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Fernanda Torres e os novos tempos em “A Casa dos Budas Ditosos”: “A pessoa mais libertária que temos hoje é o papa Francisco”

Fernanda Torres já foi aplaudida por 700 000 espectadores no monólogo “A Casa dos Budas Ditosos”, inspirado no romance de João Ubaldo Ribeiro (1941-2014). Realmente, a atriz carioca, de 50 anos, encontrou uma personagem especial, daquelas que surgem raras vezes na vida de um artista. Os paulistanos, esses sortudos, ganham nova chance esse ano. Dirigida por Domingos Oliveira, Fernanda aproveita […]

Por Dirceu Alves Jr. Atualizado em 26 fev 2017, 11h20 - Publicado em 30 jun 2016, 15h19
Fernanda Torres em "A Casa dos Budas Ditosos": entre idas e vindas, desde 2003

Fernanda Torres protagoniza “A Casa dos Budas Ditosos”: entre idas e vindas, desde 2003

Fernanda Torres já foi aplaudida por 700 000 espectadores no monólogo “A Casa dos Budas Ditosos”, inspirado no romance de João Ubaldo Ribeiro (1941-2014). Realmente, a atriz carioca, de 50 anos, encontrou uma personagem especial, daquelas que surgem raras vezes na vida de um artista.

Os paulistanos, esses sortudos, ganham nova chance esse ano. Dirigida por Domingos Oliveira, Fernanda aproveita ao máximo desde 2003 essa libertina baiana de 68 anos que narra passagens de sua vida sexual sem pudor algum. Depois de lotar o Teatro Porto Seguro em fevereiro, a intérprete marcou mais algumas poucas sessões para o Teatro Fecomércio – Sala Raul Cortez. A temporada de duas semanas começa na sexta, dia 8, e os ingressos saem por R$ 100,00.

Você se enxerga fazendo esse espetáculo até os 68 anos?

Se eu estiver firme até lá… Cada vez que o revisito descubro outras possibilidades. Eu não tenho mais a idade ideal de qualquer mulher, que, como diz a personagem, é entre os 35 e os 40 e poucos. Eu falava isso de boca cheia no palco, adorava. Hoje, já sai com outra entonação, de um jeito diferente e isso apresenta a baiana do Ubaldo de uma nova maneira.

+ Morre a dramaturga Consuelo de Castro.

Quer dizer que à medida que você se aproxima da idade da personagem é o espetáculo quem ganha?

Acho que faço melhor que na época da estreia. Aos 50 anos, tenho uma perspectiva de passado que não fazia parte de mim lá por 2003 ou 2004. Senti bastante a passagem do tempo e quem mais ganhou foi a personagem. A experiência de interpretar essa mulher durante tanto tempo também gerou uma memória própria da personagem. A morte do Ubaldo, por exemplo, trouxe outro peso para ela e para mim, então nós estamos mudando juntas. Mas eu não aguento fazer o espetáculo direto… Eu marco uma temporada, depois paro, embarco em um outro trabalho e volto. Se não for assim, vira um emprego e não quero que isso aconteça.

+ Antonio Fagundes abre ao público ensaios de “Vermelho”.

Sua carreira sempre foi muito coletiva. Fernanda e a turma do cinema, logo depois as companhias da Bia Lessa e do Gerald Thomas no teatro. Na televisão, não foi diferente também. E a solidão do monólogo? Ela bate forte ou é mito?

Eu nunca me senti sozinha. O público é meu grande parceiro e já tive os mais diferentes tipos. Estreei no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, que tem menos de 150 lugares, quase um olho no olho. Durante um bom tempo, fiz apresentações em casas de shows, com plateias de 1500 ou 2000 pessoas. Ali, eu batia bola com o cara que abre a cerveja no meio de uma fala, com um público mais descompromissado. Mas gosto mesmo é da realeza dos teatros, dos espectadores mais concentrados.

E se o público não reage?

Com o tempo, o monólogo ensina o ator a lidar com a plateia. Nunca é igual, cada dia aparece um público diferente. Tem o mais histérico, o mais calado. Ficava nervosa se, em dez minutos, não conseguia uma resposta, mínima que fosse. Hoje, sei que pode demorar, mas, em algum momento, o espectador se renderá ao Ubaldo.

Fernanda Torres: a atriz    reestreia "A Casa dos Budas Ditosos", dirigida por Domingos Oliveira

Fernanda Torres: a atriz reestreia “A Casa dos Budas Ditosos”, dirigida por Domingos Oliveira

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E está cada vez mais raro o ator ter a chance de se aprimorar no espetáculo. As temporadas andam cada vez mais curtas…

Acho o meu processo muito parecido com o da música. Pouco a pouco, eu fui dominando cada palavra, cada tempo, cada detalhe. Cada repetição me permite tocar melhor a partitura, sabe? São quase 13 anos, mas ainda têm muitas capitais que não viram o espetáculo. Sem falar que há toda uma geração que era criança lá em 2003 e só começou a trepar mais tarde, então seria legal esse público conhecer também a baiana do Ubaldo.

+ Thiago Lacerda leva Projeto Shakespeare ao Teatro Sérgio Cardoso. 

Por outro lado, nos últimos anos, as pessoas encaretaram, estão mais cheias de pudores. Você percebe que as reações são mais conservadoras?

Eu não acho que as pessoas têm mais pudor no sexo e também não sei se o mundo encaretou tanto assim. Basta ver as relações homossexuais como são mais aceitas do que em um passado recente. Hoje, vivemos uma época mais engajada em todos os sentidos – e isso também é importante para mudar o mundo. A questão é que o Brasil descobriu o politicamente correto.

Então, mas a personagem é uma libertina…

Sim, ela não é nada politicamente correta. Essa mulher carrega a liberdade típica da geração do Ubaldo e é bacana mostrar para as pessoas que existem muitas formas de viver.

+ Grace Gianoukas no Teatro Bradesco no final de julho. 

Até para os mais jovens perceberem que isso é possível, não?

Ah, mas vai demorar tanto para que as pessoas percebam isso… Cresci em uma época diferente. Eu me descobri como gente com o Caetano e o Gil voltando do exílio, ouvindo canções como “Odara” e vendo o Gabeira de tanga de crochê na praia. Engajamento não é apenas social e político. Vivemos um tempo de radicalismo. Se você gosta de azul não pode gostar do vermelho. Quem escolhe o caminho do meio, que normalmente é o da arte, não é compreendido com facilidade. É incrível… A pessoa mais libertária que temos hoje é o papa Francisco. Acredito que ele entenderia muito bem a baiana do Ubaldo.

 “A Casa dos Budas Ditosos” é um livro que virou peça. Vocês já pensaram em levá-lo ao cinema?  

Então, a gente tem esse projeto, mas é só um projeto. Quando o Domingos me viu pela primeira vez naquela mesa, em um cenário mínimo, prestes a estrear, ele disse: “isso é uma coisa seríssima” (faz uma voz grave). Então, precisamos pensar muito bem como seria a melhor forma de transformar essa história em cinema. Também é uma coisa seríssima.

Fernanda Torres: "A Casa dos Budas Ditosos" retorna a São Paulo (Foto: Divulgação)

Fernanda Torres: “A Casa dos Budas Ditosos” faz temporada no Raul Cortez (Fotos: Divulgação)

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