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Minhas primeiras vezes

Confira a crônica da semana

Por Redação VEJA São Paulo - 29 Dec 2016, 17h12

Mário Viana

Eu devia ter uns 4 anos quando entrei pela primeira vez no Instituto Butantan. Lembro de estar no colo do meu pai e da impressão que me causou uma cobra viva, presa no que parecia um quadro na parede. Não lembro de mais nada do passeio, a não ser por um flash de jardim ensolarado, mas ainda assim sem muita certeza.

Teve a primeira vez em que viajei de avião. Tinha 20 anos e tomei um voo da Líneas Aéreas Paraguayas rumo a Madri — parando em Assunção e Salvador no caminho. Você pedia água e as aeromoças, que ainda não haviam sido promovidas a comissárias de bordo, fingiam não entender. Pior mesmo foi quando o avião pousou na Espanha e eu descobri, assustado, que suas asas eram feitas de pedaços que se moviam, de modo a frear a aeronave em solo. Achei que o avião estava se quebrando.

A primeira vez que fui ao Estádio do Pacaembu, assisti, é claro, a um jogo do Corinthians. Não lembro contra quem nem o placar, mas na época o Timão perdia quase sempre. O goleiro titular era um bonitão chamado Ado, por quem minhas primas suspiravam sem a menor cerimônia. Minha missão era trazer autógrafos do jogador para todas elas. Consegui.

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Fiquei pensando nisso quando vi a pergunta em um cartaz colado num muro do Bixiga: “Quantas vezes você já viveu uma primeira vez?”. Quando se usa essa expressão, quase sempre os olhares em volta brilham maliciosos. A expressão “primeira vez” ficou ligada à ideia de experiência sexual, beijo, transa. Mas a vida oferece muito mais coisas que nunca haviam acontecido antes. E, na primeira semana do ano, costumo valorizar bastante cada momento “inédito” — tipo o banho inaugural ou o cafezinho pioneiro.

Lembro de quando assisti a um espetáculo de balé ao vivo. Tinha uns 15 anos e estava numa feira agropecuária do interior do estado, em São José do Rio Pardo. No palco ao ar livre, o Ballet Stagium dançou Diadorim. A companhia, que hoje passa por tantas dificuldades, estava no auge, com Marika Gidali e Décio Otero à frente. Nesse dia, ouvi, espantado, o barulho que bailarinos faziam quando saltavam no palco. Na TV, eles pareciam jamais arrastar as sapatilhas no chão.

Aos 21 anos, nunca havia falado com um detento, quando fui contratado como repórter da seção de polícia da Folha de S.Paulo e precisei cobrir a prisão de um estelionatário que tinha aplicado vários contos do vigário. Quem disse que eu conseguia perguntar os motivos da detenção ao sujeito? Na minha visão ingênua, ele estaria mortificado de vergonha, arrependido. Depois, entendi que certas pessoas fazem da pilantragem um hábito.

Na primeira ida sem adultos a um restaurante, estava com três colegas do Banco do Brasil, onde éramos todos menores estagiários. Cláudio, Paulinho, Luiz e eu nos sentamos a uma mesa do O Gato que Ri, que continua ali no Largo do Arouche até hoje. Pedimos lasanha à bolonhesa. Vieram depois outras mesas, outras companhias, outros pratos, mas o sabor daquela lasanha ficou como um troféu de independência.

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Na primeira vez em que fui ao cinema, no comecinho dos anos 70, Sonia Braga e David Cardoso, vestidíssimos, estrelavam A Moreninha, sem imaginar quanto seu corpo ficaria conhecido nas telas. O que a memória guardou daquele dia foi o perfume espalhado antes de cada sessão pelos funcionários do antigo Cine Prata — que fazia a ponte entre a Vila Gustavo, na Zona Norte, e Hollywood.

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