Clique e Assine a partir de R$ 8,90/mês
Na Plateia Tudo sobre teatro

“O Desaparecimento do Elefante” e o absurdo como saída menos indigesta para a realidade

Desde o épico “Os Sete Afluentes do Rio Ota” (2002), os espetáculos dirigidos por Monique Gardenberg ganham o palco cercados de expectativa. O apurado senso estético vem aliado à oportunidade de ricas possibilidades de interpretação, tanto para os atores quanto para os espectadores mais dispostos. Foi assim com “Baque” (2005), “Um Dia, no Verão” (2007) […]

Por Dirceu Alves Jr. Atualizado em 27 fev 2017, 11h08 - Publicado em 4 abr 2013, 14h55

Caco Ciocler e Fernanda de Freitas: marido oprimido à procura do gato (Fotos: André Gardenberg)

Desde o épico “Os Sete Afluentes do Rio Ota” (2002), os espetáculos dirigidos por Monique Gardenberg ganham o palco cercados de expectativa. O apurado senso estético vem aliado à oportunidade de ricas possibilidades de interpretação, tanto para os atores quanto para os espectadores mais dispostos. Foi assim com “Baque” (2005), “Um Dia, no Verão” (2007) e “Inverno da Luz Vermelha” (2010). Adaptada pela própria Monique dos contos do escritor japonês Haruki Murakami, “O Desaparecimento do Elefante”, em cartaz no Sesc Pinheiros, tem codireção de Michele Matalon e busca nos elementos fantásticos uma saída menos indigesta para tratar da realidade desenfreada.

André Frateschi, Caco Ciocler, Clarissa Kiste, Fernanda de Freitas, Kiko Mascarenhas, Maria Luisa Mendonça, Marjorie Estiano, Rafael Primot e Rodrigo Costa vivem quase trinta tipos em permanente flerte com o absurdo. O gênero confunde-se com a comédia e o drama nas cinco tramas. Tudo parece descolado do verídico, mas a encenação se encarrega de aproximá-las continuamente, seja pelos elementos cênicos ou pelas canções ouvidas nas vozes de Caetano Veloso, Gal Costa e Criolo, entre outros. O elenco é uniforme. Em maior ou menor grau, alcançam momentos que cativam o espectador. Dois atores, no entanto, se sobressaem pela entrega e pela ousadia de se expor sem temer o ridículo, Caco Ciocler e Marjorie Estiano.

Primeiro e um dos melhores quadros, “O Pássaro de Cordas e as Mulheres da Terça-Feira” traz Ciocler perfeito na opressão de um desempregado à procura do gato da mulher bem-sucedida e histérica  (papel de Maria Luisa). A presença curta e extasiante de Marjorie nesta história é uma prévia da mais surpreendente, a hilária “Segundo Ataque”. Na pele de uma cosplay japonesa, a atriz contracena também com Ciocler – o marido marginalizado. Juntos, eles assaltam uma lanchonete. Não pelo dinheiro, mas em nome da fome insaciável.

Maria Luisa Mendonça e André Frateschi: ela está em um recanto escuro e é Gal quem explicita

Monique Gardenberg: a música como dramaturgia

Entre tantas qualidades, “Os Sete Afluentes do Rio Ota” (2002), adaptação de Monique Gardenberg para a peça do canadense Robert Lepage, surpreendeu pelo casamento entre as linguagens teatrais, cinematográficas e até operísticas. Um impacto visual inegável, facilmente explicado pela trajetória de cineasta de Monique. Em 1995, ela dirigiu o longa “Jenipapo”. Mais tarde ainda vieram “Benjamim” (2003) e “Ó Pai, Ó” (2007). Nas montagens de “Baque” (2005) e “Inverno da Luz Vermelha” (2010), a música também teve papel dramatúrgico. O monólogo de Deborah Evelyn na primeira ao som de “Gota de Sangue”, com a voz de Angela Ro Ro, e  as canções de Tom Waits, Renato Russo e Leonard Cohen na segunda não estão ali como mero fundo para as cenas. Só para lembrar nos shows concebidos para Marina Lima, então, estava tudo junto e misturado de novo.

Continua após a publicidade

Lá pelas tantas de “O Desaparecimento do Elefante”, Gal Costa aparece com “Recanto Escuro” para explicar a personagem de Maria Luisa Mendonça, aquela que não dorme há 18 dias. Caetano Veloso, os sussurros de Criolo e o “Maluco Beleza” de Raul Seixas no desfecho ajudam a revelar intenções. Quanto às fusões de imagens, o mais óbvio é falar do ator Kiko Mascarenhas no segundo quadro, “O Comunicado do Canguru”, valorizado pela projeção simultânea de suas ações no telão, enquanto ele grava um CD declarando seu amor a alguém que não o conhece. O mais surpreendente, impactante e ousado, no entanto, aparece na melhor das cinco histórias, “Segundo Ataque”. Nessa encenação, Monique Gardenberg e Michele Matalon transgrediram em nome de uma novidade: elas fizeram desenho animado no teatro.

Marjorie Estiano e Caco Ciocler: japa e mano em “Segundo Ataque”

Um desenho animado chamado “Segundo Ataque”

Claro… Você tem todo direito de achar que estou viajando, de que não existe a menor possibilidade de isso acontecer. Mas vale lembrar que, em se tratando de teatro, nada daquilo está acontecendo de fato e cabe ao diretor/encenador enganar uma plateia que pagou ingresso justamente para ser enganada. Recém-casados, os personagens de Caco Ciocler e Marjorie Estiano sofrem de uma fome incontrolável. O cara já não sabe mais de onde tirar comida e revela que pode estar sofrendo uma maldição por ter assaltado anos antes uma padaria. Não tinha intenções de limpar a máquina registradora. O interesse se restringia aos pães quentinhos para forrar o estômago. É pobre, mas não é ladrão. “Eu sou maloqueiro!”, diz ele. Muito à vontade, Caco Ciocler caracteriza o personagem como um mano da periferia paulistana, correntão, blusa de capuz e gírias a mil. A mulher, vivida por Marjorie, no entanto, foge de qualquer traço realista em um quesito evidente: trata-se de uma cosplay japonesa.

Seria ela japonesa mesmo? Ou fala e se comporta como tal por ser uma menina vestida como personagem de mangá? Pode ela morar na periferia e não suportar mais aquilo. Pulga atrás da orelha lançada, eu volto a pensar na proposta de levar animação para o palco. Como forma de se livrar da maldição, os dois repetem a ação e assaltam uma lanchonete – é alta madrugada e não teria uma padaria aberta naquele horário. A loucura está só começando.

Auxiliadas pela iluminação de Maneco Quinderé, as diretoras investem no excesso de cores dos figurinos de Marjorie em contraste com o preto usado por Ciocler. Os movimentos frenéticos, o uso de espadas e as projeções de mangá ao fundo reforçam o universo. Na cena final, os movimentos da dupla fogem propositadamente de sintonia. A plateia gargalha pelo inusitado. É teatro puro ver a entrega despudorada dos dois atores em nome da ideia da encenação. Monique já produziu shows e leva a música para o palco, dirige cinema e transpõe essas referências para o teatro, talvez agora tenha descoberto o desenho animado. E de suas experiências criou a própria assinatura e a leva para os contos de Haruki Murakami.

Continua após a publicidade
Publicidade