Duas amigas na casa dos 60 anos e uma ultramaratona

Ghislaine Vampré e Rosangela Bacima se tornaram amigas por causa do esporte e, hoje, participam de provas árduas. Inspire-se nessa história

As histórias da arquiteta Ghislaine Vampré, 62 anos, e da consultora e coach Rosangela Bacima, 60, se cruzaram graças ao esporte. Deste encontro, há quase vinte anos, nasceu uma grande amizade. Elas se tornaram corredoras, maratonistas e, recentemente, ultramaratonistas – provando que não existe limite de idade para ir mais longe e conquistar novos objetivos. Conheça suas trajetórias rumo a Two Oceans (ultramaratona de 56K, na África do Sul) e  inspire-se nessa força!

A determinação de Ghislaine Vampré 

“Estudei em um colégio interno misto, em Rio Claro, no interior do estado, que estimulava a prática esportiva e disponibilizava piscinas olímpicas, campo de atletismo e quadras esportivas. Eu treinava atletismo, corridas curtas e muita natação. O esporte sempre foi muito importante para mim “, conta a arquiteta.

Ela começou a correr para valer quando foi trabalhar no Grupo Pão de Açúcar. “Na época, eu só nadava. Nunca tinha corrido provas. Mas passamos a contar com uma assessoria esportiva que prestava serviços à empresa e, posteriormente, com uma academia. Percebi que tinha resistência, o que me atrapalhava, pois corria sem respeitar as planilhas. Corria o triplo que deveria. Até que um dia um médico me perguntou: ‘Quer correr para sempre? Então respeite seu treinador’. Caiu a ficha e a planilha passou a ser soberana.”

Até 2010, Ghislaine nunca tinha se interessado por maratonas – só corria meia-maratonas. “Foi quando resolvi, juntamente com minha companheira de corrida, Rosangela Bacima, que conheci na época do Pão de Açúcar, encarar a Maratona de Berlin. Adorei e repeti a experiência em Buenos Aires (duas vezes), Porto Alegre e Chicago. No ano em que estava inscrita para Nova York – que treinei arduamente -, a prova foi cancelada.”

Ghislaine Vampré aos 62 anos não pensa em parar de correr (Divulgação/Divulgação)

O desejo de encarar distâncias maiores sempre existiu. “Mas tinha medo de não conseguir terminar, o que para mim é o mais importante. Meu treinador sempre disse que ganha a prova quem termina. E é assim que também penso. É muito triste ter que desistir. Já sofri durante algumas provas, mas sempre consegui terminar. A cabeça ajuda muito.”

No ano passado, ao lado da amiga de corridas, Ghislaine decidiu finalmente dar o passo rumo a Two Oceans. “Arregacei as mangas e entrei de cabeça nos treinos – duros por sinal. Sábado era o pior dia: treinos duplos, com 25K em média na USP de manhã e 12K no Ibirapuera à tarde. Treinei na chuva, no sol, com frio e calor.”

A prova em si foi emocionante. “A primeira parte é plana. Depois são 30K de subidas e descidas. Tenho respeito por meu corpo e não saio rápido nunca. Prefiro ganhar lá na frente. Corri conforme a estratégia do treinador e da nutricionista e baseada na minha experiência. Andei pouco e rapidamente, onde todos andavam, nas subidas muito íngremes. E confesso que tive medo do ‘cata ossos’ – o ônibus que passa recolhendo os participantes que não vão conseguir completar no tempo de sete horas. Mas quando fechei a maratona (42K) tive a certeza que iria terminar. Meu tempo final foi 6h39m. O melhor de tudo é que concluí a prova com sobra, sem cansaço. Foi uma experiência maravilhosa, que pretendo repetir.”

A disciplina de Rosangela Bacima

Rosangela durante a Meia Maratona ASICS, em 2016 (Divulgação/Divulgação)

Ela começou a correr para valer em 1999, incentivada pela equipe de corrida de sua empresa, o Grupo Pão de Açúcar. “Todo o movimento e energia da equipe de corredores me animaram muito. Havia uma estrutura de profissionais disponíveis para apoiar e orientar os iniciantes e os mais experientes. Além disso, eu havia passado por um problema de saúde e uma cirurgia, que me levaram a mudar hábitos e investir em qualidade de vida, atividade física e alimentação saudável. A corrida foi uma descoberta muito prazerosa e com resultados muito rápidos. Virou hábito e entrou na minha rotina de tal forma que acabou sendo um verdadeiro estilo de vida. Nunca mais parei”, conta a consultora.

No início, ela se dedicou às provas de 10K, depois chegou às meias maratonas e 25K. “Em 2010, corri a primeira maratona, certa que apenas uma seria o bastante. Mas a emoção e a alegria da conquista foram enormes. Passei a fazer uma maratona por ano. Fiz Buenos Aires em 2011, onde conquistei meu melhor resultado (4h10m). Em 2012 estive em NY, mas prova foi cancelada por fatores climáticos. Ainda encarei Rio de Janeiro em 2013, Chicago em 2014, Punta Del Leste em 2015 e Montreal em 2016, com o tempo de 4h16m – a mais divertida e prazerosa, quando senti que podia mais.”

A Two Oceans já estava em sua cabeça há alguns anos. “Era um desafio que dava ânimo e medo ao mesmo tempo, uma ideia compartilhada com a Ghislaine, grande amiga e parceira de corrida. O resultado da maratona de Montreal foi decisivo. Fizemos nossa inscrição juntas assim que voltei. Ter uma companheira para os treinos e para a prova foi muito importante, além do apoio da minha família, sempre incentivando minhas ousadias.”

Com grande bagagem esportiva – dezoito anos ininterruptos e desafios crescentes -, ela começou o treino específico para a Two Oceans em janeiro. “Durante a semana era até tranquilo, mas três meses de treinos duplos aos sábados foram exaustivos. Para completar, em dezembro sofri uma lesão na panturrilha fazendo musculação. Como não havia tempo a perder, já que a prova seria em abril, incluí sessões de menos impacto, como bike horizontal, transport e deep running até o médico me liberar para a corrida de novo.”

Rosangela Bacima, 60, exibindo a medalha pós Two Oceans, em 2016 (Divulgação/Divulgação)

Seu trabalho como consultora já comportava bem sua agenda de atleta. Seguir a planilha era regra. “Mesmo durante viagens, os treinos longos aos sábados não atrapalharam nenhum projeto. Mas em casa era diferente, afinal os finais de semana são o nosso ‘horário nobre’. Foi essencial negociar antes com a família a exigência dos treinos e o tempo mais limitado. Todos apoiaram muito. A filha se encarregava do almoço de sábado, o filho e a nora organizavam horários com minha netinha entre um treino e outro, o namorado preparava refeições de massa… A Two Oceans virou projeto familiar!”

Rosangela conta que o mais difícil na preparação foi dar conta do volume de treinos. “Houve dias de muito cansaço em que me perguntava porque estava fazendo aquilo. Mas só pensava em seguir adiante. Tinha a certeza que estaria na largada! Meditava e me via pronta. Treinava, dormia e me alimentava bem, preparava a viagem, discutia a prova com o treinador. Curti muito essa expectativa, a essência era de alegria e confiança, no meio da dureza dos treinos. Tranquilizava pensar que eles apenas estavam à altura da prova.”

A prova em si foi uma linda surpresa de organização e calor humano. “Encontramos um povo alegre, sorridente, amistoso e gentil. A largada foi emocionante, com todos cantando juntos o hino sul-africano e depois a canção típica Shoshosloza – ‘seguindo adiante’. Outra surpresa foi o nível de dificuldade da prova. Aí valeu toda a preparação – corpo e mente responderam bem! Foi muita concentração, foco e oração o tempo todo. Mas também me diverti. Tirei fotos, filmei pequenos trechos. E a beleza do lugar, a temperatura perfeita do dia, ventos amenos, o céu e o mar tão azuis, a amiga junto, o apoio dos outros corredores, tudo colaborava para seguir adiante. No quilômetro 50, só mentalizava o final da prova. Chorei muito ao cruzar a linha de chegada.”

O que ela aprendeu correndo uma ultra? “Que o esporte é fundamental na vida, não importa o tamanho do desafio. Não há nada melhor para manter a saúde, o equilíbrio e o bem-estar. Eu comecei depois dos 40, minha vida mudou de forma positiva. Com a Two Oceans, superei qualquer expectativa que pudesse ter ao começar. Tudo tem início com o sonho, o desejo. Se eles viram meta e ação determinada, é possível fazê-los acontecer! Aprendi que posso até querer repetir…”

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