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Inaugurado há quatro dias, abrigo para moradores de rua é fechado

CTA Liberdade chegou a atender algumas pessoas, até a descoberta de um problema hidráulico; este é o 3º a enfrentar dificuldade de operação recentemente

Por Adriana Farias - Atualizado em 22 mar 2018, 22h03 - Publicado em 22 mar 2018, 19h19

O morador de rua Erasmo Chagas, de 82 anos, chegou com mais outros quatro colegas na tarde desta quinta-feira (22) ao recém inaugurado Centro Temporário de Acolhimento (CTA) Liberdade, na região central, e deu de cara na porta.

O 17º serviço do tipo, aberto pelo prefeito João Doria (PSDB) na última segunda-feira (19) para acolher 190 homens para pernoite, além de disponibilizar outras cinquenta vagas para atividades diurnas, foi interditado no dia seguinte e permanece fechado. O motivo foi a descoberta de um problema hidráulico na rede de esgoto que provocou falta de água e entupimentos generalizados no imóvel.

Moradores de rua foram encaminhados pela própria prefeitura para o CTA Liberdade e deram de cara com o portão fechado Adriana Farias/Veja SP

No dia da inauguração do espaço, Doria, como de praxe, divulgou um vídeo em sua página oficial do Facebook dizendo: “Esse CTA será para as pessoas aqui do centro que estão desassistidas, desacolhidas e que a partir do dia 20 começam a ser acolhidas e terão camas como esta aqui, com roupa de cama, travesseiro, cobertor, toalha e kit de higiene…”. O material audiovisual obteve 36 000 visualizações, ganhou 2 400 interações e 280 compartilhamentos na rede social.

Um grupo de dezenas de usuários chegou a usar o serviço no primeiro dia, mas se deparou com os problemas e teve que deixar a área. “Foi um mega pepino que foi descoberto só depois com o prédio entregue”, explicou a funcionária Cátia, que não foi autorizada a continuar falando com a reportagem por uma das equipes de comunicação da prefeitura. VEJA SÃO PAULO também não foi autorizada pela equipe de Doria a entrar no imóvel, mas pode ver pelas aberturas de ferro do portão alguns funcionários trabalhando em uma obra no local.

Com o serviço fechado, ao menos oito moradores de rua ficaram pela calçada em frente ao local com a esperança do espaço reabrir Adriana Farias/Veja SP

“Se o serviço não está funcionando, os assistentes sociais não deveriam ter encaminhado a gente para cá. Parece que estão jogando a gente de um canto para outro”, lamentou Cleibe Alves, mostrando, assim como seus colegas, um documento de encaminhamento para o CTA Liberdade.

Enquanto isso, um outro grupo de ao menos de oito pessoas que chegou a usar o serviço no primeiro dia resolveu se acomodar com seus pertences do outro lado da rua, na calçada, com a esperança do CTA voltar a funcionar em breve. “Isso daí foi aberto às pressas, eu vi o prefeito aí com as câmeras posando como se tudo estivesse certo”, disse Daniel, que preferiu não dar seu sobrenome. Doria deve deixar a prefeitura em abril para disputar a eleição para o governo do estado.

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Na terça-feira (20) VEJA SÃO PAULO revelou que o prefeito abriu em dezembro de 2017 o CTA São Mateus, na Zona Leste, com geladeira, três máquinas de lavar e um imenso armário de ferro para os conviventes guardarem seus pertences, mas todo esse mobiliário e eletrodomésticos não estava mais lá quando a reportagem visitou o espaço na segunda-feira (19); apenas uma máquina de lavar se mantinha na lavanderia.

O serviço ficou dois meses fechado por um problema na rede elétrica e foi reaberto há uma semana. Mas mesmo com a retomada do serviço os itens não foram repostos e os trabalhos estavam funcionando de forma precária. A sala de atendimento do psicólogo, por exemplo, havia virado área de depósito de material. A reportagem também encontrou problemas no CTA Butantã e no CTA Guianases, esse fechado há um mês mesmo após inauguração oficial.

CTA fechou menos de dois dias após sua abertura por problemas hidraulicos Adriana Farias/Veja SP

OUTRO LADO

A assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social reiterou à reportagem no local que os problemas encontrados nos centros de acolhida visitados pela reportagem não podem ofuscar os benefícios dos dezessete CTAs abertos em oito meses com 4000 vagas para a população de rua.

Apesar do prefeito mencionar em seu vídeo que o CTA Liberdade ia começar a receber seus primeiros conviventes na terça-feira (20), o secretário Filipe Sabará diz que o local nunca abriu de fato. “Não se fecha algo que não abriu”, disse. “Tanto é que nem convênio possui porque sou eu que assino e aí se torna oficial. Se a ONG que irá administrar o serviço fez o atendimento foi por conta própria. Se as pessoas vão para lá é porque querem. Estamos encaminhando para outros acolhimentos os que estão indo para o local”. O morador de rua Erasmo Chagas e sua turma foram levados para o CTA Brigadeiro Galvão.

Em nota, a secretaria informou também que as atividades do CTA Liberdade serão iniciadas a partir do convênio firmado com a Associação Evangélica Beneficente (AEB) for publicado no Diário Oficial. “Enquanto isso, os colaboradores da AEB estão passando por capacitação para melhor atender os conviventes”, diz a nota. O valor de repasse mensal será de 179.931,68 reais. Questionada sobre os problemas encontrados no imóvel, a pasta não forneceu maiores esclarecimentos. No local, a perspectiva dos funcionários é que o serviço reabra até o final do mês.

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