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Mel Lisboa e a coragem de ser Desdêmona na raça: “’Otelo’ nos ensina que é possível fazer teatro de qualidade com pouco ou quase nada de dinheiro”

De ninfeta da televisão a artista reconhecida por desbravar o improvável no teatro foi um intenso caminho. O importante é que Mel Lisboa, aos 33 anos, constrói uma trajetória surpreendente e autônoma. Ela não renega o sucesso precoce da série “Presença de Anita”, em 2001, mas foi como parceira da Cia. Pessoal do Faroeste, instalada no meio […]

Por Dirceu Alves Jr. Atualizado em 26 fev 2017, 14h24 - Publicado em 22 out 2015, 16h12
Mel Lisboa: atriz interpreta Desdemona na tragédia "Otelo" (Foto: Divulgação)

Mel Lisboa: atriz interpreta Desdêmona na tragédia “Otelo”, em cartaz na Faap (Foto: Arquivo Pessoal)

De ninfeta da televisão a artista reconhecida por desbravar o improvável no teatro foi um intenso caminho. O importante é que Mel Lisboa, aos 33 anos, constrói uma trajetória surpreendente e autônoma. Ela não renega o sucesso precoce da série “Presença de Anita”, em 2001, mas foi como parceira da Cia. Pessoal do Faroeste, instalada no meio da Cracolândia paulistana, que entendeu o significado da arte. Agora, Mel desafia os clássicos e dá vida para Desdêmona, alvo do amor e da desconfiança do personagem-título da tragédia “Otelo”, de William Shakespeare. Em cartaz no Teatro Faap, a montagem dirigida por Débora Dubois foi levantada sem patrocínio ou leis de incentivo e tem agradado a muita gente. Mel nos conta um pouco mais…

Vocês levantaram a peça na raça, com financiamento coletivo, fizeram uma bela temporada no Teatro Sérgio Cardoso e, no início do mês, chegaram ao Teatro Faap. Qual a lição que você tira dessa experiência? É possível fazer teatro, com um grupo grande, e se bancar? 

Nós estamos fazendo “Otelo” pelo amor que temos ao projeto e pela necessidade do exercício. Ainda não conseguimos “nos bancar” no sentido de receber um salário pelo trabalho. Trabalhamos com porcentagem de bilheteria e vale lembrar que os ingressos no Teatro Faap continuam sendo de R$ 40,00. Somos um grupo e dividimos tudo igualmente entre os integrantes. Trabalhamos muito mais pelo prazer de levar ao palco uma peça tão significativa e ver que o público se comove com ela. Não é o espetáculo “Otelo” que paga as nossas contas. “Otelo” nos ensina que é possível fazer teatro de qualidade com pouco ou quase nada de dinheiro.

+ Leia matéria sobre financiamento coletivo.

Qual é o significado de estar no Teatro Faap, uma sala que tem um público de classe média alta e talvez menos interessado em espetáculos experimentais?  

Acredito que o público do Teatro Faap está interessado em bons espetáculos, sejam eles experimentais ou não. Nós fomos convidados pela Claudia Hamra, diretora do teatro, para essa temporada. Ela, mais que ninguém, sabe o que o publico da Faap deseja ver ou, pelo menos, o que o teatro precisa ter em seu palco.

Você tem experiência em personagens de época. Com a Cia. Pessoal do Faroeste, já protagonizou “Cine Camaleão – A Boca do Lixo, “Homem não Entra” e “Luz Negra”. Em comum com “Otelo”, você também não viveu o período em que essas peças se passaram. Qual é a diferença de preparação para criar a Desdêmona, que tem a origem bem mais lá atrás?

São muitas as diferenças. Tanto em “Cine Camaleão” quanto em “Homem não Entra” e “Luz Negra”, o processo era colaborativo com o Pessoal do Faroeste. Com base nas pesquisas desenvolvidas pelo grupo e também individuais, as personagens se desenhavam e traçavam sua história na dramaturgia do Paulo Faria. São peças baseadas em fatos históricos relativamente recentes, marginais e paulistanos. Desdêmona é uma personagem clássica, encenada há 400 anos em inúmeras montagens por inúmeras atrizes – e também atores, na época de Shakespeare. Criar a minha Desdêmona foi possível através das pesquisas que fizemos junto ao Gilberto Martins e Ricardo Cardoso, com leituras de especialistas em Shakespeare e também com referências em filmes e vídeos. A maior dificuldade era escolher o caminho que eu iria seguir para construir sua trajetória no espetáculo. As personagens de Shakespeare parecem oferecer um leque infinito de opções para seguir e sempre temos dúvida se aquele caminho que escolhemos está ou não coerente com a personagem e com o espetáculo que está sendo levantado.

Samuel de Assis e Mel Lisboa em "Otelo": trama de paixão e ciúme (Foto: Luciano Alves)

Samuel de Assis e Mel Lisboa em “Otelo”: trama de paixão e ciúme (Fotos: Luciano Alves)

Quando nos falamos para uma matéria sobre financiamento coletivo, você disse que a equipe de “Otelo” adotou o “crowdfunding” porque queria fazer o espetáculo “agora, do jeito que fosse” e não ter que esperar meses ou anos por editais ou liberação de recursos da lei. Você acha que essa longa espera a que muitos projetos se submetem pode enfraquecer o espetáculo ou desestimular o grupo?

Sim, essa espera pode enfraquecer a todos, desestimular mesmo. As leis de incentivo são maravilhosas e acho muito importante que elas existam. Muitas vezes, porém, o processo é moroso demais. Não é raro demorar tanto para acontecer que aquele grupo de artistas não pode mais ser o mesmo do projeto inicial, porque, quando finalmente a peça vai sair do papel, ele já está comprometido com outros trabalhos. Sem falar que, quando não conseguimos captar, o projeto tão desejado vai para a gaveta. Já vivi experiências assim, inclusive investindo tempo, dinheiro e suor em projetos que não se concretizaram. É muito frustrante.

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"Otelo": Rafael Maia, Samuel de Assis e Mel Lisboa na nova montagem (

“Otelo”: Rafael Maia, Samuel de Assis e Mel Lisboa na montagem dirigida por Débora Dubois

Em “Otelo”, você trabalha com a mesma turma de “Rita Lee Mora ao Lado”. Esse trabalho em grupo fortalece a montagem de um espetáculo, para enfrentar os perrengues e mesmo saborear o sucesso, caso aconteça?

Somos mais que parceiros de trabalho, somos amigos e isso transcende o palco. Acho fundamental em teatro que haja uma boa coxia, que os atores e equipe tenham um bom relacionamento dentro e fora do palco.

Falando em grupo, esse prazer de trabalhar com uma mesma equipe é uma lição que você trouxe da Cia. Pessoal do Faroeste? 

Sim, aprendi e aprendo ainda bastante sobre teatro e sobre ser artista com o Pessoal do Faroeste. Claro que esse espírito de grupo de certa forma já havia em mim, mas foi depois de trabalhar com o Paulo Faria que eu realmente compreendi o sentido de muitas coisas que antes eu só ouvia falar e almejava viver. Esse tipo de trabalho faz de você um profissional mais preparado e mais completo.

+ Conheça a Cia. Pessoal do Faroeste.

O que o Faroeste fez você enxergar melhor como atriz e como pessoa?

As funções que assumimos não se resumem apenas ao ensaio e a cumprir a temporada. Existem experiências de vida e troca com pessoas que talvez eu não tivesse chance fora dali. Isso é muito engrandecedor.

Ainda está ligada ao grupo?

O trabalho com o Faroeste continua sim. Vamos voltar em temporada com “Luz Negra” em dezembro e ainda temos um projeto de filmar “A Mulher Macaco”, antiga peça do Paulo Faria, para o ano que vem. Muita coisa boa ainda está por vir! 

"Cine Camaleão - A Boca do Lixo": montagem da Cia. Pessoal do Faroeste (Foto: Rodrigo Reis)

“Cine Camaleão – A Boca do Lixo”: montagem da Cia. Pessoal do Faroeste (Foto: Rodrigo Reis)

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