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Arte ao Redor Tatiane de Assis é repórter da Veja SP. Acredita que as artes visuais podem aproximar pessoas e descortinar novas facetas da vida.

Com novo curador, MAM vai estrear no jogo Minecraft

Na pandemia, Cauê Alves assumiu programação do Museu de Arte Moderna, colocou imagens das obras na rua e, agora, leva a instituição ao mundo dos games

Por Tatiane de Assis Atualizado em 24 abr 2021, 13h20 - Publicado em 23 abr 2021, 06h00

“Há muitos tipos de curadores. Alguns se aproximam de parte da produção de um artista e visitam uma, duas exposições da qual você participa. Mas o Cauê não é assim. Ele teve um olhar constante, acompanhou meu trabalho ao longo do tempo. Isso é algo que admiro, porque nós, artistas, temos evoluções, mas também fraquezas e quedas”, explica o paulistano Nino Cais, de 52 anos, em uma espécie de prefácio lisonjeiro sobre o personagem retratado nesta reportagem, o também paulistano Cauê Alves, de 44 anos. O curador revela-se um pouco Ganesha, deus indiano com quatro longos braços e todos muito obreiros. Além de estar à frente da direção artística do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), é professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), pai de Luna, 8 anos, e Mira, 10, e marido da artista Lia Chaia.

sede do MAM-SP, com a escultura Cantoneiras, de Franz Weissmann
Sede do museu no Parque Ibirapuera: em primeiro plano, escultura Cantoneiras (1975), de Franz Weissmann (1911-2005) Karina Bacci/Divulgação

Seu tom gentil costumeiro pode dar a impressão de que ele vive em marés calmas, mas não funciona bem assim. No momento, por exemplo, aproxima-se dele uma pequena maratona. Na sexta (23), ocorre a estreia do museu no braço educativo do famoso game Minecraft (imagens no final), uma espécie de Lego digital, disponibilizado para uso em escolas. “Vai ser possível visitar os espaços internos e externos. E também o Jardim de Esculturas, que fica ao redor do prédio da instituição”, explica Vera Cabral, diretora de educação da Microsoft, que toca no gigante de tecnologia o desenvolvimento desse projeto. Uma das atividades disponíveis tem como protagonista a obra Aranha (1981), de Emanoel Araújo. Pelo menos neste momento, a peça não poderá ser desmontada, como ocorre na versão comercial do jogo, em que as figuras podem ter sua estrutura dividida e recombinada. “O convite, agora, é para que os estudantes construam, com os blocos, outros ‘amigos-insetos’ para ela. É uma forma lúdica de pensar diferentes conhecimentos”, diz Vera.

Na terça (27), Alves volta sua atenção para a retomada de visitas presenciais no MAM, fechado desde 6 de março. As portas reabrem com a ida da capital para uma fase menos restritiva da quarentena, anunciada pelo governo estadual no dia 16. “Será uma abertura sem muito alarde, as pessoas terão de agendar a ida às exposições por meio do nosso site”, detalha ele.

Quando Alves ocupou o cargo de curador-chefe do MAM, em julho de 2020, o clima era tenso. “Dei um azar grande, assumi no meio da pandemia”, conta ele, que viu, naquele momento, cortes de funcionários. Passado o baque, selecionou 24 obras do acervo. Graças a uma parceria não remunerada com a agência de publicidade África, as imagens dos trabalhos ganharam totens, presentes em 170 pontos de ônibus, e ainda foram projetadas em prédios. “Com o que tenho à mão, faço o bolo crescer”, define sobre sua postura no trabalho. Resiliência parecida também foi vista em seu emprego anterior, como curador-geral do Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia (MuBE), entre abril de 2016 e julho de 2020. “Eu fazia de tudo, até assessoria de imprensa”, relembra. Findada a missão, contabiliza frutos do reconhecimento.

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publicidade do MAM-SP em totem na Avenida Paulista
Projeto MAM na Cidade: reprodução da foto de Maureen Bisilliat em totem localizado em ponto de ônibus na Avenida Paulista Karina Bacci/Divulgação
Projeção da foto Yanomami (1974), de Claudia Andujar, em prédio na Rua da Consolação
Projeção da foto Yanomami (1974), de Claudia Andujar, em prédio na Rua da Consolação: ação do MAM na cidade Karina Bacci/Divulgação

“O Cauê foi peça-chave na revitalização da instituição, que não tinha um calendário consistente de exposições”, elogia Flávia Velloso, diretora-presidente do MuBE. Uma das mostras organizadas por ele sobre o paisagista Roberto Burle Marx (1909- 1994) recebeu o prêmio de melhor curadoria em 2020 pela Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA). É outra láurea no currículo dele, que inclui a participação em 2015 na equipe curatorial do pavilhão brasileiro na Bienal de Veneza, coordenada pelo carioca Luiz Camillo Osório.

Seus pais, já falecidos, também foram fundamentais para ajudá-lo na sua formação como curador. O pai, Rudy Alves, era diretor de arte, trabalhou na Editora Abril, que publica VEJA SÃO PAULO, e o levava para visitar exposições. A mãe, Margarida Loloian Alves, pedagoga e socióloga, tinha uma escola e aproximou o filho do mundo do ensino. Deu resultado. Alves conjuga a influência dos dois na sua visão de mundo: “Às vezes, a arte é puxada para um lugar mais vazio, de glamour, mas é obrigação do curador lembrar do papel de transformação social que ela e os museus podem ter”.

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MAM no Minecraft

escultura Aranha, de Emanoel Araújo, no jogo minecraft (à esq.) e ao vivo
Obra Aranha (1981), de Emanoel Araújo: escultura vai ganhar amigos-insetos na versão gamer (à esquerda, a versão da obra no jogo) Leonardo Sang/Rômulo Fialdini/Divulgação
Sectiones Mundi, de Denise Milan e Ary Perez, na versão no jogo minecraft (à esq.) e ao vivo
Sectiones Mundi (1988), de Denise Milan e Ary Perez: passeio no game também inclui o Jardim de Esculturas, na frente da instituição (à esquerda, a versão da obra no jogo) Leonardo Sang/Rômulo Fialdini/Divulgação
Desenho (3), de Amilcar de Castro, na versão no jogo minecraft (à esq.) e ao vivo
Desenho (3), 1977, de Amilcar de Castro: primeira obra vista no acervo permanente no jogo da Microsoft (à esquerda, a versão da obra no jogo) Leonardo Sang/Rômulo Fialdini/Divulgação

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Publicado em VEJA São Paulo de 28 de abril de 2021, edição nº 2735

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