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Na Plateia Tudo sobre teatro

Renata Sorrah abre um pouco de sua cozinha: “eu não sei por que uma pessoa é atriz”

Heleninha, Nazaré, Nina, Mary Stuart, Olga, Shirley Valentine, Medeia, Lady Macbeth… Bem, a lista de personagens famosas de Renata Sorrah é longa. Ela ainda é a mãe de Mariana, de 31 anos, e a avó de Miguel, de 3 anos, e de Betina, com 9 meses. Dessa vez, no entanto, talvez seja difícil daqui a […]

Por Dirceu Alves Jr. - Atualizado em 27 fev 2017, 11h01 - Publicado em 20 abr 2013, 01h07

Renata está na peça “Esta Criança”, em cartaz no Sesc Vila Mariana (Fotos: Sandra Delgado)

Heleninha, Nazaré, Nina, Mary Stuart, Olga, Shirley Valentine, Medeia, Lady Macbeth… Bem, a lista de personagens famosas de Renata Sorrah é longa. Ela ainda é a mãe de Mariana, de 31 anos, e a avó de Miguel, de 3 anos, e de Betina, com 9 meses. Dessa vez, no entanto, talvez seja difícil daqui a algum tempo você lembrar pelo nome quem Renata interpretou na peça “Esta Criança”, do francês Joël Pommerat. São sete mulheres diferentes. Sob a direção de Marcio Abreu, a atriz carioca de 66 anos divide o palco com os atores Edson Rocha, Giovana Soar e Ranieri Gonzalez, da curitibana Companhia Brasileira de Teatro. A montagem está no Teatro do Sesc Vila Mariana. O resto fica para Renata contar.

Você ganhou o Prêmio Shell no Rio de Janeiro, a peça só recebe elogios… O público espera “Esta Criança” com muita expectativa em São Paulo. Isso ajuda?

Essa expectativa me deixa mais nervosa ainda. Fizemos Rio, Curitiba e Brasília. O espetáculo está bem azeitado e sei que vai ser bacana por aqui também. Mas eu fico com essa respiração suspensa. Quero que as pessoas gostem e isso sempre me deixa tensa antes de entrar no palco. O ator precisa ultrapassar aquela linha para chegar ao palco, sabe? E essa hora é assustadora, é o grande desafio.

Essa tensão pode paralisar?

Paralisar como? Se pode me impedir de entrar em cena? Não. De jeito algum, isso não acontece. Eu tenho um compromisso. E o medo me leva adiante.

O que mais a encantou nesse texto?

Não sei exatamente. Eu tinha lido sozinha, na minha casa, e já adorado. Depois, lemos eu e o Marcio. Quando eu fui para Curitiba e fizemos a primeira leitura em grupo, eu não sei explicar o que aconteceu. Foi um nó na garganta. Digo isso sem pieguice. Mas eu me senti muito emocionada. Para mim, não é um texto francês. É claro que existe a cultura desse francês que criou essa história e ela está ali, mas a nossa escrita se tornou tão forte, nós nos apropriamos dessa dramaturgia também. Se você monta um Tchecov, está fazendo um texto russo, claro. Mas eu nunca pensei nisso enquanto interpretava a Nina de “A Gaivota” ou a Olga de “As Três Irmãs”, que estão entre meus trabalhos preferidos. São mulheres com anseios comuns, de qualquer lugar. E isso só acontece quando o ator se apropria do personagem. Se não ele vai tentar construir uma francesa, uma russa, uma personagem de hoje ou do século 18, entende? Mas eu sei o que mais me toca nesse texto.

E o que é?

Essa peça fala de relações determinantes na vida de qualquer pessoa. Você é muito fruto da relação com seus pais. E posteriormente da relação com seus filhos, caso os tenha. Eu ainda tenho o meu pai e também tenho uma filha, que já meu deu dois netos, então eu penso nisso. Ao mesmo tempo, são relações que, muitas vezes, na correria da vida, damos uma atenção menor. Justamente porque não as perdemos, elas não deixam de existir.

Você leva suas experiências de filha, mãe e avó para o palco?

Eu levo a minha vivência. Mas não é uma coisa que eu explicito. Foram quatro meses de ensaios, um mês em Curitiba e três no Rio. Em momento algum, veio à tona como eram nossas relações pessoais. Ninguém me perguntou como eu era como mãe e eu nem perguntei para ninguém algo a respeito. Cada um guardou seus segredos, não fizemos terapia de grupo. É a chamada cozinha do ator, sabe? E acho importante essa preservação. São 22 personagens ao todo. Eu faço sete mulheres, sem qualquer recurso de maquiagem, o figurino é sempre simplíssimo. Não existe um protagonista. Os quatro atores têm peso igual.

Não deixa de ser uma lição de humildade sua, não?

Eu nunca fui uma atriz de me preocupar com isso. A meta nunca é ser a protagonista. Pode parecer uma bobagem falar isso se eu já interpretei Medeia, se já fiz ”As Três Irmãs” e “A Gaivota”… Mas eu nunca sonhei com personagem. Eu sempre penso que não vou fazê-lo bem. Quando eles aparecem na minha vida eu me entrego e sigo em frente. Quando eu montei “Encontrar-se”, dirigida pelo Ulysses Cruz, ele dizia que eu parecia uma menina iniciante do grupo Boi Voador, que ele comandava na época (risos).

Então você deve ser o tipo de profissional que funciona bem trabalhando em grupo.

Eu comecei no grupo dirigido pelo Amir Haddad na década de 60 e depois nunca mais me encaixei em outro. E eu adoro trabalhar em grupo. Teatro é isso. Eu já repeti alguns diretores, repeti alguns colegas, mas nunca me liguei a uma companhia. Eu gosto de ter resposta. O tempo todo. Quando essa peça termina, ficamos todos sem respiração. As pessoas também saem com essa sensação.

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Renata e o diretor Marcio Abreu: quatro meses de ensaios, um em Curitiba e três no Rio

O que faz você procurar esses diretores jovens, fato recorrente na sua carreira?

Porque eles são ótimos! E eu quero trabalhar com gente que eu considero ótima. É a qualidade do Marcio, da Bia Lessa, do Enrique Diaz, da Monique Gardenberg, do Felipe Hirsch. Acho que o teatro brasileiro tem seus mestres. Eu comecei a fazer teatro com o Amir Haddad e aprendi muito com ele, muito mesmo. O Amir, o Antunes Filho e o Zé Celso Martinez Corrêa são os principais mestres. Eu levei isso para a vida. Quero sempre estar perto de gente com quem eu possa trocar e aprender algo novo.

E eles com você, certamente…

Eu entendo o que você está falando. Talvez sim, mas acho que foi um encontro conquistado. Nós tivemos vontade de trabalhar um com o outro e fomos atrás disso. Estamos sempre juntos, ainda mais em viagens. Almoçamos, jantamos juntos, ficamos muito concentrados. Esses quatro meses de ensaios foram dos mais felizes da minha vida. Eu não sei por que uma pessoa é atriz e não outra coisa qualquer. Eu poderia ter sido uma psicóloga, estudei para isso, uma veterinária talvez. Mas eu sou uma atriz.

Mas pensa melhor… Por que você é atriz?

Eu não sei!!!! Estou dizendo isso. Não faço a menor ideia. Tem o talento, claro. Não vou negar. E, no meu caso, depois apareceu a vocação. Porque uma coisa não existe sem a outra. Não adianta. Eu não sei qual é meu processo. Posso dizer que valorizo o concreto, mas daqui a pouco acho que sou movida pelo que vem de dentro, pela intuição. Desde 1985, quando montei “Grande e Pequeno”, produzo meus espetáculos. Então preciso estar fascinada com o projeto, mas não posso perder o olho da administração, do dinheiro. Hoje, claro, eu tenho uma produtora comigo. Mas, no passado, eu anotava tudo no meu caderninho. Ficava fechando as contas, marcava as datas de depósitos dos cheques, o vencimento das faturas. Hoje, eu passei essa tarefa adiante.

E você vai fazer o remake de “Saramandaia”. O que podemos esperar?

Não é um papel grande. É um papel lindo. Isso sim! Vou fazer a Leocádia, mãe do João Gibão (personagem do Sergio Guizé). Ela tem um filho alado, um filho diferente. E foi isso que mais me interessou. Como lidar com esse filho, como entender a diferença dele? Como uma mãe lida com um filho que não é igual aos outros, não é da forma como ela esperava. Tem uma turma ótima nessa novela. Eu conheci o Sergio Guizé com a peça “Hotel Lancaster” e já o achei muito bom. Com a série “Sessão de Terapia”, então, eu me encantei. E tem Fernanda Montenegro, Tarcísio Meira, José Mayer, Lilia Cabral, Ana Beatriz Nogueira, Aracy Balabanian. Ainda não comecei a gravar, mas sinto que vou encontrar um pouco esse sentimento de grupo também.

O teatro soma muito para a televisão?

Sim. O teatro soma muito. O contrário não acontece. O meu melhor exemplo é a Nazaré. Fazia “Medeia” no Rio de Janeiro e veio o convite para a novela “Senhora do Destino”. No palco, era uma mulher abandonada pelo marido que mata os filhos, alucinada. Eu estava completamente pronta, azeitada para a Nazaré. Foi só pegar o texto e começar a gravar. O ator de teatro é como um jogador de futebol, um atleta. Deve existir um preparo físico que se comunique com a cabeça e o coração, entende? E às vezes acontecem esses milagres na televisão. A Nazaré é comentada por aí até hoje.

Tanto ou mais que a Heleninha de “Vale Tudo”, não?

Eu fico impressionada com a Heleninha. Gerações quem nem viram a novela falam da personagem, chamam alguém que está bebendo demais de Heleninha. Já faz 25 anos que a novela foi ao ar. Claro que teve uma reprise há pouco, mas as pessoas se interessam por ela e não sei onde tiram tantas referências. São sucessos que não se explicam muito. O personagem cresce de uma maneira que fica maior que você.

E a Heleninha e a Nazaré levam os espectadores para vê-la no teatro?

Em um primeiro momento eu duvido, acho quase absurdo. Mas se estou em Londres e tem uma peça protagonizada pela Vanessa Redgrave é claro que vou querer assistir. Nem vou pensar. Quero vê-la no palco. E imagina estar na Broadway e ter a oportunidade de assistir ao Jude Law fazendo “Hamlet”? Não é incrível? Mas deve ser porque eles são do cinema. Não sei se o público tem essa relação com um ator por causa da televisão.

Renata à frente de Edson Rocha, Giovana Soar e Ranieri Gonzalez, da Cia. Brasileira de Teatro

 

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