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Blog do Lorençato Por Arnaldo Lorençato O editor sênior Arnaldo Lorençato é crítico de restaurantes há 27 anos. De 1992 para cá, fez mais de 15 000 avaliações de estabelecimentos. Além das atividades na Vejinha, leciona na Universidade Mackenzie

Chef Rodrigo Oliveira, do Mocotó, fecha restaurante na Vila Medeiros

Endereço estrelado funciona somente até 7 de outubro, um domingo

Por Arnaldo Lorençato - Atualizado em 28 Sep 2018, 12h33 - Publicado em 28 Sep 2018, 11h39

A notícia é inusitada. Imagine um restaurante multipremiado, que acaba de receber pela  terceira vez as cinco estrelas máximas atribuídas pelo guia anual COMER & BEBER, fechar. Adicione à coleção de prêmios uma estrela do Guia Michelin e ainda uma menção no ranking 50 Best da revista inglesa Restaurant para a América Latina. Sim, esse restaurante existe, mas somente até 7 de outubro. Depois desse dia, encerra definitivamente as atividades. O estabelecimento em questão é nada menos que o Esquina Mocotó, endereço de cozinha brasileira autoral de Rodrigo Oliveira, na Vila Medeiros. “Quando uma coisa dá muito certo já é hora de fazer outras. Dentro desse modelo não tinha mais o que inventar”, diz Oliveira. No lugar, surgirá uma nova casa, que deve estar pronta somente no primeiro trimestre de 2019. Veja trechos da conversa que tive com o chef, que deve devolver o prêmio a Veja São Paulo:

Última chance: receitas como o chocolate branco caramelado, a costela de angus com cuscuz de milho croquete de porco e coração de pato deixarão de ser servidas Bruno Geraldi/Veja SP

O Esquina Mocotó
O Esquina era algo que a gente não sabia fazer. Deveria ser diferente do vizinho Mocotó, ter cozinha brasileira e ser exclusivo. A mensagem foi se construindo com o tempo. A gente foi evoluindo de um começo superdesafiador e aprendendo a fazer tudo. Depois de cinco anos, ficou confortável ter as cinco estrelas da Vejinha, uma estrela Michelin e estar na lista do 50 Best. A ideia é encerrar com chave de ouro esses cinco anos.

Motivos do fechamento
Nosso tíquete médio varia de 98 a 108 reais, muito barato se comparado com o de outros cinco-estrelas da cidade, mas caro para a ‘quebrada’ onde estamos, caro para as pessoas do bairro. Dá para calcular o quanto a gente lutava para manter essa faixa de preço. Para que continuássemos a ser inclusivos, precisávamos nos reinventar.

O novo ocupante
Se chamaria Rolê, mas o nome já está registrado e estamos pensando em outro. Vamos destilar todo o aprendizado do Esquina e colocar num formato mais inclusivo. Estamos criando um fast service, não é um fast food. O serviço deve ser rápido, com a meta de ter um cardápio 100% orgânico. Vai ser centrado muito no mais nos vegetais do que nas carnes. É um restaurante paulistano e suburbano. Vai conversar com a ‘quebrada’ e a cidade. Terá de oferecer mais do que comida e bebida, será um lugar de interação e formação. Traremos música, arte, pintura, fotografia. Vamos criar um espaço para esse pedaço da cidade tão carente de beleza. O que há de melhor na cidade é para muito poucos.

Remodelação visual
Vai mudar toda a fachada, que receberá intervenções de artistas urbanos. Internamente também a decoração será mais contemporânea. Vamos trocar o grafite do Speto [que ocupa uma das paredes e era a parte essencial da identidade visual do restaurante]. Ele deve ser convidado para participar dessa intervenção. A gente tem um parceiro, um cara muito legal: o [rapper e estilista] Emicida vai assinar os uniformes.

Esquina Mocotó X Balaio IMS
São propostas diferentes. O Balaio olha para o Brasil, e o Esquina Mocotó era mais sertanejo [o chef refere-se ao restaurante sempre no passado, como se já estivesse fechado].

Função de um restaurante

Tem um pensamento que me inquieta desde uma conversa que tive com a historiadora Adriana Salay, que é minha mulher. Ela perguntou para que serve um restaurante. Falei de uma maneira muito floreada que é um duelo da natureza com a cultura, da expressão do menu. Ela falou: é bonito, mas restaurante serve essencialmente para uma coisa fazer com que as pessoas saiam melhores do que entraram. Isso me deu um estalo, a gente tem que restaurar as pessoas não só fisiologicamente, mas uma restauração emocional e intelectual. Um restaurante pode restaurar uma comunidade. A gente acredita que sim.

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