Após dois anos de manutenção, prédios desistem de jardins verticais

Sem a ajuda financeira da Prefeitura, quatro edifícios solicitaram a retirada dos painéis de plantas de suas empenas cegas

Ainda de longe, quem anda pelo Minhocão, no centro de São Paulo, consegue ver a carranca de 50 metros de altura desenhada com plantas em tons verdes e vermelhos na lateral de um prédio que ladeia a via. A imagem, com formas meio humanas e meio animalescas, traz, segundo as lendas ribeirinhas, “proteção e prosperidade”. No entanto, para os moradores do prédio que abriga o jardim vertical, trouxe custos e preocupação.

Sem a manutenção prevista pela Prefeitura e ajuda financeira para os custos do cuidado com a vegetação, quatro edifícios solicitaram a retirada dos painéis de plantas de suas empenas cegas (nome técnico para fachadas sem janelas ou acabamentos). Eles fazem parte dos sete prédios que, entre 2015 e 2016, tiveram jardins verticais instalados, formando um corredor verde de 4 000 metros quadrados.

“Acho bonito e gosto de olhar para o jardim, mas eu e muitos outros moradores nos arrependemos de tê-lo instalado no nosso prédio”, diz Marco Antonio Mendo, síndico do Edifício Filomena, que “abriga” a carranca.

O termo de cooperação assinado entre a Prefeitura e os edifícios prevê que à administração municipal caberá “diretamente ou através de pessoa que com ela celebre termo, arcar com os custos de manutenção do jardim vertical durante o prazo de vigência da cooperação”. Diz ainda que o condomínio está isento de “qualquer obrigação nesse sentido” durante os 36 meses de vigência desse acerto – que seriam prorrogáveis por mais 24.

Os sete jardins foram instalados depois que a Prefeitura regulamentou um decreto permitindo a construtoras, que retiraram áreas verdes na cidade, fazer a compensação ambiental patrocinando a instalação de jardins. Os termos assinados estabeleciam que a manutenção seria paga pelas incorporadoras durante os seis primeiros meses, depois ficaria a cargo da Prefeitura até o fim do contrato. “Nunca apareceu ninguém da Prefeitura aqui para fazer a manutenção. Procuramos a secretaria (do Verde e do Meio Ambiente) e disseram não ter como ajudar financeiramente”, conta Wendel Cardoso da Silva, síndico do Edifício Bonfim, que tem o maior jardim vertical, com 1.500 metros quadrados de vegetação.

Depois da instalação do painel de vegetação, o prédio de Silva teve um aumento de quase 700 reais por mês na conta de água e de 300 reais na de energia elétrica. O valor foi acrescentado ao condomínio dos quarenta apartamentos. “Não é um valor tão alto para cada morador, mas fomos enganados, houve falta de planejamento. A gente ficou com o ônus.”

Cada um dos edifícios estima gastar cerca de 1 000 reais ao mês com a manutenção da vegetação – o que custaria 84 000 reais ao ano para a Prefeitura. “É um valor pequeno para manter uma política ambiental importante para a cidade. Não entendo porque não se responsabilizam e arcam com os custos. O centro tem tão poucas árvores e, agora, vai ter ainda menos”, diz Vera Lucia Jesus, síndica de um prédio que decidiu manter o jardim mesmo sem a manutenção da prefeitura.

Para muitos moradores, a decisão de retirar o jardim foi reforçada após o anúncio da construção do Parque Minhocão pelo prefeito Bruno Covas, com um investimento previsto de 38 milhões de reais. “Se não há dinheiro para manter os jardins que já estão instalados, como vão manter os novos? Vai ficar tudo abandonado” diz Mendo.

O Movimento 90º foi contratado pelas incorporadoras para fazer a instalação dos jardins e ficou com a responsabilidade de fazer a manutenção no primeiro semestre de funcionamento. “Como a Prefeitura não estava cumprindo com o contrato, os moradores nos procuravam e nós atendíamos da forma como podíamos. Fizemos a manutenção nos últimos meses, mas juridicamente não é nossa responsabilidade”, garante Guil Blanche, fundador da entidade.

Questionada, a Secretaria do Verde e Meio Ambiente (SVMA) não disse se fez ou não a manutenção dos jardins. Informou apenas que realizou um chamamento público em setembro de 2016, com o objetivo de conseguir parceiros para os cuidados dos painéis verdes, e que o vencedor, o Movimento 90º, desistiu da parceria. Guil afirma que os termos da documentação foram considerados abusivos por exigir um valor alto de investimento, não apenas a manutenção.

A secretaria informou que em outubro do ano passado fez novo processo de chamamento público, em que o Movimento 90º acabou novamente vencedor, mas até ontem o contrato não havia sido assinado.

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