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Na Plateia Tudo sobre teatro

Universo feminino – Três visões do papel da mulher na sociedade

"Uma Shirley Qualquer", "O Bote da Loba" e "Vaga Carne" estão entre as atrações da cidade

Por Dirceu Alves Jr. - Atualizado em 18 jan 2017, 16h19 - Publicado em 18 jan 2017, 16h00

Uma Shirley Qualquer: a reinvenção de uma dona de casa

O monólogo Shirley Valentine, escrito pelo inglês Willy Russell em 1986, ganhou o mundo como um grito tardio das mulheres que passaram à margem dos movimentos feministas e, na maturidade, enxergaram que só lhes restava preparar o jantar do marido. Virou um delicado filme com Pauline Collins em 1989 e rendeu notáveis montagens brasileiras protagonizadas por  Renata Sorrah (1991) e Betty Faria (2009). Com adaptação e direção de Miguel Falabella, Susana Viera supera o desafio de viver a submissa dona de casa na versão batizada de Uma Shirley Qualquer e, apoiada em seu carisma, se diferencia das demais interpretações marcantes.  Assim como as outras, sua Shirley conversa com a parede da cozinha, não dialoga com os filhos e titubeia ao ser convidada por uma amiga para conhecer a Grécia. Susana, porém, dispensa a melancolia típica da personagem e abraça a espontaneidade. A atriz quebra o gelo com a plateia, recorre aos improvisos e ri de si mesma quando tropeça em trechos do texto. Na trilha dos comediantes, a estrela evoca o estilo de Falabella  e, com tanta autenticidade, presta uma homenagem, talvez até inconsciente, a Dercy Gonçalves, a mãe de todos (80min). 12 anos. Estreou em 13/1/2017.

+ Teatro Renaissance. Alameda Santos, 2233, Cerqueira César. Sexta, 21h30; sábado, 21h; domingo, 18h30. R$ 100,00. CI. Até 26 de março.

O Bote da Loba
O Bote da Loba Gal Oppido

O Bote da Loba: o último Plínio Marcos vai da repressão ao prazer 

Em seus últimos anos, o dramaturgo Plínio Marcos (1935-1999) desviou o foco do universo marginal para lançar um olhar em relação ao comportamento sexual da classe média. Foi assim em A Dança Final (1994) e na comédia dramática inédita O Bote da Loba (1997), que ganha a primeira montagem sob a direção de Marcos Loureiro. Bela, recatada e do lar, Laura (interpretada por Luciana Caruso) procura a vidente Veriska (papel de Anette Naiman) para se livrar da angústia que domina os seus dias. No meio da consulta, a maga usa os poderes místicos também para provocá-la sexualmente e faz a cliente perceber que, mesmo casada, pode descobrir outras formas de prazer. O intimismo da encenação, que recebe apenas 26 espectadores, favorece a peça e transforma o público em um espião diante de um confessionário. O texto está longe dos grandes momentos de Plínio, mas garante o interesse graças ao empenho das atrizes, especialmente Luciana Caruso, convincente na repressão inicial de Laura (60min). Estreou em 18/11/2016.

+ Teatro Garagem. Rua Silveira Rodrigues, 331, Vila Romana. Quarta e quinta, 21h. R$ 40,00. Até 30 de março.

Vaga Carne
Vaga Carne Kelly Knevels

Vaga Carne: os anseios da voz interior

Artista inquieta, a mineira Grace Passô é atriz, diretora e dramaturga. Em comum, os seus trabalhos trazem à tona anseios femininos, seja no campo da identidade ou da inclusão social. O monólogo Vaga Carne, criado, dirigido e protagonizado por ela, representa a radicalização em torno da necessidade de expressão. Apoiado em elementos físicos e performáticos, o solo coloca no palco vazio uma figura feminina que se impõe de acordo com os anseios de sua voz interior — aquela que nem sempre é ouvida pelos outros. Grace surpreende pela técnica corporal com que apresenta essa metáfora, a do sujeito tomado por uma espécie de entidade que não consegue controlar e, logo, vira porta-voz de ideias e atitudes que podem não ser as suas. Com técnica e inteligência, Grace ganha a plateia graças ao discurso pertinente e provocativo (50min). 14 anos. Estreou em 13/1/2017.

+ Espaço Cênico do Sesc Pompeia. Rua Clélia, 93, Pompeia. Quinta a sábado, 21h; domingo, 19h. R$ 25,00. Até 5 de fevereiro.

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