Clique e Assine a partir de R$ 6,90/mês
Na Plateia Tudo sobre teatro

Rafael Gomes, diretor de “Um Bonde Chamado Desejo”: “Blanche carrega os lados escuros de todos nós”

Rafael Gomes é santista, tem 32 anos e pode ser considerado um dos diretores mais surpreendentes do teatro paulistano. Fez bonito com “Música para Cortar os Pulsos” e “Gotas D’Água sobre Pedras Escaldantes” e, agora, enfrenta um desafio capaz de assustar muita gente grande: ele é o diretor da nova montagem de “Um Bonde Chamado Desejo”, […]

Por Dirceu Alves Jr. Atualizado em 26 fev 2017, 16h21 - Publicado em 3 jun 2015, 20h28
Rafael Gomes: llll (Foto: Pedro Bonacina)

Rafael Gomes: ele dirige Maria Luisa Mendonça como Blanche Dubois (Fotos: Pedro Bonacina)

Rafael Gomes é santista, tem 32 anos e pode ser considerado um dos diretores mais surpreendentes do teatro paulistano. Fez bonito com Música para Cortar os Pulsos e “Gotas D’Água sobre Pedras Escaldantes” e, agora, enfrenta um desafio capaz de assustar muita gente grande: ele é o diretor da nova montagem de “Um Bonde Chamado Desejo”, que estreia no Tucarena, em Perdizes. Desta vez, Maria Luisa Mendonça protagoniza o drama de Tennessee Williams (1911-1983). A enigmática Blanche Dubois é obrigada a morar de favor na casa da irmã, Stella (a atriz Virginia Buckowski). Por lá, ela trava uma batalha com Stanley Kowalsky (papel de Eduardo Moscovis), o cunhado. Donizeti Mazonas, Fabrício Licursi, Fernanda Castello Branco e Matheus Martins completam o elenco. Convidei Rafael Gomes para um exercício de imaginação. Em forma de depoimento, ele fala de Blanche, das muitas leituras possíveis para a personagem, de grandes interpretações que ele viu e também de outras que não teve oportunidade, mas rondam sua mente.

O personagem e o mito

“Blanche Dubois habita a mitologia pessoal de cada espectador. Um desses personagens que é maior do que a peça que a abriga. É referência cultural consolidada e é, em sua complexidade, um amálgama multifacetado do que somos todos nós ou do que todos ainda seremos um dia, um pouco. Não à toa enfileiram-se as atrizes importantes de cada geração que encararam esse papel exigente e cheio de possibilidades. Assim como guardamos com carinho nossos Hamlets, Lears e Arkádinas preferidos, também já vimos e comparamos diversas Blanches. Mais do que isso, não? Já imaginamos diversas Blanches, já sonhamos com diversas Blanches, já embarcamos na nostalgia de Blanches que não pudemos ver.”

"Uma Rua Chamada Pecado": versão cinematográfica dirigida por Elia Kazan

“Uma Rua Chamada Pecado”: versão cinematográfica dirigida por Elia Kazan

A descoberta de Blanche

“A minha primeira Blanche Dubois foi no papel. Eu a descobri depois de ver Regina Braga fazer outro personagem mítico de Tennessee Williams, a Amanda Wingfield de “À Margem da Vida”. Fiquei obcecado com aquele autor de um universo tão memorialista, de tramas pessoais tão líricas e ásperas, com aquele gosto agridoce de pequenas tragédias tão reconhecíveis. E corri para ler ‘Um Bonde Chamado Desejo’. Assisti, logo depois, ao filme de Elia Kazan, mas a lembrança que consigo ter dessa primeira visão é difusa. Não me recordo se o filme não fez muito por mim ou se eu não estava pronto para ele. Talvez minha obsessão adolescente pelo melodrama de “E O Vento Levou” não tenha ajudado. Fui procurar na Blanche de Vivien Leigh aquela mesma petulância adorável, arrogância carismática e furor indomável de Scarlett O’Hara. Fracassei. Só muito tempo depois, na comparação com outras Blanches, descobri o motivo.”

Leona Cavalli como Blanche: encenação de Cibele Forjaz em 2002

Leona Cavalli como Blanche: encenação de Cibele Forjaz em 2002

Enfim, ao vivo

“Esperei quatro anos até ver a primeira Blanche ao vivo. Leona Cavalli estava hipnótica para meus olhos de 19 anos numa montagem de Cibele Forjaz, em 2002. Eu me lembro da força erótica, do magnetismo de diva, da postura aparentemente inquebrantável de uma mulher altiva e forte. Citando de memória, tudo isso pode ser mentira. Mas foi a minha verdade. A segunda Blanche que vi no teatro, sete anos depois, foi a de Cate Blanchett em uma montagem da Sidney Theater Company dirigida por Liv Ullmann. Ali, para além do acabamento naturalista inacreditável que a atriz invariavelmente esculpe em seus personagem, descobri um elemento até então insuspeito: o humor. Cate Blanchett me mostrou que Blanche Dubois pode também ser solar, leve, engraçada – e, com ela, todo o texto essencialmente trágico de Tennessee Williams.”

Continua após a publicidade

+ Leia entrevista com Leona Cavalli.

A redescoberta do filme

“Em seguida, revendo o filme de Elia Kazan, entendi finalmente por que Marlon Brando predominou tão fortemente sobre Vivien Leigh: a composição de Leigh era apática, sisuda, distante. Se Blanche já é uma personagem teatral por natureza – seu modo de vida, por assim dizer, é ‘performativo’ –. Leigh ainda adicionava a essa personagem-atriz uma máscara afetada, até mesmo antiga, embora essa seja uma palavra perigosa. Ao lado dela, o famigerado “método” de atuação que Brando praticamente inaugurava ou consolidava no cinema americano rasgava a tela com a força de um vulcão. Era vida demais ao qual o artificialismo de Vivien Leigh precisava se equiparar.”

Nuno Leal Maia e Eva Wilma: montagem de 1974 (Foto: Divulgação)

Nuno Leal Maia e Eva Wilma: montagem de 1974 (Fotos: Divulgação)

Exercício de imaginação

“O que me leva até as Blanches que eu só imaginei, porque não pude ver nos palcos, seja pela distância temporal ou pela geográfica? No Brasil, Eva Wilma, em 1974, e Tereza Rachel, em 1985, são duas das que mais dão aquela saudade do não vivido. Ambas são atrizes que cresci acompanhando na televisão, mas das quais hoje conheço as sólidas carreiras teatrais – daquelas que parece que só eram possíveis antigamente, passando por vários e variados clássicos da dramaturgia. Quando vislumbro suas Blanches, penso numa doçura que pode ser feroz em Eva Wilma e em uma loucura que pode ser assustadoramente sã em Tereza Rachel. Mundo afora e, em anos recentes, eu me sacio imaginando como foram as Blanches de Rachel Weisz, em 2009, e a de Gillian Anderson, em 2014. De Rachel Weisz, penso na comovente resiliência e na potência de uma beleza física clássica, ambas pautando um tipo de enfrentamento perante o mundo. Em Gillian Anderson, imagino a suavidade com que veste a fleuma aristocrática e na intensidade de sua presença, ao mesmo tempo intimidadora e flamejante. Mas isso nem sequer é a minha verdade, é só imaginação.”

+ Leia entrevista com o dramaturgo Alexandre Dal Farra.

A síntese de Maria Luisa Mendonça

“Para, enfim, desaguar em Maria Luisa Mendonça essa Blanche que quis ver existir e que minuto a minuto me faz lembrar da razão. Maria Luisa tem tantas camadas de pensamento, intuição e sensibilidade na leitura da personagem que fico assustado com a coragem com que mergulha nesse organismo. Em seu lugar, penso que já teria fugido ou sucumbido à força dos demônios, traumas, patologias e instabilidades que cercam sua Blanche. Em essência, Blanche carrega os lados escuros de todos nós. E, nesse sentido, também seus avessos – nossas iluminações, memórias e mistérios. A Blanche que vejo Maria Luisa construir é uma “mulher normal”. E talvez essa seja a coisa mais simples, mais complexa e mais bonita que eu tenha o privilégio de testemunhar e afirmar sobre ela: essa Blanche é um amálgama multifacetado do que somos todos nós, ou do que todos ainda seremos um dia, um pouco.”

"Um Bonde Chamado Desejo": Virginia Buckowski, Eduardo Moscovis e Maria Luisa Mendonça

“Um Bonde Chamado Desejo”: Virginia Buckowski, Eduardo Moscovis e Maria Luisa Mendonça

Quer saber mais sobre teatro? Clique aqui.

Continua após a publicidade
Publicidade