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“Encontrei o clube devastado”, diz novo presidente do São Paulo

Julio Casares quer negociar dívida de 580 milhões, não se incomoda com apelidos homofóbicos e diz que o futebol não é transmissor do coronavírus

Por Sérgio Quintella Atualizado em 26 mar 2021, 15h46 - Publicado em 26 mar 2021, 06h00

A realização de jogos do Paulistão em Volta redonda (RJ) ocorreu depois de a Federação Paulista afirmar que pararia as atividades por causa da pandemia. Não teria sido melhor suspender o campeonato, como havia sido anunciado?

A nota da federação fala apenas que não haveria jogos no estado. Não fala em outros estados. Se vier a acontecer com o São Paulo, nós poderemos jogar lá, desde que o protocolo que defendemos seja cumprido com rigor.

Fala-se em protocolo seguro, mas há diversos casos de contaminação de times inteiros desde a retomada do futebol, no segundo semestre do ano passado.

Não tenho dúvida de que o nosso protocolo é seguro. Desde o ano passado, o São Paulo registrou quatro ou cinco intercorrências. Não tivemos surtos. Além de testar duas vezes por semana, fazemos investigações de todos os jogadores. Onde estiveram, quem os visitou, se foram a festas com crianças. Se todos os setores fizessem o mesmo, teriam mais tranquilidade. O futebol não é transmissor do vírus nem o vilão da história.

E pela questão moral, de dar o exemplo aos que insistem em não respeitar as regras sanitárias, não seria o caso de o futebol parar por duas ou três semanas, como outros segmentos?

Acredito que sim, pela questão de simbologia. O futebol poderia parar, aguardar e contribuir.

Quais foram os impactos da pandemia nas finanças do São Paulo?

Com a pandemia, nosso abalo no ano passado foi de 150 milhões de reais. Em 2021, ainda sem perspectiva de bilheteria, a perda de arrecadação vai girar entre 60 milhões e 80 milhões de reais.

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Qual é o tamanho da dívida herdada da gestão passada?

Assumimos a presidência, em 1º de janeiro, com uma dívida desafiadora de 580 milhões de reais. Só para agentes de futebol, que são profissionais e fazem negócios com jogadores, são 100 milhões de reais. Encontramos a parte profissional do São Paulo devastada, o marketing devastado, a comunicação sem comando e a área do futebol em descompasso com a base.

Como será o plano de pagamento da dívida e como aumentar a receita em tempos de crise econômica e sanitária sem precedentes?

Estamos negociando caso a caso, olhando olho no olho e dizendo que vamos pagar parcelado. É o que uma empresa em recuperação tem de fazer. Mudamos o departamento de futebol (saíram os ex-jogadores Raí e Lugano e entrou o ex-treinador Muricy Ramalho, entre outros) e economizamos 30% com esses salários. Para aumentar as receitas, vamos anunciar um novo programa de sócio-torcedor.

Mas o programa já existe, certo? Como será o novo e qual será a meta de arrecadação?

O programa atual não tem nem 20 000 torcedores adimplentes. É um número vergonhoso. Temos potencial de passar dos 100 000 nos seis primeiros meses. Deveremos lançá-lo entre abril e maio. O nosso programa trará benefícios materiais para os sócios, como descontos em redes. E terá um lado que o dinheiro não paga. Criaremos possibilidades, claro que quando a pandemia permitir, de levar alguns sócios aos treinos, acompanhar a delegação em algum jogo. Se o torcedor mora no Acre, poderá ser nosso convidado a acompanhar um jogo no Morumbi. Implantaremos experiências em um São Paulo moderno. Outra ideia é a criação de um fundo de investimento para que nossos torcedores com média ou grande condição possam nos ajudar como investidores.

Os torcedores poderiam ser donos de cotas de jogadores, por exemplo?

Não, a legislação não permite. Mas podemos fazer um contrato de mútuo (espécie de empréstimo) com garantia de retorno.

O São Paulo foi considerado por décadas um dos clubes mais modernos do Brasil, mas parece que parou no tempo e perdeu espaço para outros times com mais poder de investimento. Dá para recuperar o campo perdido?

Quando se fala em marca, tem de cuidar dela, o que o São Paulo deixou de fazer. Quando fui diretor de marketing do clube (em 2004), fizemos parcerias com a Warner, vendemos até grama do Morumbi, o que se tornou um case de marketing. As vitórias trazem acomodação. Mas as derrotas trazem pressão. Como legado, quero deixar aprovado um plano diretor válido por uma década.

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“Nossa preocupação com isso (apelidos homofóbicos) é zero. Faz parte do folclore do futebol. Temos histórias de garra, de valentia”

Como funcionará esse plano?

Terá de cumprir regras básicas: cuidar da marca com tais e tais requisitos. E tratar o torcedor como cliente, não como gado. Usarei o meu exemplo do passado, quando criamos o Morumbi Concept Hall, que fica na antiga arquibancada térrea. Era um espaço ocupado em apenas 5% dos jogos de uma temporada. Muita gente usava o local para urinar. Transformamos o lugar e hoje lá existem restaurantes, bares, academia, lojas.

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O São Paulo acabou de receber o goleiro Jean, que foi emprestado depois que foi preso nos Estados Unidos, acusado de bater na esposa. Por que ele não será reintegrado ao time? Há receio de repercussões negativas?

Ele passou por um momento repugnante, que ninguém aceita, mas não ficará pela questão técnica. Temos três bons goleiros, e ele seguirá a carreira em outro clube.

Muitos rivais se referem aos são-paulinos como homossexuais e os chamam de “bambis”. O clube chegou a fazer manifestos esparsos, mas nada contundentes. Qual será sua postura?

Nossa preocupação com isso é zero. Faz parte do folclore do futebol. Temos histórias de garra, de valentia, que sobrepõem tudo isso. O São Paulo está acima de questões menores e apoia minorias. Todas elas.

Por outro lado, a torcida do São Paulo não gritava o nome do jogador Richarlyson, que, embora nunca tenha feito declarações públicas quanto à sua sexualidade, foi estigmatizado. Inclusive ele requer há anos seu nome na calçada da fama do clube, pois é campeão mundial e tri brasileiro.

Não posso falar pelas gestões passadas. A nossa dará o devido reconhecimento a ele de forma normal. Serão cerca de trinta novos nomes, e o Richarlyson está nesse grupo. Só não temos uma data, em respeito ao momento (da pandemia).

As ofensas proferidas pelo extreinador Fernando Diniz ao jogador Tchê Tchê, durante um jogo no ano passado, foram vistas por muita gente como algo natural no futebol. Fora dele isso seria assédio moral. Como viu o episódio? Isso é normal?

O caso ganhou repercussão porque os estádios, sem público, ficam silenciosos e os microfones captam mais coisas. Já vi inúmeros técnicos discutindo com jogador, e vice e versa. No calor do jogo, ninguém pede “por favor”. Não é um assunto que mereça patrulhamento maior.

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Publicado em VEJA São Paulo de 31 de março de 2021, edição nº 2731

 

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