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Nesta vida, uma coisa que não tenho é medo, diz socorrista de Paraisópolis

No Diário dos sem-quarentena, Luiz Falconi, conta como é seu trabalho diário como socorrista em Paraisópolis

Por Luiz Falconi, 44 anos, em depoimento a Pedro Carvalho Atualizado em 5 jun 2020, 12h36 - Publicado em 29 Maio 2020, 06h00

Moro em Itaquera, na Zona Leste. Desde a metade de abril trabalho como socorrista e motorista de ambulância em Paraisópolis (a associação dos moradores contratou equipes médicas para o bairro, na Zona Sul). Alterno quinze dias seguidos na comunidade e três de descanso em casa. Para dormir, ganhei um quarto no alojamento que a associação montou para este período.

No primeiro dia em Paraisópolis, mal tive tempo de dar ‘oi’ aos colegas: minha ambulância recebeu um chamado urgente. Eu precisava levar um cilindro de oxigênio extra a uma equipe em atendimento para que ela pudesse seguir direto à casa de outro paciente.

A rotina é corrida. Atendo entre cinco e dez emergências por turno e ganho 100 reais pela diária. Somos duas equipes que se revezam. Meu time trabalha de dia (por doze horas) e descansa à noite. Mas, vira e mexe, precisamos prestar algum socorro durante o descanso, porque a outra equipe está ocupada. Nesta madrugada (20), recebi um chamado às 4 da manhã.

A maioria dos atendimentos são casos ou suspeitas de Covid-19 (a comunidade tinha 34 mortes suspeitas da doença até o dia 25). Também passamos a ajudar em acidentes, mal súbito… Viramos o “192 da comunidade”. O 192 (emergência), muitas vezes, não vem aqui. Eles alegam que não acharam o endereço ou não conseguiram passar por uma rua estreita.

Nos atendimentos, vão junto comigo um médico e uma voluntária da região, que nos ajuda a encontrar os caminhos. É fácil se perder nas vielas. A equipe entra nas casas e eu espero na ambulância. Só entro se preciso ajudar a remover o paciente. Até agora, só peguei um caso de morte por Covid-19 em casa. Não pudemos retirar o corpo, precisamos chamar o Samu. No sábado (16), socorri um acidente feio. Duas motos, três feridos. O rapaz que atendi era o mais grave. Sofreu fratura exposta no fêmur, o osso estava visível. Teve fratura na face também. Está em coma.

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Alojamento em Paraisópolis: pago pela comunidade Alexandre Battibugli/Veja SP

O que mais me espanta em Paraisópolis é a precariedade do bairro. São casas pequenas, sem ventilação. Para acessá-las, você passa por buracos, escadas. Na se- mana passada, retiramos uma senhora de maca que pesava uns 200 quilos. Tinha insuficiência respiratória — a suspeita era Covid-19. Foram necessárias várias pessoas para carregá-la. Descemos a paciente por uma escada quase tão íngreme quanto uma parede. A arquitetura aqui é inacreditável. Você sobe uma escada e se abaixa ao mesmo tempo. Um engenheiro não sabe o que é uma planta até conhecer Paraisópolis.

As calçadas são tão estreitas que, se um morador colocar a cabeça para fora da janela, pode ser atingido pelo retrovisor da ambulância. São dez pessoas no mesmo cômodo, como vão ficar 24 horas por dia confinadas?

Quando vou para casa, ligo para minha mulher e ela me espera com álcool em gel no portão. A primeira coisa que faço é ir para o banho. Só depois saio distribuindo beijos a ela e aos meus filhos. Então digo a eles como somos privilegiados. Eu moro em um quarto, sala, cozinha e banheiro. Mas, depois de Paraisópolis, o pouco que tenho é muito. Em Paraisópolis, tem gente brigando por um arroz com feijão. Aprendi a dar valor às coisas.

Faz vinte anos que sou bombeiro civil. Há dezoito, dirijo ambulância, quase sempre em eventos. Sei que estou exposto ao vírus, mas não tenho medo. Acho que é um dom, sabe? Uma coisa que não tenho, nesta vida, é medo.”

 

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 3 de junho de 2020, edição nº 2689.

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