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São Paulo nas Alturas Por Raul Juste Lores Redator-chefe de Veja São Paulo, é autor do livro "São Paulo nas Alturas", sobre a Pauliceia dos anos 50. Ex-correspondente em Pequim, Nova York, Washington e Buenos Aires, escreve sobre urbanismo e arquitetura

Cobrança por mais um parque no Butantã: os privilegiados querem mais

Situação no bairro que já tem dois parques mais a Cidade Universitária revela desigualdade e contorcionismo comum: o de mascarar interesse com causas nobres

Por Raul Juste Lores - Atualizado em 2 out 2020, 01h37 - Publicado em 2 out 2020, 01h38

O Butantã é um dos bairros menos povoados da capital. Com 12,5 quilômetros quadrados, o equivalente a oito Ibirapueras, tem apenas 54 000 habitantes (com metade do tamanho, Perdizes abriga 112 000 moradores). Também fica na subprefeitura com mais massa arbórea por habitante da Zona Oeste, que ainda inclui Cidade Jardim, Morumbi, Jardim Guedala, Vila Sônia (quatro vezes mais verde que a Mooca). Como as fotos aéreas demonstram, é uma das paragens mais arborizadas de São Paulo. Tem dois parques, o Previdência e o Luís Carlos Prestes, mais a Cidade Universitária, o Instituto Butantan e nove praças.

Ainda assim, o bairro luta por um novo parque. Um grupo de moradores fez um movimento para exigir que um terreno privado de 40 000 metros quadrados virasse o Parque da Fonte. E conseguiu virar prioridade para o poder público, passando na frente de dezenas de bairros paulistanos mais populosos que nem sequer têm uma única praça com árvores. A história dessa cobrança revela porque nossa Pauliceia continua tão desigual.

Os butantaners argumentam que uma bica no tal terreno era usada pelos bandeirantes no século XVIII (dependendo da conveniência, a memória deles é evocada). Uma líder comunitária diz que ali ficava o caminho dos incas que ligava Machu Picchu a São Vicente. O site do grupo diz que o caminho inca é do ano 1000 — todos os textos sobre o assunto usam termos como “acredita-se” ou “diz a lenda”. O lobby também argumenta que ali houve trincheiras da Revolução de 1932 — não há restos que comprovem, porém.

Os donos do lote queriam fazer ali um empreendimento misto (o projeto é de 2007). Um prédio comercial na Avenida Corifeu e residenciais na Rua Santanésia. Seriam mantidos 40% como verde. Mas, diante da pressão, o conselho municipal de preservação tombou o lugar e a prefeitura decretou a área de “interesse ambiental” em 2011, na gestão Kassab. A desapropriação custou 9 milhões de reais em valores de hoje (e ainda está na Justiça). O parque até agora não saiu, cercado por um muro alto.

Certamente, os vizinhos pró-parque são pessoas bem-intencionadas e engajadas. Têm todo o direito a defender seu quinhão. Mas, no Brasil, temos o vício de avaliar mais as intenções que os resultados delas. E se o poder público sempre atender primeiro o pedido de parque, centro cultural, tombamento feito pelas classes mais altas, como ficarão os investimentos para quem não tem um megafone tão potente?

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Se São Paulo fosse uma cidade rica e justa, seria lindo que cada bairro tivesse quatro parques. Bem mantidos, frequentados, limpos e seguros. Algo distante: o bairro de Cidade Ademar, cinco vezes mais populoso que o Butantã, com 260 000 moradores, não tem um parque. Sacomã, com 250 000 habitantes, tampouco. Mas dificilmente os movimentos de preservação encampam a demanda de bairros mais periféricos.

Uma das defesas mais demagógicas desse tipo de demanda é “todas as regiões da cidade precisam de mais verde, o Butantã e a Cidade Ademar merecem”. Equivale ao “todas as vidas importam” — sabemos que alguns bairros sempre terão suas preces atendidas primeiro. Nem todas as vidas são ameaçadas por igual.

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O movimento pelo Parque Augusta, por exemplo, conseguiu encurralar o orçamento limitado da prefeitura até ser atendido. O Ministério Público exigiu do então prefeito Fernando Haddad que o dinheiro repatriado de contas no exterior de Paulo Maluf fosse investido no Parque Augusta. Será que os promotores que se acham Poder Executivo não conheciam nenhum lugar mais carente da cidade?

Da Vila Leopoldina, que quer barrar conjuntos habitacionais, a bairros que não querem o metrô, sabemos quem sempre vence essas quedas de braço. O Morro do Querosene, a área lindeira ao tombado “Parque da Fonte”, é retratado pelos seus habitantes como um reduto de artistas alternativos, o que justificaria o Butantã ganhar o seu terceiro parque. Mas uma rápida visita aos classificados de imóveis próximos ao terreno traz casas de três quartos sendo vendidas entre 700 000 e 1,2 milhão de reais. Não exatamente valores populares — ainda que os 20% mais ricos paulistanos (os que ganham acima de 4 000 reais por mês) adorem se autodenominar como “classe média”.

Um contorcionismo comum em São Paulo é o do paulistano que tenta esconder privilégios, mascarando suas demandas com causas nobres. Preservação histórica, ambiental, “tem um rio aqui embaixo, vai prejudicar a vista, vai trazer trânsito”, como se alguns poucos escolhidos pudessem ser poupados de trânsito ou de ter muitos vizinhos na megalópole de 12 milhões de pessoas. A verdadeira “especulação imobiliária” é quando subterfúgios são usados para valorizar uma área no seu próprio quintal. Como ganhar um parque…

Mais triste é que o terreno vazio fique a menos de vinte minutos a pé de uma estação de metrô. Mas São Paulo se dá ao luxo de fazer metrô onde moram poucos. E aplaude lutas contra a possibilidade de mais gente morando perto das estações (a Butantã, a Sumaré, a Vila Madalena e a Pinheiros, na Marginal, são cercadas por baixíssima densidade). Um conjunto habitacional do Minha Casa, Minha Vida seria um uso justo para aquela gleba — basta determinar que o empreendimento preserve a bica. Dificilmente hoje o BNH da Vila Madalena seria erguido onde está — muito artista alternativo preferiria um parque ali. Ou um centro cultural. Habitação bem localizada nunca é prioridade.

Publicado em VEJA São Paulo de 07 de outubro de 2020, edição nº 2707

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