“Na Cracolândia, se você só oferecer assistência, ninguém vai se tratar”

De acordo com o deputado eleito e pesquisador do tema Heni Ozi Cukier, não é possível resolver o problema sem "cobrança, ordem e disciplina"

Ainda neste ano, o recém-eleito deputado estadual Heni Ozi Cukier (NOVO) deve lançar um documentário sobre cenas de uso aberto de drogas ao redor do mundo, como a Cracolândia, localizada na região central de São Paulo. Para as filmagens, Cukier – que é especialista em segurança e cientista político – entrevistou setenta profissionais envolvidos na dissolução de áreas abertas para uso de entorpecentes em cidades a exemplo de Nova York, Zurique, Oslo e Vancouver.

Ele já foi secretário adjunto de Segurança Urbana à época em que a prefeitura realizou uma mega operação na Cracolândia, demolindo hotéis e desmantelando as barracas onde estava organizado o feirão de drogas. A ação, que tinha a intenção de coibir o tráfico no pedaço, foi muito questionada. O estudioso, no entanto, vê avanços após a intervenção e diz que a discussão sobre a área precisa perder o viés ideológico que carrega. A VEJA SÃO PAULO, ele analisa por que o poder público acumula derrotas na tentativa de erradicar o fluxo de usuários aglomerados na região central da cidade:

Por que é tão difícil acabar com a Cracolândia em São Paulo?

O ponto mais importante é que trata-se de um problema muito complexo, multidisciplinar e multifacetado. Não é uma questão só de segurança, saúde, direitos humanos, urbanização ou zeladoria. Ele está inserido em todos os sistemas que a cidade tem que lidar. No mundo inteiro, ocorrem essas cenas abertas do uso de drogas, uma das maiores que já existiram foi em Zurique, na Suíça, e eles levaram mais de dez anos entre idas e vindas e novas políticas para resolver. Chegaram a ter 3 500 pessoas no auge – é bem maior que o que a Cracolândia já teve e, perto de São Paulo, Zurique é minúscula. Muitas outras cidades também trouxeram cenas semelhantes. Vancouver, por exemplo, ainda tem. Em todos esses lugares, o que ocorre são “heroinalândias”. Em parte, é por isso que eles conseguiram resolver. É mais simples lidar com o uso de heroína do que de crack.

Qual o grande entrave para solucionar a questão em São Paulo?

Estamos presos em paradigmas ideológicos e essa discussão não pode ser ideológica. Isso significa que não podemos simplesmente privilegiar só a assistência. Se você só der assistência, pura e simplesmente, no estado em que aquelas pessoas estão, vai, na verdade, conduzi-las à morte. A política do programa De Braços Abertos do ex-prefeito Fernando Haddad era basicamente isso: dar assistência com uma mesada para aqueles que fizerem as atividades recreacionais e de trabalho. O que ele fazia com essa mesada? Comprava crack. Não é possível fazer isso sem colocar cobrança, ordem e disciplina nas coisas que eles podem ou não fazer. Os hotéis na Cracolândia foram um dos lugares mais horríveis que já vi na vida, senti que estava em um inferno. Um negócio de outro planeta. Não vejo essa política como uma solução, não acho que isso funciona. É também um problema de saúde, além disso, aqui as facções criminosas comandam a venda das drogas. Especialistas de outros lugares do mundo ficaram surpresos quando souberam que isso ocorria.

Qual balanço pode ser feito da área atualmente, após a megaoperação em 2017?

Naquela época, não havia mais controle no ponto de vista da segurança e foi preciso fazer essa intervenção policial. O número de usuários caiu de quase 2 000 para 500 pessoas, mas tem dias que aparecem mais pessoas por ali. Também não há mais as barracas que são os pontos de vendas das drogas. Diariamente, a Guarda Civil Municipal (GCM) vai lá para fazer o embate e desmontar, novamente, essas estruturas. A realidade desse confronto é super tenso e sensível. Cada vez que a GCM entra lá, tem uma tensão. Acho que isso não é retratado como deveria. É um encontro super acirrado, o policial também está morrendo de medo. A situação hoje se vê muito melhor do que era há dois ou três anos. A questão também tem a ver com a maneira em que o espaço público é usado no Brasil. 

Como assim?

Todo mundo olha para a Amsterdã como um modelo na política de drogas, mas eles só são liberais quando o assunto são as soft drugs, como a maconha. Em uma heroinalândia que apareceu por lá, começaram a multar os usuários caso houvesse reunião de quatro ou mais pessoas para o consumo de drogas pesadas. Se o valor não fosse pago, a pessoa seria internada compulsoriamente ou presa. O entendimento é que não existe espaço para o uso de droga. Aqui, a compreensão é outra, acreditam que, por conta do espaço ser público, não é possível proibir o que as pessoas fazem. Desse jeito você cria problemas muito maiores na cidade, como essas aglomerações. Esses cenários tomam vida própria, os usuários no coletivo se sentem fortes e apoiados pelo grupo. As equipes de saúde contam que o convencimento para o tratamento é sempre feito quando ele está sozinho, longe do fluxo, da multidão, dos amigos. A Cracolândia só existe porque essas pessoas estão lá. Não estou sugerindo que não seja oferecida assistência e tratamento, mas é preciso ordem também. Se você oferecer só assistência ninguém vai se tratar. É necessário propor um uso adequado do espaço público e não deixá-lo para domínio dessas pessoas.

O que pode ser feito na atual conjuntura?

O que não podemos aceitar é essa formação de cracolândia, com estupro, morte, pessoas que não têm perspectiva de sair dali. Vejo como uma solução acertada o programa Redenção (instalado logo após a ação de maio de 2017). Ele criou os centros de acolhimento temporários. É um lugar em que a pessoa pode ir comer, tomar banho e não é permitido o uso de crack lá dentro, isso é uma medida adequada. Você oferece assistência, habitação e coloca regras. Outra questão é evitar que a droga chegue ali, estrangular o fornecimento, controlando a entrada e saída de todos os acessos, mas isso também bate nesses entraves legais. Deve-se criar regras mais duras ali, além de ter mais oferta de tratamento para dar conta de receber todas as pessoas que querem sair. Mesmo assim, tem gente que não vai querer se tratar. 

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