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Ator Vinicius Calderoni indica sitcom irônica para ver na Netflix

"A opção pela antropomorfização (atribuição de características humanas a animais) potencializa a força do relato e a expressividade do humor"

Por Redação VEJA São Paulo Atualizado em 4 out 2018, 14h31 - Publicado em 4 out 2018, 14h23

Um astro decadente de Hollywood passa os dias alcoolizado e nostálgico da popularidade dos anos 90, quando brilhou em uma sitcom. Leia essa frase em voz alta: soa como uma premissa familiar, vista em obras de arte e na vida real. Mas imagine que o protagonista é um cavalo bípede, que fala e pensa como homem, num mundo  dividido entre seres humanos e animais: eis a base da animação  americana Bojack Horseman, criada por Raphael Bob-Waksberg.

A série está na quinta temporada, mas, para evitar spoilers, vou me deter no início da primeira. Bojack (dublado por Will Arnett), um ator-cavalo, vive em uma espiral de autoaversão e abuso de álcool e drogas, dividindo a casa com Todd (dublado por Aaron Paul), um amigo humano tratado como subordinado. Bojack namora sua  agente, a gata Princess Carolyn, que, insatisfeita, termina o relacionamento. De dentro da mesmice, Bojack é convidado a escrever a autobiografia e enxerga aí a chance de reabilitar sua carreira. Para executar tal tarefa, ele recruta uma ghost-writer, a graciosa humana Diane Nguyen, namorada de mr. Peanutbutter, um cão labrador que estrelava uma sitcom cujo enredo imitava o programa de Bojack.

Pareceu louco? Tudo flui muito naturalmente. A opção pela antropomorfização (atribuição de características humanas a animais) potencializa a força do relato e a expressividade do humor. Ver um cavalo, uma gata ou um cão tendo atitudes humanas cria um tipo de distanciamento eficaz que torna os assuntos mais pungentes. Bojack Horseman figura no rol de excelentes animações adultas, movimento encabeçado por Os Simpsons e seguido pelas obras-primas South Park e Family Guy. Apesar de o nonsense ter um papel importante, existe aqui espaço para a melancolia, a ironia e o riso amargo. Com um visual e uma paleta que remetem à obra do pintor britânico David Hockney, paira sobre os episódios uma fina camada de amargura: sonhos não realizados, promessas frustradas, personagens que lidam com impossibilidades e inabilidades, não raro nostálgicos de um tempo que não existe mais. É quase como se a los Angeles da série abrigasse ecos da Rússia da virada do século XIX para o XX retratada por Anton Tchecov em suas peças teatrais.

O protagonista integra o time de anti-heróis dessa onda da teledramaturgia nos anos 2000, composta de Tony soprano (Família Soprano), Walter White (Breaking Bad), Don Draper (Mad Men) e Frank Underwood (House of Cards). A despeito do carisma, é um personagem trágico, atravessado por questões morais e uma história familiar dolorosa, com uma ética duvidosa, e um devoto praticante do hedonismo das celebridades. Bojack Horseman se revela um fascinante comentário sobre o tempo, reflexão agridoce profunda e comédia eficaz. Corra ao sofá para assistir aos 61 episódios das cinco temporadas e sinta a ironia mais fina em doses cavalares.

> Bojack Horseman está disponível na Netflix.

Vinicius Calderoni é ator, dramaturgo e músico Bob Sousa/Divulgação
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