Dirceu Alves Jr.

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Flavio Tolezani surpreende em “Incêndios”: “o discurso é o ponto central de uma obra e de um artista”

Você pode ter visto Flavio Tolezani conquistar o coração sofrido de Bruna Marquezine no capítulo final da novela “Em Família” ou assediar a empregada (vivida por Maria Bia) no seriado “Sexo e as Negas”. É no teatro, porém, que esse ator paulistano de 36 anos supera a pinta de galã e encontra a verdadeira expressão. […]

Tolezani: kkkkkk (Foto: Nana Moraes)

Flavio Tolezani: no palco em “Incêndios” e na TV com “Sexo e as Negas”

Você pode ter visto Flavio Tolezani conquistar o coração sofrido de Bruna Marquezine no capítulo final da novela “Em Família” ou assediar a empregada (vivida por Maria Bia) no seriado “Sexo e as Negas”. É no teatro, porém, que esse ator paulistano de 36 anos supera a pinta de galã e encontra a verdadeira expressão. Desde setembro, ele surpreende o público que lota o Teatro Faap com uma participação definidora no espetáculo “Incêndios”, protagonizado por Marieta Severo e dirigido por Aderbal Freire-Filho. Integrante do Grupo Folias há doze anos, Tolezani ainda é diretor e cenógrafo e tem três filmes que logo baterão nas telas dos cinemas. São eles “A Cidade Imaginária” e “Uma Noite em Sampa”, ambos dirigidos por Ugo Georgetti, e “Jogo da Memória”, de Jimi Figueiredo. Vamos deixar agora o Tolezani falar. Sim, porque ele fala – e muito bem.

Nesse ano, você não parou. Esteve em “Bull” como ator e diretor, fez “Ópera do Malandro” e entrou na temporada paulistana de “Incêndios”. Hoje, está mais difícil por uma série de circunstâncias o ator ter dedicação a um único projeto. Isso é mais complicado artisticamente ou exercita a versatilidade?

Já não sei mais qual é a ordem dos fatores. Sei que é a realidade do teatro, do ator hoje e danço nesse ritmo. Eu costumo gostar e ser produtivo em momentos como o que passa nesse ano. Administro melhor a falta de tempo do que tê-lo sobrando. Essa vivência simultânea dentro de propostas completamente distintas me alimenta. Cheguei a ter quatro ensaios num mesmo dia, se considerar projetos de cenografia. É a rotina de ensaiar um espetáculo durante a semana em São Paulo e outro no Rio de Janeiro nos finais de semana. Aprendi a ter um cotidiano assim. O nosso teatro já tem essa cara. Precisamos ser versáteis e isso passa a ser um determinante artístico, ou seja, a lógica vai sendo invertida. Deveria ser desse jeito? Acho que não. Deveríamos ter melhores condições para exercer esse ofício.

Como surgiu a possibilidade de entrar em “Incêndios”? 

Quem fez o primeiro contato comigo foi a produtora Maria Siman. Eles tinham a necessidade de encontrar um ator de São Paulo, e a indicação veio da atriz Kelzy Ecard. Conversei com ela, com o Júlio Machado, então responsável pelo papel, e as coisas foram andando. Fui para o Rio de Janeiro assistir ao espetáculo e vi o tamanho da responsabilidade que teria naquele coletivo. Fiquei fascinado. Assustei! Sabe aquele ditado: “mexer em time que está ganhando…”. Entrei. Tocante foi também a generosidade com que o Júlio me passou o bastão. A generosidade do elenco e da direção foi demais.

+ Leia crítica da peça “Incêndios”.

Além de trabalhar com Aderbal Freire-Filho e Marieta Severo, claro, o que seduziu nesse projeto?  Foi o valor daquele discurso?

Tudo aquilo me seduziu: trabalhar com grandes artistas, o discurso do texto, o diálogo com a realidade brasileira, a qualidade estética, o desafio como ator. Mas uma coisa me seduziu mais: o coletivo. Tenho como formação o teatro de grupo, e “Incêndios” tem essa cara. Desde a cena até a relação dos atores e equipe. É o jeito de pensar teatro do Aderbal, da Marieta, Kelzy, Felipe, Isaac, Marcio, Fabiana, Kely e de todos da equipe que me fascinou.

O discurso talvez seja o ponto alto das montagens do Folias. O texto e suas intenções surgem como prioridade para você no teatro?

Sim, o discurso é o ponto central de uma obra e de um artista. Daí a escolha do texto ser fundamental. No palco, o discurso é o resultado de muita coisa tendo como suporte o texto e não só a palavra. Minha relação com o Folias é justamente a identificação total com esse processo e com o resultado, com o pensamento e a cena. Meu contato com o Folias começou em 2002 com a montagem de “Otelo” e, desde então, se não estou com os dois, pelo menos um pé está naquele palco. Atualmente, faço cenografia dos dois espetáculos do grupo. O importante é que o Folias está em mim. O Marco Antonio Rodrigues é meu formador, é minha referência. Todos os meus companheiros de lá, que são parcerias dentro e também fora, como o Dagoberto Feliz, a Nani de Oliveira, a Bete Dorgam, são também referências e são família.

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Apesar de ligação com o Folias, você trabalha com diretores de estilos diferentes. Tem o Marco Antonio Rodrigues e o Dagoberto Feliz, o Eduardo Tolentino de Araújo, o Gabriel Villela, depois veio o Kleber Montanheiro, o Aderbal. Foi uma opção profissional sua ou necessidade artística e financeira?

Acho que é tudo isso junto. Tenho uma relação artística e afetiva muito forte com todos. O artista precisa transitar por muita coisa para se equipar, para conhecer e construir sua identidade. Claro que o acaso é fundamental para que coisas novas aconteçam, mas é tudo feito de acordo com as minhas convicções. Não abandono nunca o que penso como artista e aproveito ao máximo os novos encontros para apreender as diferentes formas de fazer teatral. De qualquer forma cada encontro é uma troca e se ele aconteceu é porque todas as partes tem algo para dar. O ator não pode estar moldado em uma forma. O que me atrai muito nesse ofício é contato diário com pessoas.

Demorou a perceber qual era sua vocação ou a profissão de ator não parecia viável quando era mais jovem?

Minha primeira faculdade foi a FEA (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade), da USP. Fique cerca de três anos por lá até que optei pelo teatro. Não sei ao certo quando decidi, mas acho que demorei por não acreditar muito em mim. Tinha na cabeça a necessidade de seguir uma carreira “tradicional”. Talvez fosse o temor de não ter o apoio da família. Mas era uma coisa da minha cabeça, pois quando decidi pela arte tive todo o apoio dos meus pais. Assim como tenho até hoje. Tenho pais exemplares. Não sei mais qual era o fantasma. Sei que fazer alguns anos de economia foi fundamental para saber o que eu não queria e me fez tomar essa decisão com muita convicção. Era muito engraçado o quanto eu destoava dos meus colegas de faculdade. Comecei a virar motivo de piada porque os interesses deles foram se afinando e eu me afastando. Depois, além do curso de teatro no Célia Helena, eu me formei ainda em comunicação – rádio e televisão.

"Em Família": Tolezani foi par de Bruna Marquezine no último capítulo

“Em Família”: par de Bruna Marquezine no último capítulo

Desde “A Favorita”, você tem estreitado um namoro com a televisão. Teve ainda “Corações Feridos” no SBT. Como isso começou? Você não pensou em investir antes em novelas ou não teve oportunidades?

Eu faço teatro porque eu gosto. Não sei como teria sido outro caminho, eu nunca pensei nisso. A TV é uma coisa deliciosa de fazer. Tive grandes experiências. Mas de fato eu nunca parei para me dedicar. Parar para se dedicar é parar de fazer teatro e ter tempo para a TV. É um meio que exige uma exclusividade, que te obriga a abrir mão do resto. Tudo que fiz até hoje foi de alguma forma conciliando com o que faço no teatro e isso é um limitador. Deixei passar algumas oportunidades por não poder ou querer interromper um processo em andamento.

A sua participação no capítulo final de “Em Família” e os quatro episódios de “Sexo e as Negas” podem apontar um caminho a partir de agora?

A minha participação no último capítulo de “Em Família” é um exemplo disso. Foi muito bacana para mim, mas só foi possível porque eu consegui me organizar nas datas. Eu estava ensaiando “Ópera do Malandro” e, no dia seguinte, iria para o Rio ensaiar “Incêndios”, ou seja, tempo era o que eu menos tinha e não poderia atrapalhar nenhuma das produções. Conversei com todas as equipes e chegamos a um equilíbrio, com limitações de horário e cada um cedendo um pouco. Dividi esses meus dias no Rio entre os ensaios e as gravações e deu certo. É uma administração constante do tempo. Com “Sexo e as Negas” foi algo parecido, mas, na época, estava em cartaz em São Paulo. É sempre uma possibilidade de estresse para todos os envolvidos quando você grava no Rio e tem peça em São Paulo à noite. Ou seja, tenho feito o que consigo.

"Sexo e as Negas": Maria Bia e Tolezani no seriado de Miguel Falabella (Fotos: Rede Globo)

“Sexo e as Negas”: Maria Bia e Tolezani no seriado de Miguel Falabella (Fotos: Rede Globo)

Você também desenvolve um trabalho de cenógrafo. Até que ponto o olhar do ator e sua leitura da dramaturgia são importantes para a confecção dos cenários? 

Eu, como cenógrafo, penso sempre como ator. É possível? Eu prefiro assim. Faço o cenário pensando em servir o diretor e o ator. Em poucos casos, eu apresentei a concepção cenográfica antes de começarem os ensaios. Na maioria das vezes, vou criando ao longo do processo. As ideias vão se modificando e evoluindo de acordo com o que é proposto. Uma vez, chegou um cenário em um processo que eu fazia parte como ator e a gente teve que mudar tudo que estava ensaiado. Qual o sentido disso como obra? O cenário não tinha nenhuma relação com a cena porque não houve diálogo. Eu prefiro jogar junto.

Você está em uma idade em que a maioria dos personagens se torna possível no teatro. É o tipo de ator que sonha com personagens, que os planeja ou normalmente recebe os convites? 

É… No teatro tudo é possível, mas algumas coisas são mais gostosas se feitas na idade certa. E muitos personagens ficaram para trás. Tem um que gostaria de ter feito, fui atrás e não consegui. O Edmund,  de “Longa Jornada Noite Adentro” de Eugene O’Neill. Durante muito tempo, eu tive esse texto na cabeça e me lembro de tentar convencer os diretores. Agora, eu poderia fazer o irmão mais velho talvez… Mas, no geral, não sou muito de sonhar com personagens. Um que veio através de um convite e que tenho um carinho especial foi Katurian em “The Pillowman”. O projeto é do Bruno Guida, e ele me chamou há alguns anos para fazer outro papel do texto. Os anos passaram até o projeto se concretizar, e o elenco foi se alterando. Quando tudo apontava para que o projeto saísse ele me perguntou: “o que acha de você fazer o Katurian?”. E eu respondi: “O quê?”. Outro convite marcante foi para “Ópera do Malandro”. É um daqueles textos que a gente tem tanta vontade de fazer, que admira tanto que o coloca na “prateleira dos intocáveis”. Quando veio o convite do Kleber Montanheiro, eu pensei: “mas é claro! Eu tenho que fazer!”.

Com “O Longo Adeus”, você estreou como diretor. Foi um caminho natural ou mais casual mesmo? 

Era uma vontade antiga, mas não tinha tido espaço para experimentar uma direção no teatro. Na faculdade de rádio e TV, eu dirigia muito. Era minha função favorita, ou que me era delegada. Então, era um caminho natural no teatro. “O Longo Adeus” caiu na minha mão. Mas minha mão estava bem esticada para pegar. Era um projeto em andamento dentro do Grupo Tapa. Alguns atores já estudavam o texto há algum tempo e me chamaram para dirigir. O Tolentino, muito generosamente, me deu carta branca pra tocar a montagem e, assim, começamos os ensaios. Tínhamos o compromisso de estrear, mas, em primeiro lugar, de experimentar muito nos ensaios. Eu me interessava mais pelos atores propondo em um primeiro momento, já que eles tinham um estudo longo sobre a obra. Depois de algum tempo, conseguimos afinar nossos olhares e seguir para a concretização de um espetáculo. O objetivo era colocar em prática o que acredito: o ator e criador. O ator como agente absoluto de seus atos dentro da obra. O ator que propõe de forma extremamente ativa no processo de criação e pronto para recriar no palco de acordo que os estímulos diários.

De que forma isso refletiu em “Bull”, seu trabalho seguinte?  

Logo depois, o Eduardo Muniz me propôs a parceria. Topei! O processo de “Bull” aconteceu de outra forma. Algumas coisas foram estabelecidas antes de ensaiar. O estudo de mesa foi longo, e o tempo de ensaio foi reduzido. Não tinha tempo para pesquisas de cena como no processo anterior. Os dois processos foram muito distintos. Tive muito prazer nos dois.

Flavio Tolezani: kkkkk (Foto: Nana Moraes)

Flavio Tolezani: ator, diretor e cenógrafo (Fotos: Nana Moraes)

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