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Corrente do bem: em meio à quarentena, paulistanos criam rede de ajuda

Distribuir álcool em gel no transporte público, fazer compras para idosos e dar aulas à distância estão entre as boas ações que unem os paulistanos

Por Pedro Carvalho - Atualizado em 18 Mar 2020, 20h04 - Publicado em 18 Mar 2020, 20h02

Uma das armas mais eficazes contra a Covid-19 não depende de governos ou laboratórios: é a boa e velha ajuda voluntária entre vizinhos. Em tempos de crise, as redes de solidariedade tomam as mais diferentes formas e proporções — e isso passou a acontecer em São Paulo nos últimos dias.

Iniciativas simples, como fazer compras para idosos ou grupos vulneráveis, podem ajudar a atenuar os impactos do vírus. É o que tem feito a psicóloga Andréia Freitas, 44, moradora de Santo André. Como também é cuidadora de animais, ela não deixou de circular pela cidade nesse período — os pets, afinal, precisam ser alimentados. No domingo (15), Andreia fez um post no Twitter (ela tem 56 600 seguidores na conta @NaoInviabilize) para oferecer uma mãozinha a quem precisasse de compras. Acabou entregando a uma conhecida do Cambuci, sem custo, uma cesta com miojo, requeijão, papel higiênico e outros itens. “Na próxima semana, devo ir aos Correios para uma pessoa HIV positivo”, conta.

Compras do bem: Andréia Freitas, de Santo André, entregou mantimentos após pedido pelo Twitter Reprodução/Veja SP

A executiva paulistana Christiane Calvel, 44, usou uma plataforma mais analógica: um bilhete no elevador do prédio, no bairro da Saúde. “Queridos vizinhos mais velhos: se precisarem de algo da rua, podem contar comigo. Fiquem seguros em casa”, dizia a nota fixada no domingo (15). Dois dias depois, Christiane não tinha recebido pedidos, mas mensagens chegaram pelo WhatsApp para oferecer mais braços ao serviço. “As pessoas precisam se acostumar a cuidar mais das outras”, ela diz.

Para os mais velhos: vizinhos têm se disposto a fazer compras para quem não pode sair de casa Reprodução/Veja SP

Os paulistanos também têm recorrido ao aplicativo Tem Açúcar, criado justamente para intermediar ajudas entre vizinhos. O app tem mais de 200 000 usuários, a grande maioria em São Paulo. Nele, várias postagens disponibilizam gentilezas ligadas à prevenção da Covid-19 em bairros da cidade. “Ofereço ajuda para pessoas com mais idade ou problemas de saúde e que precisariam sair de casa”, postou a usuária Jéssica Barcelos, da Vila Madalena. “Vi outros usuários se oferecerem para cuidar de crianças pelo app”, afirma.

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O piloto paulistano Lucas Di Grassi também encontrou uma maneira de combater a Covid-19 por meio da solidariedade. Isolado com a família em um sítio em Itu (a Fórmula E, na qual compete, está suspensa), ele lançou uma vaquinha virtual para comprar álcool em gel para distribuir nos pontos de transporte público, além de outros itens emergenciais. Nos primeiros dias no ar, a iniciativa arrecadou 70 000 reais, com a colaboração de 74 doadores — o piloto doou 10 000. Com os primeiros 13 000, foi possível comprar 6 000 potes de spray para álcool diluído, 300 litros de álcool em gel e 10 000 unidades do produto em frascos de 30 mililitros. “O transporte público é um Mais velhos: à esquerda, bilhete em elevador no bairro da Saúde, e, nesta foto, compras feitas após pedido no Twitter importante vetor de transmissão da doença”, explica Di Grassi.

Outros voluntários se organizam para ajudar os paulistanos a manter os exercícios físicos em dia durante um confinamento. George Procopio, sócio da empresa Rent a Pro, que leva especialistas em atividades físicas a condomínios e colégios, reuniu profissionais desse meio para dar aulas a pessoas em quarentena. Eles visitam condomínios e demonstram os exercícios no térreo, enquanto os moradores que não podem sair de casa acompanham as aulas pela varanda. A primeira aconteceu em um condomínio próximo ao Shopping Cidade Jardim, na terça-feira (17). Da varanda, os alunos repetiam os movimentos da professora de ioga Leilane Lobo. Uma playlist compartilhada permitia que os alunos escutassem a música da aula nos aparelhos de suas casas. “Não podemos fazer barulho no pátio”, diz George. “Afinal, pode ter alguém doente.”

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 25 de março de 2020, edição nº 2679.

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