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Casal conta em livro sua experiência nada convencional de criar 5 filhos

Mayra Abbondanza e Ernesto Abud já levaram seu bebê para o Deserto do Saara e produzem a própria louça

Por Helena Galante - Atualizado em 4 set 2020, 12h24 - Publicado em 4 set 2020, 06h00

Não foi uma reunião extraordinária só para a foto ao lado. Quase toda refeição na casa de Mayra Abbondanza e Ernesto Abud tem sete pratos à mesa. Para além do número de integrantes, já incomum numa geração de tantos filhos únicos, chama atenção o modo como a família se organiza. A louça, por exemplo, foi feita por todos, do barro à pintura e secagem no forno. Nada de exclusividade dos adultos também na hora de preparar os pratos. “Vamos deixar nossos filhos participar de todo o perrengue? Cozinhar, mas antes comprar, até plantar, e depois limpar, colocar tudo de volta no lugar?”, provoca Mayra. Engenheira de alimentos e cozinheira, ela já havia falado sobre independência no fogão no livro Dêxa Eeuuu!!!. No novo Clãs Fantásticos, escrito em parceria com o marido, ela propõe uma reinvenção que deixa as famílias de comercial de margarina para trás. “Por causa de valores antigos da nossa sociedade, temos a tendência de exercer um papel no qual os nossos filhos são poupados e servidos. Aqui, no nosso clã, estamos sempre empurrando nossos filhos para ir ao encontro dos desafios e da autonomia.”

Divulgação/Divulgação

Em formato digital e à venda na Amazon por 15 reais, o livro faz um relato sensível das peripécias de viver em tantos e compartilha caminhos que trouxeram aprendizados, como a experiência de criar coletivamente um manifesto com os valores compartilhados por todos. “Eu fico chateado de ver os planos familiares divididos entre o infantil e o adulto”, diz Abud, pai do caçula, León. Os quatro mais velhos, fruto do primeiro casamento de Mayra, estão incluídos em todos os planos que quiserem, seja na viagem internacional, seja no acampamento na montanha. “Se o entretenimento não for para a família como um todo, parece que ter um filho significa viver num mundo chato onde tudo é mamadeira e fralda.” A convivência intensa escancara “monstrinhos” que variam de idade para idade. Para o bebê, pode ser o monstrinho do sono; para os adolescentes, o dos hormônios ou da vontade de estar sempre em primeiro lugar. Os autores incluem os próprios monstros, como o medo do ridículo e o autoboicote. “Talvez o maior legado que possamos deixar para os nossos filhos seja mostrar a eles a diferença entre o que somos e o que achamos que somos, e isso passa por todas as conversas que ninguém quer ter. Esse livro nasce com o intuito de expor para acolher”, escreve Mayra.

“Sinto que nossa missão como comunidade é criar uma geração mais autônoma, pronta para vidas reais”

O casal — que já levou seu bebê para o Deserto do Saara e é fã de festivais como o Burning Man, realizado também no deserto, só que nos Estados Unidos — programou um lançamento diferente no fim deste mês no Voador, uma mistura de hotel com camping em Atibaia. Cada clã se hospedará em sua barraca com quintal próprio. Aventureiros de primeira viagem podem ficar tranquilos: confortos como revestimento térmico no piso da tenda, camas e chuveiro quentinho privativo fazem parte do pacote. “Nossa proposta sempre foi incentivar a programação coletiva, mas o contexto atual exigiu adaptações”, conta Thais Borghetti, uma das fundadoras do espaço que dispõe de lago, trilhas e muito verde para brincar de caça ao tesouro, entre outras diversões analógicas. “No espírito de camping de fazer as coisas com as próprias mãos, nós propomos que cada família faça seu pão na fogueira.” Ainda que mantendo o distanciamento entre os integrantes de casas diferentes, a ideia é tirar o período para estreitar os laços. “Nosso conceito sempre foi o convite à conexão das relações, por isso mesmo antes da pandemia não tínhamos monitoria”, finaliza Thais.

Alexandre Battibugli/Veja SP

Se para muitos núcleos a quarentena trouxe dificuldades inéditas, para o clã fantástico os desafios já estavam nítidos desde antes. “Foi muito curioso ver como o livro estava adiantando questões que a gente viveu na pandemia”, afirma Abud. “Quando tiramos a escola, o mercado, a rotina, tudo, fica claro como é necessária a reinvenção do que estava estabelecido. Vem o questionamento: quanto tempo você realmente investe no que é importante?” No caso deles, a resposta veio como um retorno para a cozinha. Na verdade, a criação de uma nova cozinha onde era a garagem. Funciona ali a produção da Feito por Nós Abbondanza, marca que entrega em casa criações de Mayra. Diferentes a cada semana, os kits podem ter pedidas como uma focaccia de tomate confit caprichada no azeite de alho ou uma salada panzanella. “Foi um processo de cura conseguir fazer o pão. Vinha prestando mais atenção no tempo das coisas, e o pão demora para se manifestar”, afirma Mayra. Para quem está considerando repensar a rotina familiar, sua conquista instiga o apetite por mudança. “É do meu clã para o seu.”

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Publicado em VEJA SÃO PAULO de 9 de setembro de 2020, edição nº 2703.

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