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Cassio Scapin relembra Paulo Autran em “Visitando o Sr. Green”: “fiquei com muita saudade dele”

Em junho de 2000, a comédia dramática “Visitando o Sr. Green”, de Jeff Baron, estreou no Teatro Augusta, em São Paulo. Acostumado a lançar seus espetáculos em salas com, no mínimo, o dobro daquela lotação, o grande ator Paulo Autran (1922-2007) investiu na casa de pouco mais de trezentos lugares para o novo projeto, dirigido […]

Por Dirceu Alves Jr. Atualizado em 26 fev 2017, 16h32 - Publicado em 22 Maio 2015, 08h13
Cassio Scapin e Paulo Autran em "Vistando o Sr. Green": estreia em 2000 (Foto: João Caldas)

Cassio Scapin e Paulo Autran em “Vistando o Sr. Green”: estreia em 2000 (Foto: João Caldas)

Em junho de 2000, a comédia dramática “Visitando o Sr. Green”, de Jeff Baron, estreou no Teatro Augusta, em São Paulo. Acostumado a lançar seus espetáculos em salas com, no mínimo, o dobro daquela lotação, o grande ator Paulo Autran (1922-2007) investiu na casa de pouco mais de trezentos lugares para o novo projeto, dirigido por Elias Andreato. Como companheiro de cena, o ator Cassio Scapin, até então mais conhecido pelo personagem Nino do programa infantil “Castelo Rá-Tim-Bum”, interpretava o jovem executivo Ross Gardner, que provoca um relativo abalo nas convicções do velho judeu do título. O sucesso foi arrebatador, e o resto é história. Algumas delas são relembradas pelo próprio Scapin nessa conversa. Afinal, quinze anos depois, ele mesmo dirige uma nova montagem do texto, em cartaz no Teatro Jaraguá, com os atores Sérgio Mamberti e Ricardo Gelli no elenco.

Como foi o seu primeiro contato com o Paulo Autran na época da montagem original de “Visitando o Sr. Green”?

A minha primeira lembrança foi encontrá-lo muito entusiasmado depois de assistir ao monólogo “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, em que fui dirigido pela Regina Galdino. Paulo disse que me enviaria um texto para ler. Fui então vê-lo em outro espetáculo e saímos para jantar, mas eu estava muito intimidado. Tinha enorme admiração pelo Paulo. Depois de um tempo, ele finalmente me mandou o texto. Em inglês, e o meu não é lá grande coisa, mas eu li, achei ótimo e falei que, por favor, queria muito fazer.

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Quais são as melhores lembranças que você guarda da longa temporada ao lado do Paulo Autran?

Quando cheguei para o primeiro ensaio, tomei um grande susto logo na leitura, pois ele já tinha praticamente o texto de cor, sabia como queria o personagem. O processo foi rapidíssimo. Eu estava apavorado e sempre pedia ao Elias Andreato, que foi muito paciente comigo, para passar e repassar as cenas. Eu queria ficar experimentando coisas, e o Paulo já sabia o que queria. Ficava muito impressionado. Ele chegava com o cigarro entre os dedos, dava uma coçadinha na orelha direita e dizia: “então, vamos começar?”. Eu queria fazer aquecimento, alongar o corpo, e ele soltava: “para essa peça não precisa!”. O Elias me olhava e falava para escutar o Paulo. Eu me lembro de uma passagem engraçada. Tinha uma carta para ler em cena, e o Paulo dizia: “não decore essa carta, leia de verdade todos os dias!”. Sempre ensaiávamos com um único envelope e, no dia da estreia, o contrarregra colocou um monte de envelopes. Eu achei que logicamente iriam ter cartas escritas em todos os envelopes, mas não… Não foi colocada nenhuma carta. Abri o primeiro envelope e nada, o segundo e nada. O Paulo olhou pra mim quase debochando, com um sorriso nos olhos… Não abri o terceiro, me acalmei e disse o texto de cor. O Paulo confiou que eu saberia o conteúdo da carta.

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E qual foi sua primeira reação ao ser convidado para remontar “Visitando o Sr. Green”? Medo? Insegurança? Provocação? Desafio? 

Foi um convite do produtor Carlos Mamberti e do Sérgio Mamberti por indicação da minha parceira em outras produções, a Fernanda Signorini. Quem dirigiria em um primeiro momento seria o Emílio de Mello, que teve um problema de agenda. Eu morri de medo, claro. Mas se eu paralisasse cada vez que sinto medo não entraria em cena nunca (risos). Aceitei e, depois, pus a mão na cabeça para pensar: “meu Deus, essa peça foi um grande sucesso, tem que sair direito”. Fiz com enorme carinho. Já tinha trabalhado com o Serginho no “Castelo Rá-Tim-Bum” em uma experiência ótima. Mas muitas vezes o coração ficou apertado. Fiquei com muita saudade dele, das nossas conversas nos jantares, nos quartos de hotel durante as viagens pelo Brasil. Foi um trabalho importante na minha vida e agora tenho essa oportunidade profissional e afetiva de refazer algo que teve uma dimensão enorme na minha trajetória.

Paulo Autran e Cassio Scapin em "Visitando o Sr. Green": conflitos de um velho judeu e um jovem executivo (Foto: Divulgação)

Paulo Autran e Cassio Scapin em “Visitando o Sr. Green”: embate entre um velho judeu e um jovem executivo (Foto: Divulgação)

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É verdade que Paulo encarava “Visitando o Sr. Green” com certa despretensão e não imaginava que renderia um sucesso tão grande?

Acredito que o Paulo se surpreendeu com o resultado do espetáculo, talvez não esperasse mesmo um retorno tão grande naquela altura de sua carreira. Um dia, no camarim, estávamos sentados na bancada, conversando pelo espelho, e me disse: “acho que temos um sucesso”. Logo, veio a risada rouca que ele tinha, que terminava meio em “ai, ai, ai”. Nossa, como eu gosto dele. Durante as apresentações em Curitiba, no Teatro Guaíra, que é enorme, tem quase 2 mil lugares, o Paulo soltou outra que achei muito engraçada e mostra bem a visão que tinha do fazer teatro. Ele sempre espiava o público por um canto da cortina. O teatro estava lotado, restaram, no máximo, vinte lugares vazios. E Paulo largou essa: “não lotamos essa noite, as pessoas já não lembram mais de mim”.  Quase morri de tanto rir e acho até hoje que ele estava tirando uma onda com a minha cara.

Depois de quinze anos, o que faz “Visitando o Sr. Green” continuar tão atual? O debate da questão gay contribui muito para isso? A resistência dos velhos e dos judeus ao novo, ao inesperado? 

Varias são as questões importantes ainda hoje nesse texto. Eu não suporto a palavra “tolerância”. Em minha opinião, o correto é “aceitação”. Tolerar é péssimo, é um passo para não aguentar. Tivemos avanços enormes nos direitos individuais, mas, em contrapartida, também apareceu uma posição muito mais radical, expressiva e inflamada contra esses avanços. A peça não fala somente da oposição à sexualidade do personagem e nem só do confronto com os princípios religiosos. Hoje, no mundo, acontece um grande movimento de deslocamento de povos em busca de melhores oportunidades e até de sobrevivência. Logo, existe um pensamento xenofóbico feroz na Europa, nos Estados Unidos, enfim nas nações ditas desenvolvidas. Tem um momento em que o Sr. Green narra a fuga de sua terra natal e a chegada dos judeus aos Estados Unidos e de sua família a Nova York e fala como também eram vistos com estranhamento e desconfiança.

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Como é ver o Ricardo Gelli na pele do seu personagem? 

É uma sensação estranha (risos). É como ver alguém com quem você foi casado durante um bom tempo e teve uma vida maravilhosa namorando outra pessoa e, ainda por cima, perceber que eles se dão muito bem, obrigado. O teatro tem uma coisa maravilhosa: nunca um espetáculo se repetirá como outro, nunca uma montagem será como a anterior, sem a questão de melhor ou pior. De partida, ela já é diferente. O trabalho de ator depende da trajetória interna de cada individuo. O olhar desse espetáculo é outro, esse Sr. Green e esse Ross Gardner são únicos. E eu também sou outro depois de quinze anos. Foi ótimo trabalhar com o Ricardo, tivemos uma grande empatia. Ele é disponível, pronto, alerta e alcançou uma química excelente com o Sérgio.

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Quais cuidados você teve para se desprender do Ross, para não tentar – mesmo inconscientemente – que ele reproduzisse sua leitura ou o que você fez naquela época? 

Tentei fazer o possível, claro, para esquecer da montagem anterior. E, acho que em grande parte, consegui. Não revi nada, mudei toda a disposição da cena, dentro dos limites pedidos pelo texto e tentei principalmente escutar e entender o organismo desses atores. Construímos um novo espetáculo. Mas não deixo de ser grato e reconhecer as marcas profundas que a direção do Elias e o trabalho com Paulo me deixaram.

Ricardo Gelli e Sérgio Mamberti em "Visitando o Sr. Green" cartaz do Teatro Jaraguá (Foto: Alexandre Catan)

Ricardo Gelli e Sérgio Mamberti em “Visitando o Sr. Green” cartaz do Teatro Jaraguá (Foto: Alexandre Catan)

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