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Em Terapia Por Arnaldo Cheixas Terapeuta analítico-comportamental e mestre em Neurociências e Comportamento pela USP, Cheixas propõe usar a psicologia na abordagem de temas relevantes sobre a vida na metrópole.

“Livros” de colorir não são terapia (e nem livros)

Desde o lançamento em 2013 da obra Secret Garden – de autoria da ilustradora escocesa Johanna Basford – em Londres, os chamados livros de colorir para adultos viraram febre em muitos países do mundo. No Brasil, ela chegou em 2014 com o lançamento da edição nacional, batizada de Jardim Secreto. Atualmente há dezenas de títulos do tipo publicados […]

Por Carolina Giovanelli Atualizado em 26 fev 2017, 16h22 - Publicado em 3 jun 2015, 00h18
Jardim Secreto Livro de Colorir

A obra Jardim Secreto: ela deu início à moda

Desde o lançamento em 2013 da obra Secret Garden – de autoria da ilustradora escocesa Johanna Basford – em Londres, os chamados livros de colorir para adultos viraram febre em muitos países do mundo. No Brasil, ela chegou em 2014 com o lançamento da edição nacional, batizada de Jardim Secreto. Atualmente há dezenas de títulos do tipo publicados por diferentes autores.

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Quando me perguntaram pela primeira vez se os livros de colorir podem ser considerados um tipo de terapia, eu me prendi a outro questionamento. Será que, antes, podem ser considerados livros? É estranho verificar que, dos vinte livros de não ficção mais vendidos no Brasil na última semana, onze são de colorir, ou seja, livros sem texto.

Claro que este retrato da última semana tende a mudar assim que a moda passar, mas não deixa de ser um fato que chama a atenção. Parece que continuamos lendo muito pouco. Bom… Eu prefiro chamar essas obras de cadernos de colorir, sem nenhuma depreciação de seu valor artístico intrínseco. Mas isso é outra questão.

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Comumente a intenção de quem compra esse material é aliviar o estresse. A atividade de colorir é prazerosa, relaxante e até um pouco viciante. Aí surge uma questão. Será que colorir imagens em preto e branco pode ser considerado um tipo de terapia? A resposta se mostra rigorosamente “não” mas, na verdade, tudo depende de como fazemos a pergunta.

camila gomes lopes

A designer de moda Camila Gomes Lopes: adepta do passatempo (Foto: Mário Rodrigues)

Terapeutas ocupacionais e arteterapeutas usam a atividade de colorir no contexto clínico há décadas. Carl Gustav Jung foi provavelmente o primeiro profissional a utilizar a arte como estratégia clínica dentro do consultório, muito embora outros estudiosos já houvessem se interessado pela ligação entre arte e saúde mental anteriormente (Sigmund Freud, Max Simon, Hermann Rorschach…). O colorir aparece como uma estratégia terapêutica dentre outras: colagem, desenho, tecelagem, música, escultura etc.

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Em outras palavras, os aspectos terapêuticos de colorir um desenho podem ser administrados por um profissional habilitado dentro do contexto clínico. A função terapêutica do colorir não se define em si mesma mas sim de acordo com objetivos previamente estabelecidos voltados para a saúde mental do paciente/praticante.

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Ou seja, colorir por si só não é uma terapia mas pode sim ser uma estratégia terapêutica usada por um profissional habilitado da área da saúde (enfermeiros, médicos, terapeutas ocupacionais, psicólogos) durante a terapia de pacientes com depressão, ansiedade, transtorno do estresse pós-traumático e outros transtornos mentais.

@ludmilasampaio

Pintura feita pela leitora Ludmila Sampaio (@ludmilasampaio)

Fora do contexto clínico, colorir é sim uma atividade relaxante ou até mesmo terapêutica (se tomada a expressão no senso comum), mas nunca uma terapia em si. Neste sentido, portanto, colorir configura algo tão terapêutico quanto montar um quebra-cabeça, pedalar, receber massagem ou estourar plástico de bolhas.

Isso não quer dizer que o trabalho de Johanna Basford, e o de quem pegou carona na sua criatividade, não tenha seu valor. Na verdade, ele tem um valor imenso cuja legitimidade não depende em nada de sua possível função terapêutica. O valor da obra de Basford está em sua arte simplesmente.

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O que tornou sua obra impressa (e suas réplicas) uma febre foi a novidade do meio de publicação e talvez também o fato de ser uma proposta nova para escapar um pouco do universo digital ao qual temos nos sentido presos na atualidade. Assim, colorir desenhos em preto e branco se mostra um jeito bacana de passar algum tempo fora do contato com as telas dos computadores, tablets e smartphones, mesmo que não seja uma terapia no sentido estrito.

Mas anotem aí: não duvido que em breve surjam aplicativos ou edições digitais dos chamados livros de colorir. Aí sim já será caso de terapia.

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