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Na Plateia Tudo sobre teatro

Nilton Bicudo sobre “Myrna Sou Eu”: “com ela, eu me tornei um protagonista”

O ator Nilton Bicudo é uma figura. E daquelas bem raras. Engraçado, atrapalhado, com a fala um pouco atropelada, o paulistano de 47 anos se transforma no palco e até parece outra pessoa. Não menos figura, claro. No momento, a gente pode falar da conselheira sentimental do espetáculo “Myrna Sou Eu”, em cartaz todos os […]

Por Dirceu Alves Jr. - Atualizado em 26 fev 2017, 21h59 - Publicado em 15 Maio 2014, 20h32
Nilton Bicudo: ator (Foto: Lenise Pinheiro)

O ator paulistano Nilton Bicudo: “sempre fui muito tímido” (Foto: Lenise Pinheiro)

O ator Nilton Bicudo é uma figura. E daquelas bem raras. Engraçado, atrapalhado, com a fala um pouco atropelada, o paulistano de 47 anos se transforma no palco e até parece outra pessoa. Não menos figura, claro. No momento, a gente pode falar da conselheira sentimental do espetáculo “Myrna Sou Eu”, em cartaz todos os sábados, às 18h, no Teatro Eva Herz. Com roteiro e direção de Elias Andreato, Niltinho, como é chamado pelos colegas, dá um show na pele da jovem senhora, um tanto descrente do amor, que servia de pseudônimo para Nelson Rodrigues assinar crônicas no Diário da Noite. Mas esse artista já perdeu as contas das peças que fez, dirigiu mais ou menos uma dezena de outras, passou pela televisão e, no cinema, acaba de filmar uma participação na comédia “Um Candidato Perfeito”, protagonizado por Leandro Hassum.  Em tempo, “Myrna Sou Eu” vai ter uma semana especial. Na segunda (19), a personagem ocupa o palco da Biblioteca Mário de Andrade, às 19h, em uma sessão gratuita. Aproveite! Enquanto isso, vocês podem ficar com as histórias de Niltinho.

Myrna é a grande personagem da sua carreira?

Não sei se é a minha grande personagem, mas certamente é que mais tive prazer em fazer até hoje. Sinto que tomei um espaço que conquistei em passos muito lentos. Com ela, eu me tornei um protagonista. Sempre fiz coadjuvantes, rodeado por grandes colegas, com quem aprendi muito. Com Myrna, finalmente eu vivo a chance de saborear o meu momento. E pode ser um pequeno sucesso, afinal, faço em um teatro de 160 e poucos lugares, com uma sessão semanal, mas é lindo. Casa lotada, as pessoas compram ingressos com antecedência. O Nelson Rodrigues chama público.

Por que esse protagonismo demorou tanto para chegar?

Eu nunca tive essa ambição. Sempre fui muito tímido. Sou animado em mesa de bar. Na vida, eu sempre fui muito neurótico, não durmo sem tomar remédios, então tudo na minha carreira foi devagar. Aos poucos, fui me domando, entende? Mesmo com esse perfil, eu nunca deixei de trabalhar. Por mais que eu não estivesse na linha de frente, eu sempre participei de uma peça atrás da outra, com atores legais. Quando protagonizei “Natimorto”, em 2008, eu passei a ter uma segurança maior, fui indicado para prêmio.

Nilton Bicudo em "Myrna Sou Eu": personagem enigmática (Foto: João Caldas)

Nilton Bicudo em “Myrna Sou Eu”: sessão especial no dia 19 (Foto: João Caldas)

Como começou o seu interessa pelo teatro?

Olha, eu sou formado em direito pela PUC. Com 22 anos, estava com a carteira da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) na mão, pronto para exercer a profissão e bateu um tremendo vazio. Talvez fosse até mais feliz hoje como um promotor ou um juiz, mas eu carregava essa coisa do teatro dentro de mim. No colégio em que estudei, em Higienópolis, o teatro fazia parte da grade curricular. Não era optativo. A gente fazia peças o ano inteiro. E lá tinha um teatrinho de cem lugares, com uma cortina vinho, uma gracinha. Chegou uma hora em que eu também dirigia montagens sobre a história do Brasil, sobre o Egito, era muito legal. O teatro também era a minha brincadeira infantil na sala de casa. Estava sempre interpretando. Os meus pais perceberam isso. Não deram força, mas também não reprimiram. Só pediram que eu fizesse uma faculdade. Mas eu não sabia nem por onde começar. Ninguém lidava com arte na minha família. Quem mais me incentivava era minha avó paterna, que era minha companheira de teatro. Toda quarta-feira, o nosso programa era ir ao teatro, jantar fora e depois eu dormia na casa dela. Parecia coisa de namorado (risos). Ela era fã de Dercy Gonçalves e Paulo Autran. Muitas vezes, vovó brigou na porta do teatro porque eu era menor e não queriam me deixar entrar nas peças.

E como se começa no teatro quando não se conhece ninguém no ramo?

Eu fiquei um ano bem perdido. Comecei a pintar para jogar para fora minhas emoções. Também passei a ir todos os dias na Igreja Santa Teresinha, que era perto da minha casa. Ficava lá rezando, tentando encontrar um caminho. Clarisse Abujamra e Antonio Fagundes, então casados, moravam no prédio da minha mãe e, em um jantar, me apresentaram ao Jorge Takla. Falei para o Takla da minha crise e ele sugeriu que eu fosse estudar teatro em Paris. Imagina… Já era um homem formado, não tinha dinheiro para isso, não podia mais depender do meu pai. Então ele me apresentou a Célia Helena, eu fiz um teste e, no semestre seguinte, estava na escola dela.

Você deu continuidade à vida de estudante? (risos). O curso de teatro não rendia dinheiro, certo?

Não! Eu fui ser lanterninha do show da Claudia Raia.

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Como assim?

A Claudia Raia estreou o espetáculo “Não Fuja da Raia” no Procópio Ferreira, que, na época, era administrado pelo Jorge Takla. Eu me ofereci para ser lanterninha no teatro. O Takla duvidou que eu ficaria um mês. Durou um ano! As sessões eram de quarta a domingo. Eu e mais quatro pessoas iluminávamos as poltronas para o público encontrar o seu lugar. Com esse dinheiro, eu bancava o Célia Helena. Foi um curso de dois anos e meio e fazíamos uma montagem a cada semestre. Na formatura do curso, o Elias Andreato foi dirigir uma montagem de “Ifigênia”, de Euripedes, com a gente. Ele me deu um papel muito pequeno e me chamou para ser seu assistente de direção. Ali, eu conheci o homem que mais me incentivou na vida e me deu uma orientação profissional. O Elias é o cara com quem eu mais trabalhei. “Myrna” é um projeto dele e ele insistiu muito para eu fazer. Não me sentia preparado. Só depois de fazer “Coisa de Louco” meu primeiro monólogo, escrito pelo Fauzi Arap e dirigido por ele, senti que havia chegado a hora. Hoje, eu posso até dizer que prefiro monólogos. Ali, você precisa de uma concentração maior e não tem outro ator para te desconcentrar. O bate-bola é com o público.

Nilton Bicudo: ator (Foto: Divulgação)

Nilton Bicudo: ele filmou “Um Candidato Perfeito”, com Leandro Hassum  (Foto: Divulgação)

A televisão passou pela sua vida e não rendeu muito, não? O que aconteceu? Ela não aproveitou você?

Em 1995, eu fiz um mendigo em “Sangue do Meu Sangue”, no SBT. Era uma novela de época, com um elenco espetacular. Tinha Tônia Carrero, Marcos Caruso, Jandira Martini, Bete Coelho. Eu gostei. Vi que dava para fazer um bom trabalho. O Fauzi Arap, grande diretor e amigo, me entusiasmava muito a investir na televisão. Cheguei a fazer diversos comerciais. Em 1999, eu tive a grande chance na Rede Globo. Fui chamado para fazer um psicanalista na novela “Andando nas Nuvens”, com o Marco Nanini. Era uma participação de cinco capítulos. Deu tão certo que o personagem ficou três meses. Só que eu, na época, não entendi o significado disso.

Explica melhor isso…

Eu sou muito fechado. Sempre tive preconceito com esse ambiente de famosos, esse oba-oba de celebridade. Quando terminou a novela, o Maurício Sherman me chamou para fazer “Zorra Total”. Imagina… Eu recusei. Não queria integrar um programa de humor. Então, eu me empreguei numa peça infantil que foi um verdadeiro fracasso. O diretor catava crianças nas ruas do Bixiga para botar na plateia. Eu não fiz a política da televisão. Não armei contatos. Literalmente, eu virei as costas. Achava que talento era suficiente. Em 2002, a Globo me chamou de novo para fazer “Desejo de Mulher”, outra novela das sete. Eu cheguei por lá brigando por causa de dinheiro. Queriam me pagar menos do que eu esperava. Já rolou uma coisa esquisita de cara.

Mas você fez a novela…

Sim, chegamos a um acordo. Bem menos do que eu esperava. Não tinha hotel. Eu fiquei hospedado no apartamento do Matheus Nachtergaele no Rio e fazia uma peça na época. Com esse pacote, tudo ficou ok. A sorte é que a Alessandra Negrini e eu tivemos uma boa repercussão na novela. A personagem dela bombou. Não posso me queixar. Fiz várias participações em seriados como “A Diarista”, “Os Normais”, “Sob Nova Direção” e “Macho Man”. Eu gosto de fazer televisão, mas nunca tive jogo de cintura. Não soube pegar o bonde na hora certa.

Como é sua função de administrador do Teatro Alfredo Mesquita, que pertence à Prefeitura?

O meu lado advogado me preparou um pouco para o meu trabalho no Alfredo. Eu escrevo memorandos, planilhas, muitos carimbos, fecho borderô, mas eu gosto do meu trabalho por lá. Eu também sou uma espécie de zelador. Quando quebra uma torneira ou uma poltrona, eu providencio o conserto, entende? E não me importo. Sabe por que razão? Porque estou em um teatro. Eu faço um bem para eu teatro. Isso me deixa feliz. Eu recebo os artistas, faço a escala dos técnicos, armo eventos.

Nilton Bicudo e Tônia Carrero em "Chega de História": direção de Fauzi Arap (Foto: Alexandre Diniz)

Nilton Bicudo e Tônia Carrero em “Chega de História”: direção de Fauzi Arap (Foto: Alexandre Diniz)

 

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