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Felipe Hirsch funde teatro e literatura em “Puzzle” e joga tintas fortes sobre a realidade brasileira

Realizada entre 9 e 13 de outubro, a Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, homenageou o Brasil lindo e trigueiro. Em contrapartida, artistas e escritores convidados exibiram por lá imagens de um país pouco divulgado no exterior. Concebido e dirigido por Felipe Hirsch, o espetáculo Puzzle representou o teatro no evento. A dramaturgia finalizada […]

Por Dirceu Alves Jr.
Atualizado em 26 fev 2017, 23h29 - Publicado em 22 nov 2013, 17h38
O elenco de Puzzle: em cartaz no Sesc Pinheiros — Teatro Paulo Autran (Foto: Bruno Girelo)

O elenco de “Puzzle”: em cartaz no Sesc Pinheiros — Teatro Paulo Autran (Fotos: Bruno Girelo)

Realizada entre 9 e 13 de outubro, a Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, homenageou o Brasil lindo e trigueiro. Em contrapartida, artistas e escritores convidados exibiram por lá imagens de um país pouco divulgado no exterior. Concebido e dirigido por Felipe Hirsch, o espetáculo Puzzle representou o teatro no evento. A dramaturgia finalizada por Ruy Filho foca escritores contemporâneos. Entre eles estão Amilcar Bettega Barbosa, André Sant’Anna, Bernardo Carvalho, Dalton Trevisan, Jorge Mautner, Nelson de Oliveira, Paulo Leminski, Rodrigo Lacerda, André Sant’Anna e Veronica Stigger.

Como um quebra-cabeça, a montagem é dividida em três partes independentes que, ao todo, beiram sete horas de duração. Mas acredite, você se esquecerá do relógio tamanha a contundência das situações. As cenas trazem quase a íntegra dos originais literários e traduzem o inconformismo com a realidade em tons que vão do trágico ao cômico, quase sempre com um quê de surreal. Muitas vezes, o público fica atônito com a crueza de algumas delas e reage de diferentes maneiras, mas a maioria rende-se à forma com que são interpretadas, principalmente pela força dos atores Felipe Rocha, Georgette Fadel, Isabel Teixeira, Luna Martinelli, Magali Biff, Marat Descartes e Rodrigo Bolzan. O cenário criado por Daniela Thomas espelha essas contradições. Limpo, como o papel branco que é, fica sujo aos poucos, seja pelos baldes de tinta lançados ou pelo contato com a roupa e o corpo dos atores. E, aos poucos, vira lixo, soterrando tudo e todos.

Puzzle A (130min), o melhor exemplo de encenação e aproveitamento do elenco deste conjunto, ganha o palco do Sesc Pinheiros na quinta, às 21 horas. Prepare-­se para um incômodo, mas um incômodo, digamos, necessário. Você provavelmente ouvirá coisas desagradáveis, coisas que vão lhe chocar e talvez até lhe enojar, mas tudo aquilo cumpre um dos papéis fundamentais do teatro, o da provocação. No melhor dos quadros, Rodrigo Bolzan personifica com brilhantismo o policial militar do conto A Lei, de André Sant’Anna, em um exemplo de técnica que vale por mil gestos e expressões. Com a mesma contenção, o ator fala dos seus hábitos literários, usa com um preciosismo primário as palavras e vomita sem pontos ou vírgulas a violência cometida durante as rondas, coisa que, para ele, precisa parecer normal. Mais leve e não menos polêmico é o inspirado monólogo de Magali Biff a respeito do conservadorismo, baseado no conto Na Fila do Correio, de Nelson de Oliveira. Parar rir, pensar e tentar entender por que a gente pode ser exatamente daquele jeito.

O negro que fedia

Marat Descartes em uma cena de Puzzle B: aqui, de frente para o público

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O mais surpreendente da trilogia, Puzzle B (180min), é cartaz na sexta e no sábado, às 20 horas. À primeira vista, parece uma leitura dramatizada do romance Sexo, também de André Sant’Anna, que se arrasta por mais de três horas. Nada disso. De costas para o público praticamente o tempo inteiro, os atores instigam a imaginação da plateia em uma ácida crítica cheia de repetições de tipos e situações sobre a sociedade consumista e fútil. Eles apenas manuseiam cartazes que contribuem para a localização das histórias e vão falando, falando, interpretando, criando vozes e sotaques, forçando a cabeça de quem vê a também criar as cenas, como em um livro.

Por fim ou não, afinal, você pode ver em qualquer ordem, Puzzle C (100min) tem vez no domingo, às 18 horas, e promove um mergulho sensorial entre escritores e espectadores. Felipe Rocha e Isabel Teixeira abrem com o irônico texto No Tea­tro, de Veronica Stigger, que mostra o pânico de uma mulher ao entrar em uma sala de espetáculos para ver uma peça. O poder de encenação de Hirsch atinge o auge aqui em Vista do Rio, de Rodrigo Lacerda, e Heterotanatografia, Equação de Natal – Presença Roubada e Micro-História II, de Juliano Garcia Pessanha. Um menino parado no centro no palco é iluminado. Espalhados pelos cantos do teatro, os atores funcionam como a voz inconsciente do garoto que habita dentro do adulto ou vice-versa. Como prova de coerência, no final, a montagem afunda na melancolia no quadro O ­Puzzle, de Amilcar Bettega Barbosa, que sugere imagens tristes e solitárias de uma cidade, no caso Porto Alegre, para mostrar um grupo que precisa inventar alguma coisa para a vida. Ver Puzzle não é uma tarefa simples, não é tarefa para amadores. Quase nunca os espetáculos do conjunto são divertidos ou funcionam como mera diversão. Mas o teatro, de vez em quando, deve romper os limites e não ser apenas mera diversão. E Felipe Hirsch, nesse caso, soube muito bem se fazer entender em um grande momento de sua expressiva carreira.

Leia aqui entrevista com o diretor Felipe Hirsch 

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