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As novas estratégias adotadas por pequenas livrarias para sobreviver à pandemia

Comércios de bairro trocam a vantagem da presença dos donos por vendas e eventos on-line

Por Tatiane de Assis - 22 May 2020, 11h15

Por trás da editora de publicações independentes Lote 42, da pequena livraria Banca e do espaço cultural Sala Tatuí, em Santa Cecília, estão a argentina Cecilia Arbolave, 34 anos, e o marido, o gaúcho João Varella, 35 anos. Como muitos comerciantes, eles viram antigas fontes de receita secar com a quarentena. “Estávamos acompanhando a evolução do contágio pelo vírus quando a Organização Mundial da Saúde declarou a pandemia, em 11 de março”, relembra ela. A avalanche arrastou para a geladeira a realização de cursos, a participação em feiras e a comercialização tête-à-tête de títulos. Sobreviveram a venda em sites parceiros — mas com queda de 60% — e as transações na loja virtual própria. Nesse último caso, a estruturação anterior da plataforma com uma base de clientes já consolidada garantiu um aumento de 70% dos negócios. “Só vamos abrir quando for seguro para nossos leitores e bom para a cidade”, afirma Cecilia, que descarta previsões de data em decorrência da instabilidade da situação.

Criatividade em ação: bordado em fotografia, de Camila Amorim, da Banca Curva Reprodução/Instagram/Veja SP

Localizada pertinho do “complexo Tatuí”, a Banca Curva está em um clima mais melancólico. O ponto, em uma das esquinas da Praça Rotary, completou dois anos em 16 de março. “Pensei em dar uma festa no fim de semana anterior à data, mas afastei a ideia para evitar aglomeração”, conta Rodrigo Motta, de 36 anos, proprietário do negócio, que mescla livros com obras de arte. O lucro bruto da pequena loja girava entre 4 000 e 6 000 reais por mês. “Estou sobrevivendo com as economias que juntei e com a ajuda da minha companheira”, explica. Ele não pretende montar uma banca virtual devido a dificuldades, como a logística. “Não tenho caixas para envio e tenho medo de sair e expor meu filho, que só tem 2 anos”, afirma o paulistano.

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A relutância de Motta em fazer um site não é algo incomum no mercado. Diante dos problemas enfrentados pelas grandes redes, como a Cultura e a Saraiva, as pequenas livrarias vinham ganhando força justamente pelas vantagens das características off-line. “Estava em curso o resgate do modelo de bairro, com uma curadoria forte e cuidadosa, mas agora a missão é sobreviver”, afirma Bernardo Gurbanov, presidente da Associação Nacional de Livrarias. Para “trocar as rodas com o carro andando”, Gabriel Lima, fundador da consultoria de e-commerce Enext, prevê a aproximação com grandes plataformas, como a Amazon. “A venda em marketplaces é oportunidade em potencial de uma saída rápida para comercialização e digitalização de estoques”, diz Lima. Sobre as melhores formas de rentabilizar o uso das redes sociais, o consenso passa longe. “Não há uma única saída, o ideal é mesclar alternativas, como Instagram, WhatsApp e Facebook.”

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As transmissões ao vivo da livraria Mandarina Divulgação/Livraria Mandarina/Veja SP

Para a Associação Nacional de Livrarias, a solução passa pelo maior apoio do poder público. “A recomposição do capital de giro é crucial para pequenas e médias livrarias. Precisamos de linhas de crédito que tenham juros baixos”, diz Gurbanov. Em tom otimista, na medida do possível, a pequena livraria Mandarina, em Pinheiros, vem tendo bons resultados durante a crise. “Nosso faturamento não aumentou, mas temos mantido nossa receita”, diz Roberta Paixão, uma das proprietárias. Na receita improvisada para se adaptar, elas têm utilizado o Instagram, o recurso de lista de transmissão no WhatsApp e trabalhado em uma loja virtual, que deve ser lançada na próxima semana. “Se quiser anotar aí, as próximas lives vão ser com os autores Joca Terron e Milton Hatoum”, avisa a outra sócia, Daniela Amendola, em clima de quem abriu uma brecha na incerteza vigente.

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