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Lauro César Muniz revê “Sinal de Vida” e fala de política, novelas e teatro: “A televisão ficou no passado”

O dramaturgo Lauro César Muniz escreveu “Sinal de Vida” em 1972, uma época braba, muito braba. Logo depois, a peça foi censurada e só ganhou o palco sete anos mais tarde. Hoje, o clima no Brasil não é dos mais amenos, e “Sinal de Vida” volta à cena em uma montagem dirigida por Heitor Saraiva […]

Por Dirceu Alves Jr. Atualizado em 26 fev 2017, 13h22 - Publicado em 13 abr 2016, 09h43
Lauro César Muniz: dramaturgo e autor de novelas (Foto: Dedoc)

Lauro César Muniz: dramaturgo e autor de novelas (Foto: Dedoc)

O dramaturgo Lauro César Muniz escreveu “Sinal de Vida” em 1972, uma época braba, muito braba. Logo depois, a peça foi censurada e só ganhou o palco sete anos mais tarde. Hoje, o clima no Brasil não é dos mais amenos, e “Sinal de Vida” volta à cena em uma montagem dirigida por Heitor Saraiva que estreia no Teatro Augusta. Lauro César Muniz, de 78 anos, fala aqui um pouco de política, das novelas criadas para a televisão e dá uma boa notícia ao público:O futuro que me resta será dedicado ao teatro e eventualmente ao cinema”.

Você escreveu “Sinal de Vida” no auge da ditadura, em 1972, e hoje atravessamos um momento muito delicado em relação ao país novamente. De que forma esse texto dialoga com a nossa realidade?

Não há relação entre os fatos históricos do nosso país de 1972 e o de hoje. Naquela época, vivíamos uma ditadura militar pesada. Hoje temos um governo democrático, eleito pelo povo, que errou por incompetência, não agiu por cálculo, como agiam os militares. Sinto uma clara dificuldade de objetivos entre a presidente Dilma e o partido que a sustenta. Dilma nunca rezou pela cartilha petista. Apoiada pelo PT, tentou seguir a ideologia e ficou uma dirigente ambígua. Deu no que deu. Não haverá golpe do empresariado, mas uma arquitetura com cara de legalidade para alterar essa ambiguidade. O povo assistirá sem entender o que está rolando.

+ Legado de Shakespeare é celebrado na cidade.

Essa montagem pode ajudar as pessoas na compreensão dos fatos?

“Sinal de Vida” torna-se, neste momento, uma peça oportuna para reforçar como vivemos em 1972, diante de um regime totalitário. Pessoas morriam nos calabouços da ditadura, desapareciam sem que conseguíssemos notícias. Nem o próprio regime tinha consciência do que ocorria com a violência instaurada. Para manter cada vez mais o poder, se fechava, não dialogava com a população. A peça mostra um outro momento histórico: o horror do silêncio e da falta de informações, serve como alerta. Nunca mais poderemos aceitar um regime terrível como aquele. Portanto, para as novas gerações, o público mais jovem de hoje, acenderemos uma luz vermelha. Isso aconteceu neste país, não pode se repetir. Qualquer esboço de ditadura, militar ou civil, hoje, devemos agir em massa, repelindo!

"Sinal de Vida": quartas e quintas no Teatro Augusta (Foto: Demian Golovaty)

“Sinal de Vida”: quartas e quintas no Augusta (Foto: Demian Golovaty)

Como enxerga a reação de segmentos da sociedade pedindo intervenção militar?

No caos institucional que vivemos hoje ainda há um grupo que pensa que a solução seria a volta dos militares ao poder. Vi recentemente um comício no Rio – felizmente com poucos integrantes, umas 300 pessoas – em que a maioria era jovens, conclamando a volta dos militares. Não posso crer que essa solução esteja sendo urdida nos quartéis.  As forças armadas sabem que seu direito e poder é de vigilância da democracia. Seria ingenuidade pensar assim? Não creio. Com todos os militares que falei senti repúdio à volta ao poder, ao autoritarismo. Somos um país melhor hoje. A democracia há de vencer mesmo que seja arranhada em algumas ações da direita. Muitos empresários declaram-se frontalmente pela solução legal. Temos que ficar atentos é com os parâmetros desta legalidade. Confio em nossos juristas.

+ Leonardo Miggiorin estreia como diretor em “O Encontro das Águas”.

Você acha que os dramaturgos hoje estão mais interessados em temas intimistas e pouco retratam a situação política e social, como foi o caso de sua geração? 

A dramaturgia brasileira enveredou por um caminho não reivindicatório, uma busca das perplexidades humanas interiores. É um sinal da bonança. O homem tem tempo de voltar-se para si e buscar suas dores pessoais. Em “Sinal de Vida”, em contraponto com o clima político sufocante, há também um balanço das situações pessoais, a busca com o entendimento das relações rompidas, das angústias. Por isso, “Sinal de Vida” manteve-se uma peça muito viva, em tempos de plena bonança. O homem consegue viver mal mesmo podendo exercer toda sua liberdade.

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Lauro César Muniz, na década de 70: sucesso na televisão com as novelas "Escalada" e "O Casarão"

Lauro César Muniz, na década de 70: sucesso na televisão com as novelas “Escalada” e “O Casarão”

Tem material inédito para o teatro?

Não tenho peças inéditas. São dezesseis peças encenadas, algumas muitas vezes. Mesmo aquelas mais curtas ganharam encenações em festivais como as Satyrianas. Tenho algumas ideias sendo gestadas, três temas pedindo palco.

Essa pausa que você deu na televisão pode servir para trazê-lo de volta à dramaturgia teatral ou isso é uma coisa que ficou no passado?

Vou escrever essas peças. A televisão ficou no passado. O futuro que me resta será dedicado ao teatro e eventualmente ao cinema.

+ Leia entrevista com Naum Alves de Souza, realizada em 2013.

Suas novelas nunca se apoiaram em fórmulas convencionais e personagens óbvios. Elas sempre foram assim por causa do teatro, porque antes de tudo você é um dramaturgo formado pelo teatro…

Você respondeu a pergunta. Minhas novelas nasceram do rigor e da disciplina do teatro. Fiz algumas concessões na televisão, novelas que eu não deveria ter escrito. Mas as que marcaram época junto ao público e emissoras saíram da mesma reflexão que usei para pensar minha dramaturgia. Fiz novelas que me dão muito prazer até hoje. Posso citar “Escalada”, “O Casarão”, “Espelho Mágico”, “O Salvador da Pátria”, que sofreu pressão, “Um Sonho a Mais”, uma deliciosa brincadeira que me deu muita alegria…

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Ainda existe espaço para novelas como as suas, tramas que fugiam do maniqueísmo e talvez exigissem mais do espectador? 

Recentemente, circunstâncias especiais me levaram a escrever uma sinopse de seis capítulos como projeto de uma nova novela. Acho que escrevi ali a semente de uma de minhas melhores histórias. Abordei um tema fascinante, criando minha melhor personagem feminina: uma mulher madura, em busca do amor, das sensações que viveu na juventude. Eu discutiria, com emoção e paixão, a vida de muitas mulheres que vivem essa sensação, algumas ativamente e outras covardemente reprimidas. Apresentei o projeto para a Globo, agradei a várias pessoas, mas a cúpula da emissora foi lacônica: “as contratações de novos autores e diretores estão suspensas”. Achei que era uma desculpa para se livrar de mim. Pessoalmente, fui sempre muito rebelde, porém, mais ninguém nessa área foi contratado.

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