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Denunciado por postagem racista, promotor alega ‘ironia’

No texto, José Grota classifica babás como 'feias' e diz que "negro é catinguento". Ele diz que era uma crítica ao racismo, e não o contrário

Por Redação VEJA São Paulo Atualizado em 3 out 2017, 20h37 - Publicado em 3 out 2017, 20h27

O promotor José Avelino Grota, da Promotoria de Justiça de Mandados de Segurança, causou polêmica por publicação de suposto cunho racista veiculada em um grupo no Facebook. Ele alega que o texto era apenas uma ‘ironia’ a respeito de uma decisão favorável à manutenção de babás com roupas brancas em clubes.

Grota escreveu um texto no qual classificava pobres, negros e babás como ‘feios’. Em outro momento, afirmou que “negro, em geral, é catinguento, porque sua muito e, não tomando a quantidade diária certa de banhos, acaba fedendo mais do que o recomendável”.

“Analisei, ponderei e cheguei a algumas conclusões. Vamos a elas. Pobre, em regra, é feio; babá, em regra, é pobre; logo, babá, em regra, é feia”, escreveu. O texto foi publicado em fórum chamado MPSP – Livre, exclusivo para membros da promotoria, entre os dias 25 e 26 de agosto.

  • “E negro, como todos sabem, tem o péssimo costume de não dar muita atenção à higiene – tanto do corpo quanto da roupa.” Grota, então, diz que a solução de se adotar roupa branca por babás é “uma solução muito adequada” e enumera os motivos.

    “Em primeiro lugar, o branco é a cor da pureza, e, ao usar roupa branca, a babá, que é feia, se transforma, ficando um pouquinho menos feia – porque pureza não combina com feiura e, assim, passamos a dar mais atenção ao puro branco da roupa do que à feiura de quem a veste.”

    “Em segundo lugar, roupa branca é a que suja com mais facilidade, e, desse modo, o patrão da babá verá mais nitidamente se a empregada está ou não limpa – e, se não estiver, ordenará imediata troca de roupa, precedida, é claro, de um banho, o que tornará a babá menos fedentina. Em terceiro lugar, roupa branca esquenta menos; portanto, a babá suará menos; por conseguinte, federá menos.”

    O promotor disse ainda: “Em quarto lugar, como geralmente repugna ao bonito dar de cara com o feio, o uso de roupa branca permitirá aos mais sensíveis desviar-se a tempo do caminho, evitando encarar a feia criatura que verga o traje branco.”

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    “Em quinto e último lugar, a roupa branca também serve para que os novos capitães-do-mato, que nos clubes de ricos, são chamados de seguranças (e, mesmo sendo, em regra, negros, usam roupas pretas), possam ficar de olho nas babás, não para fins libidinosos, como é próprio dessa gente, mas para cuidar de que elas não se sentem em lugares proibidos a babás, não entrem em lugares vedados a babás e mesmo não comam e não bebam comidinhas e bebidinhas que babás não podem e não devem comer e beber.”

    Confira na íntegra:

    A publicação foi divulgada em primeira mão pelo Estadão. Depois da repercussão, Grota afirmou que o texto era uma ‘ironia’ contra a decisão que arquivou a investigação sobre o uso obrigatório do uniforme branco para babás em clubes da capital. Ele foi denunciado à Corregedoria e à Procuradoria-Geral de Justiça por racismo.

    Ao longo da publicação, o promotor alega que o trecho divulgado omitia comentários de colegas que esclareceriam o teor da postagem. “Todo ele [o texto] era e é uma crítica à obrigatoriedade do uso de branco pelas babás e não, obviamente, um devaneio racista sobre negros ou um panfleto classista contra pobres”.

    Em nota, a Associação Paulista do Ministério Público defendeu o promotor e lamentou que questões internas do MP tenham “levado a um vazamento seletivo e a uma interpretação claramente equivocada, que maculam a honra e a dignidade” dele e da entidade.

    “Avelino Grota é um Promotor de Justiça que sempre defendeu as minorias”, diz o comunicado. A APMP considerou que o promotor usou, “sem dúvida alguma”, de ironia e sarcasmo nos comentários e que todos os integrantes do grupo fechado onde tais comentários foram originalmente postados compreenderam dessa mesma forma”.

     

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