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Blog do Lorençato Por Arnaldo Lorençato O editor sênior Arnaldo Lorençato é crítico de restaurantes há 29 anos. De 1992 para cá, fez mais de 15 000 avaliações. Também é autor do Cozinha do Lorençato, um podcast de gastronomia, e do Lorençato em Casa, programa de receitas em vídeo. O jornalista leciona na Universidade Presbiteriana Mackenzie

Memória: Ciao, Umberto Eco

Enquanto fazia mestrado na Escola de Comunicações e Artes para estudar roteiros de filmes, um livrinho influenciou minha produção acadêmica. O nome? Como se faz uma tese, um manual para explicar como se escreve uma dissertação. Já nutria admiração antiga por seu autor que nos deixou nesse 19 de fevereiro: Umberto Eco. Generoso, o ensaísta, linguísta, […]

Por Arnaldo Lorençato Atualizado em 26 fev 2017, 15h23 - Publicado em 20 fev 2016, 12h20
Eco: morto aos 84 anos em Milão (Foto: divulgação)

Eco: morto aos 84 anos em Milão (Foto: divulgação)

Enquanto fazia mestrado na Escola de Comunicações e Artes para estudar roteiros de filmes, um livrinho influenciou minha produção acadêmica. O nome? Como se faz uma tese, um manual para explicar como se escreve uma dissertação. Já nutria admiração antiga por seu autor que nos deixou nesse 19 de fevereiro: Umberto Eco. Generoso, o ensaísta, linguísta, filósofo e romancista italiano ensinava a neófitos acadêmicos como eu a preparar um trabalho universitário. Conhecia Eco por livros anteriores, em especial a Obra Aberta que ajudou a analisar a arte sob uma perspectiva mais poética, ampliava e validava a multiplicidade de interpretações de pinturas, esculturas, músicas e escritos literários. Nada estava pronto e deveríamos conviver com um cotidiano amplo no campo da análise.

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Eco era um autor fascinante que não se limitou ao terreno do ensino. Havia dentro dele um escritor ficcional erudito a ser revelado e reconhecido mundo afora com O Nome da Rosa. É difícil acreditar que alguém que descreve a saga do conhecimento em uma biblioteca medieval de um mosteiro beneditino pudesse se tornar um best-seller. Eco era esse fenômeno, um homem avant-garde, homme de lettres. Seu protagonista não era um ser qualquer, mas um religioso-detetive, um Sherlock Holmes das ideias chamado Guilherme Baskerville em uma saga de sete dias com sete assassinatos por decifrar. E como Eco sabia manejar esses personagens para que nos encantassem.

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A comida, nada frugal, percorre as páginas do thriller como o pastelão de queijo que o frade franciscano come depois de ter ideias mirabolantes para decifrar a labiríntica biblioteca. O quarto dia começa com a descrição de um jantar soberbo, um banquete que deixa qualquer um com fome. Vão aparecendo pratos como um coelho em porchetta, arroz com amêndoa, as comidas da vigília, entre elas crostini de verdura, azeitonas recheadas, queijo frito, carne de ovelha, favas brancas… Em um canto da cozinha, alguém prepara ainda uma torta de verdura, orzo, aveia e centeio mais um peixe temperado com vinho e água para receber um molho de sálvia, salsinha, tomilho, alho, sal e pimenta. Para beber, licor de citronella e vários tipos de vinhos.

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Impossível para mim não admirar Eco, ser devoto de suas obras. Ainda mais para aquele estudante que amava o cinema mas caminhava a passos firmes pela crítica gastronômica. O Nome da Rosa foi um sucesso tão estridente – chegou a 17 milhões de cópias – que ganhou as telas numa adaptação do francês Jean-Jacques Annaud. O frade protagonista, um ser tingido pela sabedoria no século XIV era ninguém menos do que Sean Connery, ator famoso por ser o primeiro James Bond das telas, mas de recursos de interpretação capaz de ofuscar qualquer um dos seus contemporâneos.

Eco partiu. Sentirei falta de novos escritos. Seu último romance, o tanto amargo Número Zero, faz uma crítica ao mau jornalismo. Deixou ainda um livro inédito Pape Satan Aleppe (derivado de um verso de O Inferno, n’A Divina Comédia, de Alighieri), que segundo seu editor Mario Andreose, coletânea de ensaios publicados desde 2000 no semanário L’Espresso.

Ciao, Eco, já com saudades de sua lucidez seja no campo das ideias, seja no terreno da ficção.

PS: no prefácio do livro Perché agli Italiani Piace Parlare di Cibo, da russa Elena Kostioukovitch, tradutora dos livros de Eco radicada no Trentino, o escritor disse não ser um gourmet. Ele não percorria quilômetros para conhecer uma estrepolia culinária. Bastava-lhe a pizza do restaurante vizinho de casa. Citou como exemplo de bom prato o canard à l’orange, uma especialidade francesa que ele devia apreciar. Destaco aqui a receita do pato com laranja do La Casserole.

Caderno de receitas:
+ Pizza do queijeiro, da Bráz
+ Massa de pizza para forno a gás, da Bráz
+ Il vero fettuccine Alfredo di Roma
+ Tiramisu original. É  bico!

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