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Valéria Arbex fala sobre “Salamaleque” e cultura árabe: “muitas vezes, somos reduzidos à esfiha, quibe e intolerância”

A paulistana Valéria Arbex, de 35 anos, protagoniza o monólogo “Salamaleque”, escrito por Alejandra Sampaio e Kiko Marques com base em uma intensa pesquisa da própria atriz. No palco, ou melhor, em uma cozinha. a personagem Elizete, neta de imigrantes árabes, repassa o passado familiar e compartilha as histórias de seus avós e bisavós durante […]

Por Dirceu Alves Jr. Atualizado em 26 fev 2017, 18h30 - Publicado em 26 fev 2015, 15h34
Valéria Arbex em "Salamaleque" sessões gratuitas no Instituto Capobianco

Valéria Arbex em “Salamaleque” sessões gratuitas aos sábados e domingos no Instituto Capobianco

A paulistana Valéria Arbex, de 35 anos, protagoniza o monólogo “Salamaleque”, escrito por Alejandra Sampaio e Kiko Marques com base em uma intensa pesquisa da própria atriz. No palco, ou melhor, em uma cozinha. a personagem Elizete, neta de imigrantes árabes, repassa o passado familiar e compartilha as histórias de seus avós e bisavós durante o preparo de receitas típicas dos antepassados. A simplicidade com que Valéria conduz a montagem, dirigida por Denise Weinberg e Kiko Marques, cativa os espectadores, que ainda recebem uma amostra das comidas finalizadas durante a peça. “Salamaleque” pode ser visto Instituto Cultural Capobianco, pertinho do Anhangabaú, aos sábados e domingos, às 16h, até 26 de abril, com entrada franca. Ingressos são distribuídos uma hora antes. Valéria bateu um papo com a gente.

+ Leia crítica de “Salamaleque”.

Onde começa a ficção é o que é real na história de “Salamaleque” em relação ao passado de sua família?

Tudo começou com as 68 cartas de amor trocadas por meus avós entre 1937 e 1939. Os dois vieram da mesma cidade, Yabroud, no interior de Damasco, na Síria, e estabeleceram essa correspondência por aqui, entre Cerqueira Cesar e Piraju. Desde criança, eu sabia da existência delas, lá no armário de roupas da minha avó Nadime, embrulhadas em um papel de seda com uma fita vermelha. O combinado era que Claudia, minha irmã, herdaria as cartas. Convivi com minha avó até sua morte, quando eu tinha 14 anos, e não conheci meu avô Nicolau. Logo que comecei a fazer teatro, eu despertei o interesse por estudá-las Pensei que essas cartas não poderiam amarelar numa gaveta.

Elas tinham algum teor erótico, como está no espetáculo?

Não, as cartas não tinham teor erótico. Isto já é ficção. Constatei nas leituras que meu avô era um poeta e minha avó, um pouco malcriada e tempestuosa. Em 2005, eu iniciei uma pesquisa sobre a cultura árabe, que envolveu política, religião, entrevistas com filhos e netos de imigrantes árabes, além de leitura de teses e tudo que envolvia o universo árabe. Viajei para o Rio de Janeiro, a cidade do meu bisavô Neif. Existe até hoje por lá a loja de armarinhos, inaugurada por ele em 1929. Depois, propus a Alejandra Sampaio, minha amiga de muitos anos, que tocasse a dramaturgia. Logo, a Denise e o Kiko também abraçaram o projeto.

+ Leia perfil da atriz e diretora Denise Weinberg.

Vivemos em uma cidade em que a imigração foi fundamental na sua formação. De que forma você acha que esse diálogo teatral é estabelecido com o paulistano? Você percebe um interesse maior dos descendentes de árabes?

Pude constatar nas duas temporadas e viagens com “Salamaleque” que a memória pertence a todos. Minha alegria é perceber que o nosso encontro pertence a todos os povos. Quase todo mundo tem um avó ou bisavô que chegou ao Brasil de navio. No momento da ceia, ao redor da mesa, muitos relatos são feitos. Uma senhora me contou de uma amiga que lia a borra de café. Ao colocar o público dentro da cozinha, de forma acolhedora, travo uma relação de afeto entre a personagem e o espectador. A sua história também é relembrada, vem o cheiro da sua infância, a comida estabelece a memória de cada um. Algumas pessoas que são de Piraju se lembraram da loja do meu avô Nicolau. Outros conheceram o meu tio e a minha mãe. São surpresas que o teatro proporciona. “Salamaleque” contribui para desmistificar a imagem do povo árabe. Muitas vezes, somos reduzidos à esfiha, quibe e intolerância. Tudo isso também tem sua importante, mas jogamos luz sobre outros aspectos fundamentais para a formação da nossa pátria.

arbex3Para um ator, fica mais fácil falar no palco de um assunto relativo a sua própria vivência?

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“Salamaleque” é a minha história também. Conto muito da minha ascendência e é bastante tocante estar tão próxima de fatos reais. Eu me emociono todos os dias, mas, claro, a personagem Elizete é a condutora da peça. Como diretores, Kiko e Denise escolheram uma interpretação de simplicidade, do olhar direto para o público, da relação direta mesmo. É um encontro meu com os fantasmas familiares e também do espectador com sua memória.

+ Ingressos de “Chacrinha, o Musical” já estão à venda.

Encontrou algum tipo de resistência na própria família? 

Minha mãe sempre apoiou minha decisão de recontar a histórias de pais dela. Tanto que ficou extremamente emocionada a primeira vez que assistiu ao “Salamaleque”. É inevitável porque as lembranças são fortes. Conseguir reverenciar a minha avó e suprir a ausência do avô por meio do teatro é de uma beleza sem tamanho.

+ Protagonista de “Marica”, Washington Luiz fala de García Lorca e preconceito.

Como é feito o preparo das comidas oferecidas no espetáculo?

Tenho uma consultora, Graziela Tavares, que pensou comigo e a direção o que deveria ter na mesa de uma família árabe. Ela criou a água aromatizada. Achamos que o pão com zátar era um símbolo do imigrante árabe, assim como as pastas, que são tão bem assimiladas pelos brasileiros. Nós temos o apoio do restaurante Arábia, que nos envia as pastas, e os pães da Merempo. Os doces de goma, os rahas, eram as delícias da minha infância, por isso fiz questão que estivessem na ceia.

Você cozinha?

Gosto de cozinhar e preparo alguns pratos. Sei fazer o homus, por exemplo. Faço também o pão com zátar e a água aromatizada.

Valéria Arbex: histórias da ascendência árabe inspiraram "Salamaleque (Fotos: Lenise Pinheiro)

Valéria Arbex: histórias da ascendência árabe inspiraram “Salamaleque” (Fotos: Lenise Pinheiro)

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