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Poder SP - Por Sérgio Quintella Sérgio Quintella é repórter de cidades e trabalha na Vejinha desde 2015

Falso embaixador que simulou sequestro aplicou golpes no Maranhão

Marcelo Castilho é advogado e se casou com uma professora maranhense que conheceu pela internet

Por Sérgio Quintella 23 nov 2018, 13h31

O advogado Marcelo Henrique Morato Castilho, 34, que se apresentava como embaixador da ONU e é acusado de simular um sequestro para fugir de um casamento marcado para setembro, em Brasília, havia se casado com uma jovem maranhense no início do ano. Moradora da cidade de Balsas, a mais de 800 quilômetros de distância da capital, São Luís, a professora de 25 anos, que não terá o nome divulgado e não concordou em conceder entrevista, tenta agora na Justiça um pedido unilateral de divórcio. Ao contrário das outras vítimas de Castilho, que possuem bens e dizem ter custeado parte da boa vida do homem, o caso no Maranhão é diferente.

Sem posses e com a promessa de que tratava-se da concessão de um visto para ingressar em outro país, a professora, que conheceu o acusado em novembro do ano passado pela internet, assinou documentos em inglês antes mesmo da concretização do matrimônio, ocorrido em fevereiro e registrado no cartório da cidade. Suspeita-se que os papéis poderiam ser usados em algum tipo de fraude envolvendo seguros. Ainda na lua de mel, Marcelo Castilho, que havia prometido vida de luxo à jovem, como viagens ao exterior, sumiu e nunca mais foi visto pela região. Com isso, a sonhada vida de esposa de um embaixador nunca veio. Além de deixar a noiva com os traumas do abandono, ele teria contraído dívidas em nome dela. Procurado, o advogado, que concedeu entrevista a VEJA SÃO PAULO em outubro, não atendeu mais a reportagem.

O segundo casamento

Na semana passada, a mais recente vítima de Castilho – ele simulou um sequestro para fugir do casamento de Brasília, marcado para ocorrer em setembro – entrou na Justiça para obter uma indenização de 189 000 reais. O dinheiro gasto, segundo a acusação, foi destinado a restaurantes, viagens e aos preparativos da festa que nunca ocorreu.

No processo, a mulher, que pediu para não ser identificada e também não quis conceder entrevista, afirma ter pago 11 000 reais no seu vestido de noiva e mais 6 000 reais com cerimonialista e fotógrafo. Os doces, que lhe custaram 1 100 reais, e uma luva de renda, que saiu por 31 reais, também foram bancados pela vítima. O maior gasto foi com as flores que enfeitariam a cerimônia: 21 890 reais. Os pagamentos, segundo consta do processo, não foram estornados e saíram de sua conta bancária.

Entre junho e agosto, a mulher diz que cancelou sua agenda de trabalho (ela é profissional liberal) para acompanhar o então noivo e chegou a encerrar as atividades de seu consultório. “Havia a ideia de que após o casamento, eu, como esposa do embaixador, deveria acompanhá-lo nas cerimônias”, escreveu no documento protocolado na Justiça de São José do Rio Preto (SP), onde ambos moram. A ideia de se mudarem para Brasília teria partido dele, com o intuito de construir uma nova vida em outro lugar.

O sequestro

Na época, a imagem que circulou nos noticiários, do homem alto, gordo, ajoelhado sob um gramado, foi justificada pelo acusado como um ato religioso. “Eu sou religioso, católico praticante e estava em ponto de oração. Pode ver na foto, não tem semblante de subjugação. Eu sempre rezo ajoelhado“, disse a VEJA SÃO PAULO. “Se tem gente que desiste na frente do padre, por que eu não poderia mudar de ideia uma semana antes?”.

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Porém, no processo de indenização, a ex-noiva enganada mostra imagens de conversas do WhatsApp que comprovariam a fraude. Após a “libertação” do sequestro, o “embaixador” Castilho disse que precisaria ir aos Estados Unidos, em avião oficial, para dar detalhes do ocorrido.

 

Reprodução/Veja SP
Reprodução/Veja SP

 

Mais um casamento e acusação de cárcere privado

Em 2015, na mesma São José do Rio Preto, Marcelo Castilho diz que se apaixonou por uma jovem hoje com 29 anos. A ideia era se casar em Mônaco. “Fomos para a Europa, visitamos Londres, Paris, tudo bancado por mim. Queríamos que a cerimônia fosse em um castelo. Mas ela não queria que houvesse festa antes de eu resolver um problema judicial para o pai dela, que estava prestes a perder um apartamento. Tão logo eu consegui liberar o imóvel na Justiça, ela terminou comigo e me bloqueou até no WhatsApp. Me senti usado”, diz.

Para a polícia, a mulher deu outra versão. Disse que foi obrigada a ficar trancada em casa, que apanhava e que o então noivo possuía duas armas não registradas. Além disso, Marcelo Castilho teria lhe fornecido dinheiro falso. O caso está em investigação sigilosa na delegacia da cidade. Procurado, o delegado responsável pelo caso não quis comentar. Sobre o dinheiro, Castilho afirma que a ex-noiva ameaçou denunciá-lo por agressão caso ele não lhe desse 250 000 euros. Como ficou desesperado, o homem imprimiu as cédulas de forma grosseira, diz. A participação de sua mãe (e de sua avó) nesse caso também está sendo investigada pela polícia.

Castilho, que está com sua carteira da OAB suspensa devido a um processo disciplinar (ele é acusado de receber honorários de 100 000 reais e não prestar os serviços), se apresentou à polícia de São José do Rio Preto, nesta sexta (23), para prestar esclarecimentos sobre uma das supostas vítimas, mas acabou não sendo ouvido pelo delegado. O depoimento foi marcado para a próxima quinta-feira (29).

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