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Yara de Novaes e as indecências de “Contrações” e No Quarto ao Lado”: “falar de mulher e sexo ainda é tabu”

Gosto de gente que transforma a voz enquanto fala. Principalmente, diante de um assunto que exige uma tomada de posição. Foi assim uma vez, enquanto entrevistava a mineira Yara de Novaes, logo depois da estreia da peça As Meninas, dirigida por ela em 2009 com base no romance de Lygia Fagundes Telles. Na época, Maitê Proença […]

Por Dirceu Alves Jr.
Atualizado em 26 fev 2017, 23h30 - Publicado em 21 nov 2013, 17h05
Yara de Novaes: atriz em "Contrações" e diretora em "No Quarto ao Lado — O Espetáculo do Vibrador" (Foto: João Caldas)

Yara de Novaes: atriz em “Contrações” e diretora em “No Quarto ao Lado — O Espetáculo do Vibrador” (Foto: João Caldas)

Gosto de gente que transforma a voz enquanto fala. Principalmente, diante de um assunto que exige uma tomada de posição. Foi assim uma vez, enquanto entrevistava a mineira Yara de Novaes, logo depois da estreia da peça As Meninas, dirigida por ela em 2009 com base no romance de Lygia Fagundes Telles. Na época, Maitê Proença também havia escrito e lançado um espetáculo homônimo que nada tinha a ver com Lygia e gerou polêmica. “São trabalhos distintos, mas, apesar de ser comum, o título As Meninas designa uma obra cuja notoriedade ultrapassa seu significado inicial e remete, sim, ao livro de Lygia”, respondeu Yara, incisiva, o que me impressionou diante do contraste com a delicadeza mostrada até então.

Voltei a conversar mais longamente com a atriz e diretora de 47 anos, que está nos palcos paulistanos com dois espetáculos. Em Contrações, ela divide a cena com a amiga e sócia Débora Falabella em uma história sobre o mundo corporativo em que uma poderosa chefona testa seu poder diante da subordinada até as últimas consequências. Como encenadora, Yara acaba de estrear a comédia No Quarto ao Lado – O Espetáculo do Vibrador, texto da americana Sarah Ruhl ambientado no final do século XIX, que, segundo ela, diz muito sobre as mulheres de hoje. Mais uma vez, fiquei impressionado com as nuances da voz de Yara, suas ideias e, principalmente, suas posições firmes em assuntos que precisam de posições firmes.

O começo de tudo

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“Desde os 15 anos, eu sabia que seria atriz. Decidi ainda na adolescência trabalhar com teatro e, logo, passei a integrar um grupo de Belo Horizonte. Como em qualquer coletivo, transitei por várias funções, fazia de tudo um pouco. Aos 21, assinei a minha primeira direção, Casablanca, Meu Amor, uma peça de Fernando Arrabal. Então, eu fui dirigir esporadicamente e era atriz o tempo inteiro.”

Opções profissionais

“Sou fascinada pela relação do ator com o personagem. Como o artista vai se expressar para dar vida àquela outra pessoa, que pode ser tão diferente dele, entende? Aos poucos, eu migrei mais para a direção e passei a ser uma atriz bissexta. O que me interessa mostrar em cena é aquilo que quero falar, a mensagem que me provoca no momento. Por isso, existe o Grupo 3 de Teatro, que fundei ao lado da Débora Falabella e do Gabriel Paiva. Com um grupo próprio, o caminho se torna mais fácil. Como atriz ou diretora, eu procuro um trabalho que esteja ligado ao meu desejo de falar. Talvez por isso tenha feito tão poucas coisas em televisão ou cinema. Na verdade, quase nada.”

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Uma diretora do universo feminino

“Pois é… Sempre sou chamada para dirigir peças sobre mulheres. Foi assim em As Meninas, A Mulher que Ri, Maria Miss e até mesmo em O Caminho para Meca, em que tive o prazer de trabalhar com Cleyde Yáconis. Mesmo quando o assunto gira em torno do mundo masculino, o feminino é muito forte, que é o caso de O Amor e Outros Estranhos Rumores. Eu não pretendo inserir nenhum discurso feminino, mas a minha leitura é inegavelmente feminina. Tenho a memória de mulher.”

Discussões oportunas

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“Nessa minha nova peça como diretora, No Quarto ao Lado – O Espetáculo do Vibrador, a mulher está começando a sacar o seu corpo. Temos ali um médico do final do século XIX que começa um tratamento envolvendo um aparelho elétrico capaz de tranquilizar as mulheres. Sabe que ainda hoje, em 2013, eu converso com alguns jornalistas que me perguntam como é tratar de um tema desses sem ficar indecente? Como assim? Indecente para mim é a história de Contrações, a peça que faço ao lado da Débora sob a direção da Grace Passô.”

Débora Falabella e Yara de Novaes em "Contrações": temporada até 21 de dezembro no CCBB (Foto: Rodrigo Hypolitho)

Débora Falabella e Yara de Novaes em “Contrações”: temporada até 21 de dezembro no CCBB (Foto: Rodrigo Hypolitho)

As indecências de Contrações

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“A história de Contrações nada mais é que uma herança absurda desse mundo masculino que insistimos em aceitar. Como a mulher pode lidar com a vida doméstica e profissional ao mesmo tempo? É disso que trata a peça. Parece que nós precisamos nos esterilizar para ter sucesso profissional. Não, não é bem assim. Precisamos mudar essa mentalidade. Só não sei de que forma. Na cabeça dos empregadores, a mulher produz menos porque em um determinado momento vai engravidar e tirar licença-maternidade. E vem na cabeça o dinheiro que a empresa perderá porque a funcionária vai deixar de produzir por seis ou sete meses.”

O tabu do sexo

“Coincidência ou não, No Quarto ao Lado – O Espetáculo do Vibrador levanta um questionamento semelhante. Só que de uma forma engraçada. Ali, temos novamente o jogo de expectativas com a mulher na sociedade subjugada pelo homem. Tudo o que é abordado no texto da Sarah Ruhl ainda está presente no nosso cotidiano. Muitos homens desconhecem o caminho do prazer, do gozo feminino. Olha a quantidade de meninas se retocando, se enchendo de cirurgias plásticas, que vemos por aí. Por que elas fazem isso? Para cumprir um modelo para agradar um homem. Falar de mulher e sexo ainda é tabu, por mais absurdo que isso apareça.”

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Na vida pessoal

“Era casada com o jornalista Fernando Rocha (apresentador do programa Bem Estar, da Globo) e estávamos morando no Recife por causa do trabalho dele. E surgiu a possibilidade de transferência para São Paulo, uma ideia que a gente sempre gostou. Nesse tempo, a Débora também casou com um paulista e veio morar aqui. O Gabriel logo mudou para cá. Brinco que nós três viemos para São Paulo por causa dos amores e não por causa do teatro (risos). Então criamos o Grupo 3. Eu tenho dois filhos, o Pedro, de 21 anos, e o Rafael, de 15. Já são, na verdade, dois rapazes. Se existe essa conciliação entre ser mãe e profissional? Olha, a gente finge que existe. Mas a verdade é que eles sempre viveram grudados em mim, corriam pelas coxias, viajavam para lá e cá. Eu sou uma típica mãe mineira. Gosto de todos grudados em mim.”

O elenco de "No Quatro ao Lado — O Espetáculo do Vibrador": em cartaz no Teatro Jaraguá (Foto: João Caldas)

O elenco de “No Quatro ao Lado — O Espetáculo do Vibrador”: em cartaz no Teatro Jaraguá (Foto: João Caldas)

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