A crise no mundo dos livros e o que você pode fazer a respeito

A sócia cofundadora da editora Ubu, Gisela Gasparian, analisa a atual situação enfrentada pelas livrarias

As notícias do mercado editorial em 2018 não são muito animadoras para aqueles que gostam de livros: fechamento de lojas, dívidas assustadoras, recuperação judicial e demissões. Por outro lado, nunca se leu tanto no país. Como um setor que cresce está em crise? Infelizmente, não existe uma bala de prata que resolva todos os problemas de uma cadeia de valor complexa e extremamente fragmentada, mas uma série de ações individuais pode ajudar essa área.

As editoras financiam antecipadamente grande parte dos custos de um livro: adiantamento de direito autoral, tradução, revisões, projeto gráfico, direitos de imagem, diagramação e impressão. Quando o livro finalmente chega aos nossos estoques, nós o enviamos às livrarias e aos distribuidores. No Brasil, a prática mais comum não é a compra de livros, mas sim a consignação. Isso significa que as livrarias pegam nossos livros emprestados e os põem à venda. Existe, portanto, uma relação de confiança entre editoras e livreiros. O desconto-padrão médio no mercado é de 50% sobre o preço de capa. Na prática, temos uma série de editoras tentando equilibrar os custos antecipados com o fluxo de caixa alongado da venda dos livros.

Livraria Starfield, em Seul, aberta no ano passado: multidões em eventos diários sobre leitura, de poesia a relatos de viagens, muitas mesas e assentos, e foco em livros e revistas, com estantes de 13 metros de altura, pensadas para a geração Instagram

Livraria Starfield, em Seul, aberta no ano passado: multidões em eventos diários sobre leitura, de poesia a relatos de viagens, muitas mesas e assentos, e foco em livros e revistas, com estantes de 13 metros de altura, pensadas para a geração Instagram (Raul Juste Lores/Veja SP)

Chegamos agora ao elo da cadeia que mais tem aparecido nas páginas de economia dos jornais e revistas: as livrarias. As duas maiores redes de livrarias estão em apuro financeiro — fruto de decisões equivocadas, planos de expansão exagerados, gestão pífia e, sobretudo, modelos de negócios ultrapassados em tempos de internet. Ou seja, embora este se mostre um momento duro, trata-se de uma tragédia anunciada. A relação com as editoras está totalmente desgastada — as redes devem a elas mais de 200 milhões de reais. As grandes redes de livrarias da Europa e dos Estados Unidos tiveram o mesmo destino. No entanto, as pequenas e médias redes de livrarias estão indo muito bem, sendo hoje em dia objeto de estudos da Harvard Business School. O único caso de grande rede que está bem é a inglesa Waterstone, cuja gestão foi passada para um livreiro experiente de uma rede média e charmosíssima (Daunt Books). O público, pelo visto, quer livrarias, não grandes “shoppings culturais”.

Temos agora outro elemento: os grandes varejistas on-line (sobretudo a Amazon). Para os consumidores, a chegada da Amazon normalmente representa uma queda significativa de preços, comodidade e acesso a um estoque ilimitado. Porém, estudos recentes da jovem (e talentosa) advogada americana Lina Khan mostram que um dos efeitos de a Amazon se tornar um varejista com poucos competidores não é a queda do preço para o leitor, mas a pressão que a empresa pode fazer sobre as indústrias e os outros varejistas, alterando o mercado editorial de maneira drástica. Por exemplo, editoras usavam o lucro obtido na venda de grandes best-sellers para apostar em livros com menor apelo popular (obras acadêmicas ou de jovens escritores) — com margens cada vez mais espremidas pela pressão da Amazon, as editoras só focarão os livros de sucesso garantido.

Esse é o contexto macro. Mas o que cada um, numa dimensão individual, pode fazer para incentivar o mercado editorial? Há várias ações, desde as mais prosaicas até as que geram uma conscientização sobre a cadeia produtiva.

1 Incentivar a leitura dos amigos e familiares — neste Natal, por exemplo, presenteie com livros. Organize ou participe de um clube de leitura. Frequente as bibliotecas da cidade. Dê livros infantis de presente de aniversário. Leia para as crianças — todas as noites.

2 Ao descobrir uma livraria ou um sebo que seja do seu agrado, frequente o estabelecimento e compre dele. Especialmente no caso das livrarias que investem em manter livreiros, que podem ajudar você. Como neta de livreira, adoro conversar com os livreiros e levo a sério as recomendações dos bons profissionais dessa área.

3 Compre em pré-venda diretamente das editoras — muitas delas oferecem a opção de pré-venda em seu site. Com isso você ajuda no fluxo de caixa dos lançamentos e possibilita a publicação de mais livros.

4 Fique atento aos eventos editoriais — iniciativas como a Feira Plana e a Miolo, entre outras, são ótimas para conhecer de perto o trabalho de editoras menores e interessantes.

5 Faça da leitura um hábito. De nada valem posts e textões em redes sociais lamentando o fechamento de livrarias se você não consome livros.

 (Bob Wolfenson/Divulgação)

> Gisela Gasparian é sócia cofundadora da editora Ubu e mestre em administração pública pela Universidade Harvard

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