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Mário Bortolotto, o novo cinquentão da Praça

Mário Bortolotto deve ter escrito ao todo cerca de 50 peças. Ninguém sabe muito bem ao certo. Nem ele. Se a gente fosse estabelecer uma falsa cronologia daria um novo texto a cada ano. Sim, o falso “bad boy” do teatro paulistano – tá, Mário… Perdoa a brincadeira? – entra para o time dos cinquentões […]

Por Dirceu Alves Jr. Atualizado em 27 fev 2017, 12h02 - Publicado em 28 set 2012, 08h51

Mário Bortolotto se transformou no principal nome do movimento de renovação teatral consolidado na Praça Roosevelt na década de 2000 (Foto: Bob Sousa)

Mário Bortolotto deve ter escrito ao todo cerca de 50 peças. Ninguém sabe muito bem ao certo. Nem ele. Se a gente fosse estabelecer uma falsa cronologia daria um novo texto a cada ano. Sim, o falso “bad boy” do teatro paulistano – tá, Mário… Perdoa a brincadeira? – entra para o time dos cinquentões nesse sábado, no dia 29 de setembro. O ator, dramaturgo e diretor paranaense, radicado em São Paulo há duas décadas, transformou-se com muito trabalho e algumas lendas em um dos nomes mais significativos do teatro daqui – e também do brasileiro. Principalmente, durante os anos 2000, quando seu nome foi fundamental para tornar relevante o efervescente movimento de renovação instalado na Praça Roosevelt.

Foi nessa mesma praça que Bortolotto, na madrugada de 5 de dezembro de 2009,  quase dançou. Durante um assalto a um bar dali, ele foi baleado e ficou quase um mês no hospital. Mas esse papo já passou. Desde o início desse ano, Bortolotto ocupa o Estação Caneca, ali na Rua Frei Caneca, e tem apresentado de quartas a domingos, com ingresso na base do “pague quanto quiser”, as principais peças do repertório de seu grupo, o Cemitério de Automóveis. Na quarta (3), “Uma Pilha de Pratos na Cozinha”, de 2007, volta ao cartaz. Na opinião desse jornalista, essa é uma das três fundamentais de sua obra, ao lado de “Nossa Vida não Vale um Chevrolet” e “Homens, Santos e Desertores”.

E agora vamos ao o que interessa! O cinquentão Mário Bortolotto vai falar para o blog. E quem faz as perguntas – todas muito legais, por sinal – não sou eu. É um povo convidado que torna a coisa bem mais interessante. Para começar, a grande atriz Denise Weinberg ganha a palavra. O resto é com vocês, pessoal!

 

Denise Weinberg, atriz – Dando uma leve olhada para trás, acha que seu caminho foi aquele que você intuía de alguma forma, ainda lá no Paraná, ou você tomou rumos que jamais poderia ter imaginado na adolescência? Como é, agora aos 50, você com você mesmo?

Bortolotto – Eu me surpreendo quando percebo que não mudei coisa nenhuma. Que sou o mesmo moleque (agora com 50 anos) com os mesmos ideais. E quer saber? Fico o mó orgulhoso de ter conseguido permanecer assim. Acredito que consigo ser um pouco mais contundente hoje em dia, mas ainda sou o mesmo moleque com os mesmos sonhos e os mesmos ideais. E eu nunca me desvirtuei. Fico orgulhoso mesmo.

 

Alexandre Reinecke, diretor – Na atual conjuntura política do país, onde vivemos a tal da “piada pronta”, que na verdade é uma tragédia para a maioria, você acha que ainda existe espaço para um teatro político e crítico, como no auge da ditadura? Você escreveria uma peça com temática política?

Bortolotto – Pô, Reinecke, você me conhece o suficiente pra saber que eu não tenho o menor saco para a política. É claro que nós vivemos um momento delicado com a ameaça crescente de nossa cidade vir a ganhar um total domínio evangélico e algo deve ser feito contra isso, embora eu acredite também que isso é inevitável. E eu sempre faço questão de deixar clara minha opinião em relação a isso. Eu fico muito triste imaginando São Paulo na mão desses caras. Mas não creio que o teatro tenha a ver com esse compromisso. O teatro tem que ser poético. Só acredito no teatro como poesia, como reflexão que vai muito além do político puro e simples. Como diria Glauber Rocha, “política e poesia, é muito para uma pessoa só”.

 

Otávio Martins, ator e diretor – Qual foi a melhor e a pior experiência que o teatro já te proporcionou?

Bortolotto – A melhor foi a camaradagem da rapaziada que trabalhou comigo, o companheirismo, o se ferrar junto. E a pior foi eu acreditar que o sujeito era meu camarada e depois descobrir que o cara estava armando para cima de mim, para me ferrar. O pior é essa sensação de não pertencer a uma irmandade que você acreditava pertencer, que essa “irmandade” era uma farsa.

 

Marcelo Médici, ator – Assisti a um trabalho em que você apenas atuava. Foi no sensacional espetáculo “Santidade”, escrito pelo José Vicente e dirigido pelo grande Fauzi Arap. Como foi esse encontro com o Fauzi Arap e o que te motiva como ator?

Bortolotto – O Fauzi é meu ídolo. Trabalhei com ele em três ocasiões. Nessa que você citou, no espetáculo “Frida Kahlo” e no monólogo “Kerouac”, além dele ter dirigido o meu texto “Deve ser do Caralho o Carnaval em Bonifácio”. O Fauzi é um grande amigo. Ele me ensinou muito. Aprendi mais com ele que com qualquer outro nesse mundo. Ele me viu no espetáculo “Inimigos de Classe” no Festival de São José do Rio Preto, em 1991, e me convidou pra vir para São Paulo. É um mestre fundamental. O que me motiva como ator é o fato de eu poder me divertir acima de tudo, e quando eu digo “me divertir” vai muito além do mero conceito de diversão. Eu falo de conseguir ficar pleno, de realmente me sentir parte de algo muito legal. De estar realmente lá no palco falando um texto em que acredito. Por isso, eu só interpreto textos meus ou textos de pessoas que acredito no que elas escreveram. É só isso que importa. E é por isso que eu não faço comercial. Eu defendo ideias. Como eu poderia defender ideias se eu estivesse fazendo uma propaganda de margarina, por exemplo?

 

Ester Laccava, atriz – Sua relação com a música é algo que me chama atenção nos seus trabalhos, com trilhas sonoras muito intensas. Com 50 anos, cantando bastante e muito bem com a sua banda, o “Mario cantor” tem mais prazer que o “Mario ator, diretor e dramaturgo”? É mais gostoso cantar?

Bortolotto – Cantar é tão gostoso como atuar. O que é diferente é a relação com a banda e a relação com o grupo. Na banda, a relação é mais tranquila, e eu não me sinto tão responsável. Eles confiam em mim, assim como eu confio neles, mas todos nós dependemos um do outro com a mesma intensidade e há um profundo respeito entre nós. No grupo, eu tenho que tomar mais decisões, me colocar à frente e, inclusive, arcar sozinho com os inevitáveis furos alheios.

 

Zé Henrique de Paula, diretor – Como você imagina o lugar ocupado pelo teatro nessa sociedade contemporânea urbana, conservadora e consumista?

Bortolotto – O teatro é o patinho feio das artes. Ninguém se preocupa muito com o teatro. Mas na verdade é o último bunker de resistência. E o mais importante. Onde mais você pode chamar um amigo, conseguir uma sala, colocar duas cadeiras e fazer um espetáculo? E um espetáculo onde você pode dizer exatamente o que você quer, sem pressão de patrocinadores ou de patrões? Para todas as outras artes, você vai precisar de dinheiro. O teatro dá essa liberdade, essa autonomia. Não há nenhum outro lugar no mundo que seja tão livre.

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Alex Gruli, ator – Você não gosta que os diretores e atores alterem nenhuma palavra de seus textos. Já se irritou, no teatro, a ponto de perder o controle por isso? Situações como a total adaptação da peça “Nossa Vida não Vale um Chevrolet” para o cinema lhe desagradam?

Bortolotto – Eu fico muito chateado mesmo. Acho que se o cara pensa que pode fazer melhor que você a ponto de alterar o seu texto, então porque ele não escreveu o próprio texto? A adaptação de “Nossa Vida não Vale um Chevrolet” para o cinema é um dos maiores atentados à obra de alguém. Jamais vou aceitar o que fizeram com a minha peça ali. Mas, com o passar do tempo, eu estou tentando ficar mais imunizado.

 

Elias Andreato, ator e diretor – O teatro tem a mesma força do livro? O que lhe motiva mais? Escrever ou encenar?

Bortolotto – Eu escrevo porque é vital. Não há como fugir. O livro tem muito maior força, mas depende de quem se arrisque a enfrentá-lo. E são poucos, cada vez menos. Mas encenar também é muito divertido. É uma outra maneira de escrever uma história. E isso me motiva cada vez mais.

 

Aldine Muller, atriz – Um dramaturgo e diretor conceituado como você tem uma vida sexual mais fácil que os pobres mortais? Muitas aspirantes à atriz se candidatam para o teste do sofá?

Bortolotto – Pô, Aldine, eu jamais fiz teste de qualquer tipo com quem quer que fosse. Eu não gosto de fazer teste. Como diria o Itamar Assumpção, “não nasci para fazer teste, nem levo jeito para réu”. Então também não gosto de submeter ninguém a nenhum tipo de teste. Até acho que o fato de ser escritor, ator, diretor de um grupo ou cantor numa banda de rock exerça um mínimo fascínio. E faz com que eu conviva com uma pá de mulheres bastante interessantes. Se eu trabalhasse num escritório ou num serviço burocrático qualquer, eu não teria a mesma chance. Mas no dia a dia, passado o efeito da atração inicial, a gente tem que fazer valer a nossa inteligência se quiser continuar a ter uma vida sexual bacana com mulheres geniais. Não posso reclamar das minhas chances, mas jamais fiz teste com ninguém. E nem quero. Trabalho com amigos.

 

Hugo Possolo, ator e diretor – Quando assisti ao recente espetáculo “O Inferno em Mim” comentei que é um texto existencial. De que maneira um tiro e a súbita proximidade da morte influenciaram sua dramaturgia? Isso mudou o jeito de calçar seu coturno?

Bortolotto – Mudou nada, Hugo. Sou o mesmo m. de sempre. Até pensei que ia beber menos uísque, mas como você mesmo pode testemunhar na conta do Bar dos Parlapatões, não mudou coisa nenhuma. Sempre escrevi da mesma maneira, mas já há algum tempo (isso, inclusive, antes dos tiros), minha dramaturgia deu uma verticalizada radical. E agora não tem mais volta. Mas é algo que vem acontecendo desde “Efeito Urtigão”, de 1999. Muita gente me diz que gosta, mas não é a fim de assistir. Eu os entendo. Eu nunca facilitei, e só vou piorar.

 

Célia Forte, dramaturga e assessora de imprensa – O evento dos tiros com final feliz parece que só poderia ter acontecido com você como um alerta da sua resistência à ordem pré-estabelecida. Sendo assim, aos 50, sua vida vale mais que um Chevrolet?

Bortolotto – Ah, sei lá, acho que vale mais que uma CG 125. Só um pouco mais. Mas para alguns amigos, meus irmãos e minha filha, parece que ela vale bem mais. Foi o que mais me emocionou no lance dos tiros. Perceber que tinha tanta gente que realmente se importava comigo. Então está valendo.

 

Zé Celso Martinez Corrêa, diretor e fundador do Teatro Oficina – Queremos construir a Associação de Artistas Teat(r)o Oficina Uzina Uzona, a complementacão do Projeto Arquitetônico Urbano de Lina Bardi, levantado o caído Bixiga ,como os Satyros e o teu Cemitério de Automóveis, fizeram com a Praça Rossevelt. Planejamos realizar uma “Copa da Cultura 2014″ no Teatro de Estádio Oswald de Andrade”. Você toparia participar com uma peça de sua autoria nesse evento e com um show da sua banda?

Bortolotto – Pô, Zé, vamos nessa!

 

 

 

 

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