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Papéis velhos

Confira a crônica desta semana

Por Redação VEJA São Paulo - 6 jan 2017, 18h12

Por Ivan Angelo

Para que servem os papéis velhos se você não os revira de vez em quando? Sou daqueles que fazem anotações para não esquecer de uma coisa ou outra, ideias para um conto, para uma crônica, frases que gostaria de incluir em algum texto ou em uma entrevista. Com o tempo de gaveta, algumas perdem a conexão que tiveram com um projeto, viram lampejos, faróis de carro na noite. Assim.

Mineiro. Minas foi um empreendimento, um negócio paulista que deu e não deu certo. Mineiro capta música, o eco lá não canta sozinho. Quando político mineiro cochicha, todo mundo escuta. Mineiro tá parado, quieto; se a gente procura, quedê? Corre deitado, que nem cobra.

Nomes. A linguagem é arbitrária. O poeta e filósofo Paul Valéry diz que é a porção mais forte do Outro alojada em nós. É arbitrário chamar uma árvore de árvore. Foi alguém que fez isso, não fomos nós. Chamar um cachorro de cachorro é mais arbitrário e “obediente” do que chamá-lo infantilmente de au-au. E chamá-lo de au-au é também falho e insuficiente para representá-lo, porque se refere apenas ao som que emite. Nada tem a ver com seu focinho, seu estado de alerta, suas quatro patas, seu pelo, seu rabo.

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Grife. Já repararam? Um dos poucos objetos que raramente procuramos pela marca é o guarda-chuva. Sob chuvisco ou chuvarada, não há quem se preocupe com marca. A utilidade suplanta a vaidade.

Espírito. Lao-tsé, filósofo chinês fundador do taoísmo, diz: “A argila é usada para fazer vasos. Mas é do vazio interno que depende seu uso”. A matéria possibilita a existência em nós da não matéria. O corpo torna possível abrigar o não corpo, como o vaso de Lao-tsé.

Indulto. Por que não se excluem do indulto de Natal e do Dia das Mães os assassinos condenados por latrocínio e roubo? Por que o Código Penal não nega a progressão da pena aos que começaram a matar quando eram menores de idade e continuaram? O bom comportamento na cadeia não significa que eles se tornaram bons, que mereçam viver entre gente direita.

Compensa? Ó tempos! Os sofridos aposentados da iniciativa privada têm pequena compensação diante da desgraceira atual: não podem ser demitidos, não ficam sem o salário, têm descontos ou não pagam ônibus, metrô, cinema, teatro.

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Aptidão. É preciso ter queda para certas coisas. Não se “toureia” um leão ou uma onça, animais de ginga e de malícia feitos. É preciso que o “toureável” seja um bruto forte como um touro, e obtuso, e reto, e que seja obstinado, a tentar, a tentar. O touro se deixa tourear, por néscio.

Choradeira. O samba fez 100 anos. Nossa música era mais alegre antes da influência do tango e do bolero. Tinha mais malícia e malandragem nos primeiros vinte anos do século passado. O chorinho chamava-se choro, mas era alegre. Depois veio a choradeira. Quando o samba se engraçou com a bossa nova, deu em “ai, que amar é se ir morrendo pela vida afora”. Como assim amar é se ir morrendo? Agora é o que dá samba: separação, traição, dor.

Passado. Antes das pet shops, os cães comiam o quê?

Sobrenatural. Os monstros perderam o elo com o maligno infernal da Idade Média, de conteúdo religioso repressivo, e se chegaram mais para o lado da magia, do terror, das forças desconhecidas, do mistério, do fantasmal, do sobrenatural. A relação das crianças com o milagre não é a mesma do meu tempo. Elas têm tanta informação sobre superpoderes físicos e mentais que misturam as coisas, o santo é como um herói pop.

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Iniciação. O primeiro sutiã, o homem nunca esquece.

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