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Memória Por Blog Uma viagem no tempo às décadas passadas por meio de suas histórias, costumes e curiosidades.

Diretor Zé Celso Martinez Corrêa apresenta nova versão da peça Roda Viva

A montagem quebrou a unanimidade em torno do cantor Chico Buarque nos anos 60

Por Dirceu Alves Jr. - 14 Dec 2018, 06h00

Chico Buarque era a coqueluche do momento. Moças e senhoras de família ouviam a canção A Banda e, encantadas com o rapaz de olhos verdes, idealizavam nele a imagem da perfeição. O cantor e compositor, porém, não estava legal com a agenda frenética de shows e gravações durante o ano de 1967. Como válvula de escape, Chico escreveu a primeira de suas quatro peças, Roda Viva, uma paródia aos bastidores da televisão e à fabricação de ídolos de massa, algo que sentia na própria pele naquela época.

O diretor Zé Celso Martinez Corrêa, embalado pelo sucesso de O Rei da Vela, enxergou no texto um prato cheio para radicalizar suas provocações. Roda Viva estreou em janeiro de 1968, no Teatro Princesa Isabel, no Rio de Janeiro, e arrepiou os cabelos das fãs de Chico que, claro, esperavam uma mensagem mais tranquila. O protagonista é o sambista Benedito Silva (interpretado por Heleno Prestes), o mais novo famoso do showbiz, que tem a vida transformada em um inferno. Em uma cena, o personagem é crucificado tal qual Jesus Cristo. Em outra, os atores despedaçavam um fígado de boi cru diante dos olhos arregalados da plateia, que se chocava ainda com uma representação de Nossa Senhora rebolando de biquíni para uma câmera.

O autor nos ensaios (à dir.): peça escrita em 25 dias Divulgação/Divulgação

Antônio Pedro, Marieta Severo e Paulo César Pereio também se destacavam entre os dezoito artistas do elenco, que revelou Zezé Motta e Pedro Paulo Rangel. A censura ficou de olho, forçou a barra por mudanças, mas o diretor se manteve irredutível. Como represália, os atores foram agredidos pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC) em São Paulo e Porto Alegre. Cinco décadas depois, o inquieto Zé Celso monta nova versão de Roda Viva, com o aval do próprio Chico, que, traumatizado, jamais havia autorizado outra encenação do seu polêmico texto de estreia na dramaturgia.

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