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Em Terapia Por Arnaldo Cheixas Terapeuta analítico-comportamental e mestre em Neurociências e Comportamento pela USP, Cheixas propõe usar a psicologia na abordagem de temas relevantes sobre a vida na metrópole.

Era uma vez em terapia… a menina que sempre ganhava elogios

Laurinha nasceu numa família comum. Seus pais, trabalhadores honestos e pacatos. Seus avós, carinhosos e muito presentes. Laurinha recebeu muitos cuidados e afeto nos primeiros anos de vida. Nenhum trauma, nenhuma privação relevante. As condições materiais de sua família foram suficientes para lhe garantir acesso a uma boa educação e vivências significativas ao longo da […]

Por VEJA SP Atualizado em 26 fev 2017, 22h20 - Publicado em 1 abr 2014, 16h08

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Laurinha nasceu numa família comum. Seus pais, trabalhadores honestos e pacatos. Seus avós, carinhosos e muito presentes. Laurinha recebeu muitos cuidados e afeto nos primeiros anos de vida. Nenhum trauma, nenhuma privação relevante. As condições materiais de sua família foram suficientes para lhe garantir acesso a uma boa educação e vivências significativas ao longo da infância.

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Assim como seus pais, Laurinha sempre se comportou de maneira elogiosa. Por onde quer que passassem, sempre havia alguém a destacar os modos da garotinha: “Como é educada sua filha!” ou “Que garotinha mais meiga!” eram frases às quais Laurinha estava muito bem habituada. Ela até gostava, já que tais qualidades lhe rendiam vez ou outra algum privilégio. Laurinha chegava a ganhar brindes em festas juninas por sua educação primorosa. Não precisava acertar a bola na boca do caipira nem a argola na vareta. Um chocolate aqui, uma boneca ali. Quem podia resistir ao carisma e aos modos louváveis de Laurinha?

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Tudo sempre corria bem ao longo da infância de Laurinha. E assim foi até o dia em que ela foi à festa de aniversário de seu priminho Jonas. A tia de Laurinha e mãe de Jonas é Clara, boleira de mão cheia. Assim foi que tia Clara fez para Jonas um grande bolo com uma cremosa cobertura de chocolate. Como costuma ser nas festas de aniversário, o bolo ficou exposto ali na mesa principal deixando todos com água na boca. Brigadeiros, quindins e beijinhos podem ser comidos. Mas o bolo… esse é personagem quase mais nobre que o próprio aniversariante. Assim sendo, ele só pode ser tocado depois que se cantam os “parabéns pra você”. Até lá, cada criança tem de se contentar em alternar os diferentes doces e salgados. A cada passada pela mesa para pegar um brigadeiro ou um beijinho, para-se para olhar o bolo… cada vez de um ângulo diferente. Como as demais crianças, também Laurinha cumpria esse ritual de peregrinações sucessivas à mesa para contemplar o bolo.

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Numa dessas vezes, Laurinha ficou parada diante do bolo imaginando quão saboroso ele devia ser. Tudo foi sumindo no entorno e sua visão só captava o bolo de chocolate. Depois de um tempo congelada a contemplar o alimento sagrado da festa, Laurinha teve uma grande e original ideia. Ela pensou que ninguém se aborreceria se ela tirasse um pouquinho da cobertura com o dedo… só para provar e ter certeza se o sabor era mesmo como ela imaginava. Ela foi planejando o ataque ao bolo. Seria pela quina da direita, que estava mais perto da parede. Não. Na verdade seria da parte mais alta, já que podia trazer junto um pouco de confete. Ou quem sabe ela dedaria a lateral, que tinha mais chocolate.

Quando Laurinha, por fim, definiu o ângulo de ataque tal qual na aviação, preparou seu indicador direito para o ato. Esperta que é, manteve a falangeta levemente flexionada para tirar máximo proveito da dedada que, certamente, seria única. Quando seu dedinho de menina ia em direção do bolo, Laurinha ouve sua mãe chamando: “Laurinha! Olhe só quem está aqui. O tio Olavinho, você se lembra dele?” Imediatamente, tio Olavinho e sua esposa abaixaram-se para abraçar Laurinha. Cada um beliscando uma de suas bochechas, replicaram as frases de sempre que os adultos diziam sobre Laurinha:  “Que menininha educada!”, “Um charme!”, “Ela é tão comportada!”, “Quem dera o Junior tivesse a educação dela!”, “Como sabe se portar!”, “Acertaram com ela, hein!”… A cada elogio disparado – sim, disparado… porque a atingiam em cheio como se fora de forma dolosa – a motivação de Laurinha para dedar o bolo diminuía. Seu dedinho foi perdendo a contração. Os braços caindo, a falangeta perdendo a leve angulação. Laurinha percebeu que seria uma enorme decepção para os outros se ela dedasse a cobertura do bolo. O que seria dos primos, para quem ela sempre foi exemplo? Quando seus tios largaram suas bochechas ela soltou um leve sorriso. Pronto… essa era a contrassenha para que eles soubessem que a Laurinha bem comportada de sempre continuava ali.

Daquele dia em diante Laurinha não conseguia deixar de lembrar da cobertura do bolo que ela deixou de dedar. O que de fato teria acontecido se ela consumasse o ato era uma questão que não lhe saía da cabeça. E cada vez que Laurinha queria fazer algo minimamente extravagante (como rir alto ou repetir o prato), ela pensava que não podia decepcionar seus pais, seus priminhos, seu avós, seus vizinhos, o zelador, a professora, o padre, os colegas, o tio da padaria… Mas ficava sempre uma angústia a cada nova situação similar.

Os anos foram passando e a angústia foi se transformando em raiva. Os elogios pareciam ofensas. Bastava uma exaltação a alguma característica sua e Laurinha se irritava. Ninguém compreendia sua recorrente irritação: “Mas ela foi sempre tão boazinha, tão tranquila.” Mais alguns anos e a raiva, antes angústia, virou tristeza. E foi assim que a hoje delegada de polícia Laura foi parar no consultório de psicoterapia. Laura queixa-se de estar sempre triste e mal-humorada. Associa claramente esse quadro a uma constante frustração por não conseguir contrariar as expectativas que os outros têm sobre ela, por não conseguir priorizar suas próprias escolhas. Laura descobriu que elogios também podem fazer mal a alguém. Hoje sua luta é para derrubar as barreiras criadas por sempre ter se esforçado para manter os padrões elogiados.

Ao final do relato na sessão de terapia, Laura lançou novamente a pergunta: “E se eu tivesse metido o dedo no bolo?”

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