O Desespero Alegre e a arte de apreciar a vida

Mônica Barroso reflete sobre o modo tragi-cômico de encarar a vida

Nessa incessante busca pela felicidade, percebo que transitamos por extremos na tentativa de encontrar a tal plenitude. Mas foi em um lugar menos óbvio (e menos defensivo) que encontrei uma nova inspiração. Trata-se de uma espécie de senso de humor tragi-cômico que admiramos em pessoas que consideramos inteligentes, sábias e apreciadoras das sutilezas da vida. É o que na The School of Life aprendi a chamar de Desespero Alegre.

É difícil demais acolher o bem e o mal ao mesmo tempo, dá a sensação de estarmos em cima do muro, de não ser o certo a fazer. E então nos posicionamos de um lado ou de outro, e continuamos infelizes e confusos. Se examinarmos nossa vida cuidadosamente, concluiremos que 50% de nossas experiências são positivas e 50% negativas. Ao mesmo tempo em que o milagre da vida, o amor, a ciência nos fascinam, não escapamos da nossa cota de desastre e decepção. Em algum momento viveremos um amor não correspondido, uma desilusão profissional, um sonho do qual abrimos mão.

Diante dessa combinação desconcertante do belo e do trágico, acabamos sucumbindo a duas tentações infelizes: a primeira é negar a escuridão para tentar, com toda a força, evitar notícias do lado condenado da natureza humana. Bem ao lado está a tentação de nunca sentir esperança. Uma vez que abrimos nossos olhos completamente e nos damos conta dos males do mundo, pode ser difícil sorrir de novo. Há coisas demais pelas quais ficar triste.

Mas uma vida satisfatória requer que nós inteligentemente evitemos ambos os perigos, adotando a atitude do desespero Alegre, inspirada em uma das oposições mais estabelecidas da filosofia entre dois grandes pensadores, Demócrito e Heráclito. Ambos os homens (que viveram muito tempo) tinham um profundo conhecimento das pessoas e do mundo, mas os dois respondiam ao que sabiam de formas surpreendentemente diferentes:

  • Heráclito não conseguia parar de chorar.
  • Demócrito não conseguia parar de rir.

Demócrito ria não porque entendia mal quão cruel a vida podia ser. ele ria porque já tinha chorado tudo que podia. Ele simplesmente tinha exaurido suas lágrimas. Deste novo lugar, que nós dá um fôlego renovado, um conjunto de possibilidades de prazer e apreciação se abrirá para nós. Ficaremos tão maravilhados e tocados quando, uma vez ou outra:

  • Alguém parecer gostar de nós;
  • Tivermos uma excelente noite de sono;
  • Outro ano passar sem que alguém que a gente ama morra;
  • O sol bater gentilmente no nosso rosto;
  • Chegarmos ao fim do dia.

Nós estaremos muito mais preparados para aproveitar a vida quando tivermos levado em conta cada fato sombrio, porém sem carregar seu peso em nossas costas. É uma ideia fascinante, mas difícil. tem a ver com rever expectativas e encontrar valor no que está ao nosso alcance, reconhecendo e acolhendo a dor como parte do pacote. Minha relação com São Paulo já teve lampejos de Desespero Alegre — de verdade verdadeira, claro, não só no discurso. de tão consciente que fiquei do trânsito, da poluição, do barulho, da correria, passei a apreciar as coisas belas que a cidade oferece. Passei a reparar que a rua do trabalho me traz o mesmo sentimento da infância no interior, que a diversidade da Avenida Paulista num domingo preenche lacunas da alma. É uma forma mais humilde, mas não menos ambiciosa, de olhar para a vida.

 (Thays Bittar/Veja SP)

Mônica Barroso é professora da The School of Life Brasil, coach e consultora associada certificada da EcoSocial, instituição em que realiza seu propósito de apoiar indivíduos, grupos e organizações na aventura de encontrar seu lugar único na vida e no mundo.

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 19 de fevereiro de 2020, edição nº 2674.

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