“Silêncio é o momento do significado”, reflete mestre de meditação

Satyanatha fala sobre o alívio trazido pelo silêncio interior, quando se consegue entender o que é importante

Todas as religiões dão muito valor ao silêncio. No entendimento mais simplório, ele é severo, uma restrição: seguramos as palavras para que elas não saiam. Mas não é assim que monges o entendem, um encolhimento de si mesmo. Para eles, do silêncio nasce a expansão.

A mente tagarela é cansativa, disso todos nós sabemos. Ela entrelaça ideias e pensamentos como os elos de uma corrente infinita, que passa e vai, e vai mais, por assuntos e opiniões e tarefas e julgamentos sem fim. Essa maravilhosa máquina, a mente, é para ser usada por nós — mas ela nos comanda, encarcera e até domina. Quantas palavras, mesmo que não saiam pela boca! Elas fortalecem uma parte de nós que não entende o todo e que, de tópico em tópico, nos faz esquecer o que originou o ato de pensar.

Em casos graves, a pessoa tem tantos pensamentos — contraditórios, acumulados, irredutíveis, emaranhados — que esquece quem ela é. Como em uma caldeira que explode e derrete, ou um fichário de que se derrubam as páginas, tudo se confunde. As palavras são a força da mente, e às vezes tanto combustível é demais.

O silêncio da fala é o primeiro passo, mas ele está longe de ser suficiente. A busca é pelo silêncio interno, aquele que traz paz e alívio. A atenção plena no momento presente é o primeiro passo. Estar no lugar em que se está, abrir os olhos — e ver. As cores, as luzes e formas. Nada analisar, mas tudo perceber, sem julgar. O segundo passo é respirar mais fundo, usando completamente o tórax; respirar e sentir. E o terceiro passo é a expansão: aquilo que nos oprimia, a pilha de pensamentos acumulados, é deixado para trás, e, como alguém que se levanta e se espreguiça, você sente a consciência ficar maior.

Silêncio é o momento do significado. É somente nele que conseguimos ver o que realmente é importante na nossa vida.

Tudo o que não tem significado morre, rápido ou devagar, estilhaçado em uma ilusão que acaba brusca ou arrastando-se pelas bordas da vida. O que é real fica. Nesse silêncio interior da gente, na ausência dos repetidos pensamentos, fica óbvio o que era importante: o que era meta, e o que era método.

Buscar as crianças na escola? É mais uma tarefa, é irritante por causa do trânsito, é repetitiva, é passada aos outros, é pesada e chata. Mas na presença do silêncio que revela o significado… é uma dádiva, um presente. Um abraço que não vai se repetir. Uma alegria inexplicável da leveza que a criança traz. Uma oportunidade de amar e ser amado rara neste mundo cético e acelerado.

Somos, em geral, levados a encarar o significado apenas quando algo nos impacta tanto que silencia a mente, arrasada. Uma doença, uma perda trágica, uma extraordinária mudança. Nos filmes é fácil perceber: o tempo para, a câmera foca. O significado, entretanto, sempre esteve lá, esperando para ser descoberto. O silêncio fará isso. Para que esperar?

Somos, na verdade, muito mais que a nossa agenda ou a nossa extensa lista de tarefas. Quem sabe manejá-las? Como viver nestes dias? Ainda estou aprendendo. Mas já sei que os monges se envolvem em vários projetos, muitos, e, embora se cansem, usam essa técnica para não esquecer quem são. No intervalo, na busca do silêncio interior, encontram o significado. E aí tudo fica claro, e a vida se revela.

 (AMCHAM/ARQUIVO PESSOAL/Veja SP)

Satyanatha medita amando o silêncio dentro dele. Aprofunda-se, até nada saber. Quando volta, descobre a vida. É autor do app Vivo Meditação e adora participar do podcast Jornada da Calma, de VEJA SÃO PAULO. Seu Instagram é @satyanatha.

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 19 de junho de 2019, edição nº 2639.

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