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Marco Antônio Braz estreia “O Beijo no Asfalto” e quer reler toda a obra de Nelson: “é de uma desgraçada atualidade”

Especialista em Nelson Rodrigues, o diretor Marco Antônio Braz, de 49 anos, vive para provocar e ser provocado pelas palavras do maior dos nossos dramaturgos. Com a estreia de “O Beijo no Asfalto” no Teatro Augusta no sábado (5), o encenador dá início a um ambicioso projeto: montar releituras de todas as dezessete peças escritas […]

Por Dirceu Alves Jr. Atualizado em 26 fev 2017, 14h51 - Publicado em 3 set 2015, 22h23
Marco Antônio Braz: "O Beijo no Asfalto" pode ser visto no Teatro Augusta (Fotos: Lenise Pinheiro)

Marco Antônio Braz: “O Beijo no Asfalto” pode ser visto no Teatro Augusta (Fotos: Lenise Pinheiro)

Especialista em Nelson Rodrigues, o diretor Marco Antônio Braz, de 49 anos, vive para provocar e ser provocado pelas palavras do maior dos nossos dramaturgos. Com a estreia de “O Beijo no Asfalto” no Teatro Augusta no sábado (5), o encenador dá início a um ambicioso projeto: montar releituras de todas as dezessete peças escritas por Nelson Rodrigues até o final de 2017.

Como vai ser esse projeto de levar ao palco os dezessete textos de Nelson?

A ideia de se criar uma companhia de repertório em torno da obra do Nelson vem desde a faculdade. Foi lá que meu professor e orientador José Renato Pécora me incentivou a montar “O Beijo no Asfalto” em minha formatura. A missão do projeto é levar a obra ao espectador de forma extremamente aberta, com encenações simples que deem a elas um caráter mais clássico, nas quais prevaleçam o texto e o ator. Estamos a serviço da obra e buscamos traduzir ou chegar o mais próximo do que Nelson pretendia para o seu teatro. É um projeto de formação de público. Espero que o amor que tenho pela obra rodriguiana possa estar justificado nas encenações e que de alguma forma meus cabelos brancos estejam no palco (risos).

Você vem de uma montagem recente de “O Beijo no Asfalto”, protagonizada pelo Renato Borghi. Essa corrente de ódio e intolerância que enfrentamos o fez perceber maior urgência em “O Beijo” que nos outros dezesseis textos que você pretende reler?

“O Beijo no Asfalto” foi minha primeira peça, a chave de entrada no teatro do Nelson Rodrigues. Foi a que mais li e a que mais vi na vida. Eu a li pela primeira vez aos 15 anos e, ao final, tive a impressão de que algo havia me escapado. Até hoje, eu me pego surpreendido ao ler aquelas falas que encerram o texto. Começar por ela o projeto de levar aos palcos o teatro completo do Nelson é quase como um talismã, um amuleto de sorte para que o projeto seja realizado. E é claro que “O Beijo no Asfalto” se mostra realmente pertinente. As questões tratadas ali parecem pensadas para os dias de hoje. Infelizmente, é de uma desgraçada atualidade.

De que forma você percebeu que essas peças se tornaram urgentes?

Tudo isso se tornou urgente a partir da alegria da descoberta de Nelson Rodrigues pelo grande público que compareceu aos espetáculos que fiz em 2013 no Teatro do Sesi, como “Boca de “Ouro” e “A Falecida”. Em seguida, também fiz viagens pelo Norte e pelo Nordeste. Foi aí que consegui ver de fato a carência do brasileiro por um teatro maduro e profundo. Percebi a necessidade de se conhecer Nelson Rodrigues e só por meio das montagens de seus textos é que se pode entender a grandeza poética de sua obra e encarar nossa dura realidade.

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Serão remontadas também “A Falecida”, “Boca de Ouro” e Valsa nº 6”, outra que você também revisitou há pouco?

Nesta primeira fornada que estamos ensaiando aparecem “Valsa nº 6”, “Viúva, Porém Honesta” e “Perdoa-me por me Traíres”. Em outubro, pretendemos começar a fazer ensaios abertos para estrear de vez no começo de 2016. Meu desejo é colocá-las em cartaz alternadamente de terça a domingo. Vamos viajar por dois anos pelas capitais, inclusive as mais carentes do país. O público terá a oportunidade de conhecer pela primeira vez as peças de Nelson na sequência cronológica em que foram escritas. O elenco será formado por jovens atores que estamos formando para o trabalho. Teremos também artistas convidados. Lucélia Santos, por exemplo, vai fazer “Senhora dos Afogados” e é a madrinha do projeto.

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+ Leia crítica sobre “Boca de Ouro” e “A Falecida”.

De que forma você se livra das referências já usadas e dos intérpretes anteriores de suas montagens e, se repete alguma coisa, como faz para injetar originalidade nessas releituras?

Não me livro de nada e trago todas as referências levando em conta essa experiência. Tenho refletido muito sobre a primeira versão que levei de “O Beijo no Asfalto” aos palcos, na Unirio, em 1990. Cada vez mais olho para as falas de Nelson como partituras de uma ópera e percebo o quanto os atores, cada um da sua maneira, me ajudaram com determinadas pontuações e embocaduras a compreender a teatralidade contida nelas. Brinco que o Kiko Marques e a Livia Ziotti, que também está como atriz na montagem de “Valsa nº 6”, são os spallas da orquestra.

Vamos trabalhar com uma hipótese. Se Nelson fosse vivo e estivesse produzindo aos 100 anos, como ele estaria enxergando e trabalhando em cima do conservadorismo que voltou a assolar a sociedade brasileira?

Digo sempre, ninguém fica isento diante da obra do Nelson. Acho que ele não precisaria escrever mais nada, o que disse ainda está valendo. Não sei o que estaria escrevendo, mas não acredito que estivesse tratando de denúncia social, pelo menos da forma como temos visto. Sei que suas opiniões gerariam irritação, mas o que temos de ver é a força de clássico de Nelson. Suas falas se tornaram populares e são citadas por pessoas de diferentes espectros ideológicos. “Cada um faz do morto o que quer…”

+ Claudia Raia estreia “Raia 30″ e relembra personagens inesquecíveis.

O retrocesso comportamental dos dias de hoje estaria retratado em suas “novas peças” do ponto de vista psicológico?

A obra de Nelson é muito própria, tratou do homem, do amor, da sexualidade. Acho que ainda não percebemos o peso dessas imagens e talvez por isso ainda incomode trazê-las à tona. Muitas de suas falas eram quase proféticas quando se referia à hipocrisia do brasileiro, falou das missas cômicas quando foram traduzidas do latim para o português, assim como afirmou que o brasileiro que não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte. Nossas contradições estavam todas ali, quase uma prévia do país hoje. O que pode ser mais atual, polêmico e provocador em termos de dramaturgia do que “Anjo Negro”? Uma peça pestilenta, desagradável e necessária. Será a montagem que encerrará o projeto.

Ensaios de "O Beijo no Asfalto": Braz e o ator Marcos Breda

Ensaios de “O Beijo no Asfalto”: Braz e o ator Marcos Breda

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