Satyanatha reflete sobre como encontrar novos sentidos para a vida

"Se o mundo é o mesmo, você não é", afirma o mestre de meditação, que ensina sobre a "iteração", que significa repetidamente trilhar a mesma estrada

No alto dos Himalaias existe uma montanha sagrada, o Monte Kailash. Ela não é a mais alta, nem a mais inacessível daquela terra distante, onde o frio convida ao recolhimento e o silêncio das neves nos leva naturalmente à meditação; mas nenhuma montanha é tão reverenciada. Para os antigos, que tinham maior contato com a natureza, tudo é sagrado — a vida em si é. Só que existem lugares onde a divindade se expressa com mais força, seja um local construído por pessoas, seja pela natureza. O Monte Kailash é um deles.

Os peregrinos que buscam uma mudança em sua vida, de maneira nada diferente de nossos rituais de roupas brancas e resoluções de ano-novo, dirigem-se à montanha sagrada. Caminhando no frio, na companhia de si mesmos, eles buscam graça e expressam gratidão. Alguns desatentos, outros tristes e ansiosos, eles circunscrevem o Monte Kailash ao redor de toda a gigantesca montanha, em uma longa trilha de léguas, que pode levar semanas para ser completada. Como a Caminhada de Santiago de Compostela, como a peregrinação de Moisés no deserto, eles vão levados pela esperança.

A montanha é mágica e atende aos desejos daqueles que completam a jornada? Há regras inimagináveis, seres invisíveis, budas secretos observando os caminhantes? Não importa. Talvez você e eu possamos perceber forças intensas permeando o Monte Kailash, sentir o sutil, mergulhar nas energias sublimes da montanha e da tradição milenar. Entretanto, mesmo que a montanha fosse apenas pedra e gelo, indiferente à humanidade esforçada que peregrina ali, ainda assim aquilo teria um efeito de potencial poderoso. Porque a vida da gente é determinada pelo que existe dentro de nós. Se o peregrino, ao contornar a montanha, se transformar internamente, a vida dele se transformará.

Há uma palavra linda na nossa língua portuguesa que é pouquíssimo conhecida: iteração. Não é interação, que significa agir junto, ligado. Mas sim iteração, que vem do latim iter, caminho, e significa repetidamente trilhar a mesma estrada, fazer novamente.

Você já viu algo ficar perfeito da primeira vez? Já observou uma criança aprendendo? Já olhou as obras mais antigas de Leonardo da Vinci e Fernando Pessoa, imperfeitas e amadoras, antes de eles se tornarem mestres? Eles tinham talento, mas a repetição e o aperfeiçoamento contínuo os levaram a obras inacreditáveis. Iteração. A caminhada repetida, reiterada, re-trilhada, do mesmo caminho.

A peregrinação ao redor do Monte Kailash, ou qualquer outra caminhada sagrada, funciona pela recepção de bênçãos sutilíssimas e de algo muito mais pragmático: ao caminhar com a consciência aberta à mudança, você se transforma, embora a estrada seja a mesma.

A vida de 2019 será igual em quase tudo: o mesmo trabalho, a mesma cidade, a mesma casa, talvez com isso ou aquilo mudado. A iteração é isto: trilhar a mesma estrada, mais uma outra vez, e outra vez. Como um teste em que você precisa passar mil vezes, uma prova igual todo dia, você tem a chance de cada vez tirar uma nota melhor, avaliada por você mesmo. Aquilo que mudar na sua vida externa cria novas oportunidades e novos desafios, é verdade. Mas aquilo que mudar dentro de você, cada caminhada do mesmo caminho, cada iteração, gera novas perspectivas e habilidades, mais força e luz, mais serenidade. Se o mundo é o mesmo, você não é. A cada caminhada, como quem pinta um quadro mil vezes, você pode fazer melhor. Quem encontra a sabedoria ama cada iteração.

A vida é sábia. Assim que você se aperfeiçoa, a tarefa está completa — e você está libertado, sua lição aprendida. E então finalmente tudo mudará: o novo emprego, o novo relacionamento, a nova vida. Tudo está dentro de você sempre, e o mundo responde à sua vibração interior.

 (Arquivo pessoal / Reprodução/Veja SP)

Satyanatha, o Sat, é um mestre de meditação, porque trilhou milhares de vezes o caminho da consciência até a luz que todos nós temos na essência. Adora ensinar isso. Aprendeu no distante monastério de Kauai e aprende todos os dias onde estiver. Autor do app Vivo Meditação, seu Instagram é @satyanatha

Comentários
Deixe um comentário

Olá,

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s