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Em Terapia Por Arnaldo Cheixas Terapeuta analítico-comportamental e mestre em Neurociências e Comportamento pela USP, Cheixas propõe usar a psicologia na abordagem de temas relevantes sobre a vida na metrópole.

A dolorosa lição de um soldado japonês sobre o rancor

Hiroo Onoda era um oficial de 22 anos quando, em 1944 (plena Segunda Guerra Mundial), foi enviado pelo Exército do Japão para a ilha de Lubang (Filipinas) a fim de, liderando três soldados na selva, defender a posição nipônica frente aos aliados. + Uma dica para superar a procrastinação O Japão assinou a rendição em […]

Por VEJASP Atualizado em 25 fev 2017, 21h42 - Publicado em 10 out 2016, 23h10

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Hiroo Onoda era um oficial de 22 anos quando, em 1944 (plena Segunda Guerra Mundial), foi enviado pelo Exército do Japão para a ilha de Lubang (Filipinas) a fim de, liderando três soldados na selva, defender a posição nipônica frente aos aliados.

+ Uma dica para superar a procrastinação

O Japão assinou a rendição em agosto do ano seguinte, mas Onoda não acreditava nas notícias sobre o fim da guerra; achava que eram ciladas estadunidenses para capturar ele seus homens. O grupo seguiu entrincheirado sob suas ordens. Um dos soldados só se rendeu em 1950, e cada um dos outros dois morreu em confronto contra as autoridades filipinas em 1954 e em 1972.

Após 29 anos, em 1974, Hiroo Onoda aceitou se entregar. Ao saber por seu antigo comandante que a guerra havia acabado, Onoda ficou desapontado por ter desperdiçado um tempo tão precioso de sua vida. Apesar de sua lealdade e disciplina, Onoda viu dois de seus homens serem mortos, deixou de conviver com sua família e seu grupo acabou tirando a vida de aproximadamente 30 nativos a troco de nada. Um preço alto para uma guerra que já não existia.

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Lutar compulsivamente contra um problema que a vida impõe é agir como o soldado Hiroo. O engajamento obsessivo produz uma cegueira tão forte que impede uma vida saudável. A intransigência impede até mesmo de enxergar o fim do problema, do mesmo modo que o japonês não enxergou o óbvio. O problema não existe mais… seja porque se esgotou seja porque a resolução foi dada por outro.

Entender que um problema se esgotou depende muitas vezes de simplesmente olhar para outras coisas… viver. Ao se olhar apenas para o problema e alimentar dentro de si um desejo obsessivo por sua resolução, corre-se o risco de não perceber que ele já não existe. Quem não conhece alguém amargurado que destila mau humor o tempo todo? O outro sempre pode ser um inimigo contra quem é preciso permanecer protegido e de sobreaviso. Vive-se com o fuzil engatilhado pronto para reagir a qualquer ofensiva.

O rancor, por exemplo, também é uma das formas de se ignorar o fim de uma guerra. O problema já passou mas é possível permanecer até o fim da vida sobre a mesa de estratégias no quartel general (ou até o surgimento de uma úlcera, de um acidente vascular ou de um câncer, doenças associadas inequivocamente ao estresse). Atribui-se a Gandhi a máxima segundo a qual o perdão é atributo dos fortes. Realmente é preciso ser forte para perdoar mas, para não fazê-lo, só mesmo não amando a si mesmo.

Por senso de responsabilidade, por culpa, por rancor, por teimosia ou seja lá pelo que for: não vale a pena continuar lutando numa guerra que não existe. Há muita coisa para se fazer ao longo de uma vida que são melhores do que guerrear por nada. Não se machuca o outro e nem se corre o risco de ser ferido.

Quantas guerras você tem lutado atualmente? Quantas delas já não acabaram e você não percebeu?

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