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Arte ao Redor Tatiane de Assis é repórter da Veja SP. Acredita que as artes visuais podem aproximar pessoas e descortinar novas facetas da vida.

“Dentro de mim, só tem espaço para o bem”, diz o artista Samuel de Saboia

Em entrevista, artista comenta ataques nas redes sociais e presença afrodescendente no circuito de artes visuais

Por Tatiane de Assis Atualizado em 28 Maio 2020, 21h47 - Publicado em 29 Maio 2020, 06h00

Deitado em um sofá, com os olhos mirando a janela, o artista Samuel de Saboia atende o telefone e diz sorridente: “Mainha me ligou e só consegui desligar agora”. Lá fora, a temperatura é de 24 graus. o sol está a pino e a segunda, dia 18, em Zurique, é um tanto acolhedora. O recifense, de 22 anos, prepara na capital da suíça uma exposição que vai abrir em 6 de junho. Desde abril o país começou a reabertura para sair da quarentena.

Samuel de Saboia
Samuel de Saboia: preparação para nova exposição Divulgação/Divulgação

“Sete das dez telas fiz no Recife, perto da minha família, com mainha trazendo comida. O restante trouxe para cá”, detalha. A mostra no centro de arte contemporânea Lowenbraukunst recebeu o título de A Bird Called Innocence. Sua inspiração não foi encontrada nem em um livro nem em uma música. Quando tinha 1 ano e 6 meses, Samuel desenhou uma galinha em uma telhado. O bicho que não voa, mas tenta, virou uma metáfora. “Quando você é pequeno, cria um gosto de querer se tornar grande e perder a inocência”, afirma o artista.

Samuel de Saboia
Tranquilidade e casca dura diante dos desafios da vida Divulgação/Divulgação

Ao longo da vida, mesmo com as agressões que sofreu, o artista sempre defendeu seu direito de olhar com fascínio para seu entorno. “A inocência é algo que quero vivenciar dia a dia”, pontua ele, sem deixar de lembrar os amigos que se foram abruptamente vítimas da violência urbana. As obras de Samuel têm traços rápidos, linhas fragmentadas e uma vastidão de figuras e elementos, semelhantes ao ritmo de sua fala e seus movimentos pelo mundo.

“Se tu é jovem e é preto, e vem de uma classe tal, não pode ser relacionado a outra coisa que não o Basquiat”

Samuel de Saboia

Antes da pandemia, em um semestre ele poderia viver em Los Angeles, Nova York e Paris. Em São Paulo, é representado pela galeria Kogan Amaro. A ausência de artistas afrodescendentes no circuito de artes visuais, bem como o rechaço do recifense à pintura realista e figurativa, fizeram seu nome ser associado ao americano Jean-Michel Basquiat (1960-1988). “Se tu é jovem e é preto, e vem de uma classe tal, não pode ser relacionado a outra coisa que não o Basquiat”, diz ele.

Samuel de Saboia
Pinceladas rápidas, figuras fragmentadas: velocidade acalentadora nas obras do recifense Divulgação/Divulgação

Nas redes sociais, o deputado federal Eduardo Bolsonaro e o radialista Sikêra Jr. já tentaram recentemente ridicularizar sua produção. Mas o artista não cedeu às provocações. “Dentro de mim, só tem espaço para o bem. As pessoas querem sangue e briga. Quando não alcançam isso, vão embora. Fico triste, mas isso não me domina.”

A tranquilidade que @samueldesaboia (seu perfil no instagram) emana tem a ver com a sua família, seus amigos e a casca que criou desbravando o mundo. Deus, que ele conheceu na igreja Batista, também o acompanha, mas agora de forma ampliada. “Todo tempo estou falando com Ele. Não existe Samuel sem Deus. Mas existe Deus sem Samuel”, acredita.

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