Álbum de famílias

Confira a crônica da semana

O primeiro a me impressionar foi o rapaz retratado no meio da família fazendo piquenique na praia. Bonitão, ele encara o fotógrafo com pose de artista de Hollywood. no Guarujá dos anos 1930, o cinema já influenciava as caras e bocas da moçada. a partir desse banhista anônimo comecei a pensar no que teria sido a vida dos tipos registrados por Theodor Preising, na linda exposição São Paulo: Sinfonia de uma Metrópole, em cartaz até o fim do mês no Centro Cultural Fiesp, na avenida Paulista.

Nascido na Alemanha, em 1883, Preising chegou ao Brasil em 1923 e se instalou no Guarujá. Já fotógrafo profissional, iniciou a vida no país fazendo cartões-postais das belezas da nossa Baixada Santista. A coisa deu certo. na década de 30, com estúdio na capital, ele trabalhou na imprensa paulista e fez uma carreira tão movimentada quanto, hoje em dia, pouco conhecida.

As imagens de Preising contêm algo de misterioso. Até nas fotos feitas no centro de uma São Paulo ainda em fase de crescimento, ele nos posiciona dentro do cenário. Somos um dos homens de terno escuro e chapéu percorrendo a rua 15 de novembro, num dia qualquer de 1940, quando ainda eram raríssimas as mulheres batendo perna sozinhas.

Comoventes mesmo são as fotografias das famílias de imigrantes desembarcando no Porto de Santos. Grupos enormes — o pessoal era bem animado naquela época, com sete ou oito filhos no currículo —, certamente com dinheiro suficiente para pagar um “instantâneo”, mas cheios de dúvidas sobre o que iriam enfrentar nesta terra quente.

Em algumas fotos, meninos de 5 anos miram com olhos esbugalhados as pessoas esquisitas que visitam a mostra. Entre nós e eles, há um intervalo de 85 anos, o que me leva a concluir que é grande a probabilidade de todos aqueles no retrato estarem mortos.

Ainda assim, o menino de olhar esbugalhado procura em um de nós o tataraneto desconhecido. Seria uma reunião de família muito curiosa: em 2018, descobrimos numa imagem antiga o mesmo modo de cruzar os braços ou de arquear a sobrancelha. Quantos de nós, sem saber, estão diante de um antepassado?

A japonesinha que corre pelo cais de Santos de mãos dadas com o pai, como terá sido sua vida? Foi morar numa fazenda, como tantos imigrantes orientais, plantando café e ouvindo comentários racistas? Mudou-se para São Paulo, casou-se, criou os filhos, passou para a neta as receitas de teishoku aprendidas em família? Que fim levou a boneca que sua mãe carrega no braço?

Algumas fotografias são muito curiosas. a piscina do Clube Germânia, o atual Pinheiros, aparece cheia de banhistas num dia ensolarado de 1937. O primeiro plano é de uma dupla de mulheres — uma delas vem vestida de modo tão moderno que poderia saltar da moldura e sair pela Paulista. ninguém estranharia.

Há um fio ligando nosso mundo ao dos foliões amontoados num calhambeque pela avenida São João, no Carnaval de 1936: homens vestidos de mulher, mulheres com lança-perfume, serpentinas e confetes por todo canto, multidões cantando Balancê, o sucesso de Carmen Miranda naquele ano. É, não fomos nós que inventamos o bloquinho.

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