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Kiko Mascarenhas, “O Camareiro” e a arte do convencimento: “Tarcísio Meira teve as mesmas dúvidas do personagem”

Ele pode ser conhecido como Tavares, o advogado picareta do seriado “Tapas e Beijos”, mas a verdade é que o carioca Kiko Mascarenhas, de 51 anos, já construiu uma respeitável trajetória de ator. Em uma declaração de amor ao ofício, ele idealizou o projeto do drama “O Camareiro”, escrito por Ronald Harwood e dirigido por […]

Por Dirceu Alves Jr. Atualizado em 26 fev 2017, 16h26 - Publicado em 10 set 2015, 18h17
Kiko Mascarenhas: ator e idealizador do projeto de "O Camareiro" (Foto: Gal Oppido)

Kiko Mascarenhas: ator e idealizador do projeto de “O Camareiro” (Fotos: Gal Oppido)

Ele pode ser conhecido como Tavares, o advogado picareta do seriado “Tapas e Beijos”, mas a verdade é que o carioca Kiko Mascarenhas, de 51 anos, já construiu uma respeitável trajetória de ator. Em uma declaração de amor ao ofício, ele idealizou o projeto do drama “O Camareiro”, escrito por Ronald Harwood e dirigido por Ulysses Cruz, que está em cartaz no Teatro Porto Seguro. Por trás disso, Kiko Mascarenhas ainda dá uma lição de humildade ao reverenciar Tarcísio Meira, de 80 anos, que volta aos palcos depois de duas décadas, como o protagonista da montagem. Na trama, Norman (papel de Kiko) é o fiel serviçal de um teatro inglês, encarregado de cuidar dos figurinos e do temperamento instável do grande astro da companhia – representado pelo Tarcisão, claro.

Você idealizou o projeto de “O Camareiro” já com o nome do Tarcísio na cabeça?

Quem me apresentou o texto, ainda em inglês, foi o tradutor Diego Teza. Em um primeiro momento, eu pensei que a peça tinha um interesse restrito, mais limitado ao meio artístico. Em uma segunda leitura, já interpretei de outra forma, percebi que se tratava de uma história de luta pela sobrevivência, do confronto de dois homens em nome de uma paixão, no caso a arte. O Tarcísio também estava na nossa cabeça de imediato. Liguei imediatamente para o Ulysses Cruz. Foi ele quem me apresentou ao teatro inglês, é um apaixonado por Shakespeare, tem tudo a ver. Precisava de um ator que havia dedicado a vida ao ofício, entende? Toda vez que pensava naquele homem imaginava o Tarcísio. Só que, no início, tudo pareceu bem complicado.

O Tarcísio foi resistente ao convite?

Eu e o Ulysses fomos muito desestimulados, inclusive por pessoas dentro da própria Rede Globo. “Imagina, o Tarcísio não vai enfrentar a rotina do teatro a essa altura”, dizia um. Logo, eu ouvia de outro: “o Tarcísio hoje é muito mais fazendeiro, não vai sair do campo para fazer peça”. Bem, o “não” a gente já tinha, então decidimos falar com o próprio. Se não desse certo, a tentativa já teria sido válida. O Ulysses fez o contato e marcamos uma leitura em São Paulo. O Tarcísio reconheceu que teria ali um grande papel. Mas começou a ser estabelecida uma metalinguagem absurda.

Ele passou a se comportar um pouco como o Sir?

O Tarcísio é um lorde. Não é nada explosivo, como o Sir, mas ele teve as mesmas dúvidas do personagem. Questionou muito se conseguiria fazer o espetáculo, se valeria a pena sair da cama para trabalhar tanto. Desafio aceito, Tarcísio duvidava de que teria energia para uma temporada ou mesmo se decoraria o texto, já que jamais admitiu a possibilidade de usar um ponto. Precisamos trabalhar o convencimento o tempo inteiro.  Montamos todo o esquema de ensaios em função dele. Logo, cada palavra dita em cena ganha muito mais propriedade em sua boca.

"O Camareiro": Tarcísio Meira e Kiko Mascarenhas no drama em cartaz no teatro Porto Seguro

“O Camareiro”: Kiko Mascarenhas e Tarcísio Meira no drama em cartaz no Teatro Porto Seguro

Também penso que para contar essa história é necessária uma produção e uma encenação grandiosa, um “teatrão” típico. Caso contrário, poderia soar falso…

Por isso, eu pensei no Ulysses desde o início, sabia que ele faria uma bela encenação. O “teatrão” virou um termo pejorativo, mas é um alimento para o público. Olha, faço teatro direto há 30 anos e confesso que sinto falta – como ator e espectador – de uma dramaturgia mais consistente, mais linear, menos voltada para a fragmentação, como virou uma característica da cena contemporânea. Vejo muitas peças e saio pensando que, se há algum espectador de primeira viagem na plateia, esse cara não volta nunca mais. Em um musical, você encontra uma encenação grandiosa, belos figurinos e cenários, mas falta o teatro, a solidez de um texto. “O Camareiro” é de 1982, talvez seja o fim desse período dos textos mais lineares e que possibilitam isso tudo.

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Como espectador, qual é a sua primeira imagem de Tarcísio Meira?

A primeira imagem forte é a de “Irmãos Coragem”. Lembro muito bem do Tarcísio com aquele colete e mais ainda da cena final, em que o personagem quebra o diamante. São dezenas de novelas que ficaram na nossa cabeça, não é? O último capítulo de “Roda de Fogo”, por exemplo, tinha o personagem dele morrendo nos braços da Bruna Lombardi em uma praia. Logo, a câmera fecha em uma taça de vinho. Poucos artistas construíram uma carreira desse porte e, principalmente, conseguiram atravessar o tempo.

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É muito difícil controlar a relação de fã e manter o distanciamento em cena?

Em “O Camareiro”, eu posso mantê-lo no pedestal. Desde o primeiro momento, o Tarcísio para mim é o Sir, pois carrega a grandeza em relação ao ofício. Essa admiração ajuda na minha construção para o Norman. Mas normalmente pode complicar sim. Se você idolatra demais o ator com que contracena, fica muito mais difícil jogar, é mais fácil ficar travado.

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As gravações de “Tapas e Beijos” terminaram e você já engatou outro seriado da Rede Globo, não é?

Estou no elenco de “Mister Brau”, que entra no lugar de “Tapas e Beijos”. O Lázaro Ramos e a Taís Araújo interpretam um casal de cantores ostentação. Eles ficam ricos e vão morar em um condomínio de luxo. Lá, são vítimas de uma série de preconceitos, principalmente da parte da síndica, que é feita pela Fernanda de Freitas. Eu represento o mordomo do casal, um cara formal, tenso e também incapaz de se adaptar ao jeito mais despojado dos novos patrões. Tudo resulta muito engraçado.

Ravel Cabral, Tarcísio Meira e Kiko Mascarenhas em "O Camareiro": temporada até dezembro

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