Guizelini, Dado Ribeiro e Felipe Aversa

Há cinco meses, Val ganhou da montadora JAC Motors um modelo T8 com um adesivo rosa na lataria, em que se lê “Bonde da Val”. O brinde incluiu um motorista particular à sua disposição para circular. “Os convidados podem beber à vontade”, afirma a promoter, que fatura, em média, 8 000 reais por festa.

A escolha da locação é quase tão importante quanto uma boa trilha sonora. Juliano Libman e Luiz Restiffe, da InHaus, demoraram dois anos para conseguir locar por 180 000 reais uma parte da Arena Corinthians. “Em novembro, organizaremos um show do Criolo e do Emicida para 25 000 pessoas”, orgulha-se. Nem tudo sai como esperado. “Uma festa nossa foi encerrada pela prefeitura”, conta Iquinho Facchini, da Multicase. “Era o começo do negócio e nem sequer sabíamos que precisamos de autorização.” Com 1 500 entradas vendidas, ele remarcou o evento para dali a trinta dias. Os mais incomodados (apenas seis pessoas) pediram o dinheiro de volta. “Pegamos um lugar maior e vendemos ainda mais ingressos para cobrir o prejuízo”, lembra Facchini.

As festas começam com a luz do dia e se encerram por volta da 1 da manhã. Nas baladas tradicionais, o normal é acabar depois das 6 horas. “Ficou cafona ostentar e exagerar na dose”, entende Caio Jahara. Certa vez, um cliente indiano da Provocateur comprou 150 garrafas de champanhe Dom Pérignon e Cristal — esse último custava 4 000 reais a unidade. Nos tempos áureos, a casa vendia em média 200 garrafas de Veuve Clicquot em um sábado. Alexander de Almeida, o rei do camarote, comprava a bebida francesa para todos de seu cercadinho vip. “Fechou? Nossa, não sabia, estou fora do Brasil”, disse ele a VEJA SÃO PAULO, curtindo férias em Bariloche. É mesmo o fim de uma era.

Festa Farofada Clube Pinheiros

A ascenção e a queda das pistas 

A cronologia das casas que marcaram época e fizeram história na boemia paulistana

Anos 70: inspiradas no Studio 54 de Nova York, as boates Gallery e Hippopotamus viviam lotadas de celebridades. O figurino era chique: as mulheres usavam longo e os homens, terno. Luiza Brunet, Pelé e Chiquinho Scarpa frequentavam as casas. Menos formal e mais jovem, a Toco, na Vila Matilde, atraía centenas de jovens de todas as regiões da cidade.

Anos 80: com pegada alternativa, a cena noturna dividia-se em duas vertentes. Em Pinheiros, o Aeroanta concentrava shows de rock de bandas então iniciantes, como Titãs e Ira!. Na região central, Nation e Madame Satã apostavam em hits pop e eletrônico e estiveram entre as primeiras a ter público heterossexual e GLS na pista de dança. Mauro Borges era o DJ favorito dessa turma.

Anos 90: com cerca de 200 metros de extensão, a Rua Franz Schubert, nos Jardins, virou o epicentro da badalação, com suas diversas casas noturnas. Limelight, Allure, Arcadia e Kremlin eram as mais famosas. Muitas casas faziam matinês para adolescentes. Perto dali, na Avenida Cidade Jardim, o Cabral atraía patricinhas e mauricinhos com sua decoração praiana.

Anos 2000: a cena clubber ganhou força e o circuito noturno se mudou para a Vila Olímpia com a instalação da balada eletrônica Lov. E.No fim da década, surgiu a franquia das casas internacionais Pacha, Pink Elephant, Mokaï e Kiss & Fly. Nenhuma teve o sucesso da Disco — que parecia uma sucursal da Daslu, devido à enorme quantidade de gente rica e de sobrenomes famosos.

Anos 2010: na busca por experiências em locais diversos, o público abandona as boates — e muitas fecham as portas. Consolidam-se as agências que organizam baladas em lugares como estádio de futebol, sambódromo e galpão desativado. Apenas as casas noturnas de nicho se mantêm em alta, caso do D-Edge (eletrônica), da Villa Mix e da Wood’s (sertanejo).

Calendário boêmio

Os principais eventos previstos para as próximas semanas

  • Lá Vou Eu. Quadra da Águia de Ouro. Sábado (20), 18h. R$ 80,00.
  • Tardezinha. Clube Hípico de Santo Amaro. Sábado (20), 15h. R$ 70,00 (mulheres) e R$ 90,00 (homens).
  • SOS Salve o Amor. Clube Pinheiros. Avenida Brigadeiro Faria Lima, 2484, Jardim Europa. Sábado (27), 17h. R$ 90,00 (mulheres) e R$ 110,00 (homens).
  • Jungle Sunset. Arena Neymar. Sábado (27), 15h. R$ 60,00 (mulheres) e R$ 80,00 (homens).
  • Churrascada. Fabriketa. Rua do Bucolismo, 81, Brás, 3063-3242. Sábado (3/9), 12h. Esgotado.
  • Só Por Hoje. Clube Pinheiros. Rua Tucumã, 142, Jardim Europa, 2640-5335. Terça (6/9), 22h. R$ 80,00 (mulheres) e R$ 100,00 (homens).
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