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“Sorte a minha que pude renascer”

Depois do fundo do poço do burnout, Juliana Ferraz aprendeu a parar, a dizer não e a olhar para si mesma com mais generosidade

Por Juliana Ferraz em depoimento a Helena Galante Atualizado em 20 Maio 2021, 21h56 - Publicado em 21 Maio 2021, 06h00

Há três anos eu tive um burnout pesadíssimo. Antes disso, nunca tinha ouvido falar dessa síndrome — e talvez você também não saiba o que é. Então, antes de contar a minha história, vou explicar: a síndrome de burnout é um distúrbio psíquico causado pela exaustão extrema, sempre relacionada ao trabalho de um indivíduo. ela é o resultado direto do acúmulo excessivo de stress, de tensão emocional e de trabalho e é bastante comum em profissionais que estão sob pressão constante.

E foi exatamente isso que aconteceu comigo, em um período muito difícil da minha vida profissional, quando eu acumulei um volume tão grande de trabalho, responsabilidades e projetos que acabei caindo. O diagnóstico não foi simples, nem foi feito de primeira. Tudo começou a ser investigado quando eu tive fortes dores no peito, uma falta de ar incontrolável e me vi desesperada em busca do hospital mais próximo, pois eu tinha certeza de que estava tendo um ataque cardíaco.

E não era. Era o burnout. essa doença que me atacou de uma forma tão forte, tão trágica e tão potente que eu achei que nunca ia me recuperar. No entanto, como estou aqui escrevendo este texto para vocês, dá para perceber que eu consegui. Mas não foi fácil. E ainda não é fácil. À época do pico do burnout eu tive de me afastar do trabalho por prescrição médica e conviver com sintomas que incluíam, além da falta de ar e da dor no peito, uma sensação de apatia, confusão mental, falta de força física e até dificuldade de falar.

Junto do afastamento profissional, eu tive de me distanciar completamente da minha vida social. E para uma pessoa que tem como principal instrumento de trabalho suas relações interpessoais e sua conexão com o outro foi um baque imenso. Mergulhei num universo sombrio, sem perspectivas, sem respostas às minhas perguntas, sem visão de futuro. Às vezes parecia que o futuro não ia chegar. Que tudo estava acabando ali. e, pela primeira vez na vida, eu me vi sem respostas para as muitas perguntas que não só eu fazia, mas que quem gostava de mim também me fazia.

Cheguei ao fundo do poço, literalmente. Mas, como dizem por aí, todo fundo do poço tem uma mola. E, aos poucos, fui recomeçando. Acompanhada de excelentes profissionais, que incluíam psiquiatras, psicólogos e terapeutas, fui dando um passo de cada vez.

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Pedi demissão do emprego, cortei amizades tóxicas, fiz um grande detox da minha vida e aprendi a olhar para tudo de uma outra forma. Nem certo nem errado, mas de uma maneira diferente, pois do jeito que eu estava tocando a minha vida não ia conseguir ficar viva por muito tempo. Troquei os grandes planos e sonhos distantes por pequenas vitórias e a necessidade de viver um dia de cada vez.

Amparada por uma pequena rede de apoio, fui abrindo meus olhos para novas belezas, novas formas de encarar os problemas, aprendi a olhar para o outro de modo mais compreensivo, descobri o poder de lutar pelos meus direitos — e a cobrá-los em voz alta — mas, principalmente, aprendi a me amar. Aprendi a ser generosa comigo e aprendi a parar.

A dizer não quando necessário, a ficar em silêncio quando o corpo pedia, a estar presente no presente. Alguns anos depois, cá estou e o burnout ainda vive em mim, como se fosse uma cicatriz que dói de vez em quando. Ela me deixa alerta, me lembra dos meus limites, me lembra de me sentir confortável em mostrar as minhas vulnerabilidades. E assim eu sigo, com orgulho de quem eu sou. Pois de uma coisa eu posso ter certeza: se eu me salvei do burnout, posso me salvar de muita coisa ainda.

Mulher ruiva posa em um sofá preto
Juliana Ferraz Leca Novo/Divulgação

Juliana Ferraz (@juferraz)é sócia e diretora da Holding Clube, defensora do corpo livre e #bodypositive.

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Publicado em VEJA São Paulo de 26 de maio de 2021, edição nº 2739

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