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Crônica

Loucos por Reuniões

Walcyr Carrasco | 07/04/2010

Attílio

Quero me encontrar com uma amiga. Impossível. Sua agenda anda apertadíssima. Proponho:

— Passo aí amanhã para tomar um cafezinho.

— Tenho uma reunião pela manhã e duas à tarde.

— Que tal um almoço?

— Adoraria. Mas já marquei com um cliente.

Suspiro. Insisto.

— Fim de semana, então. Você não me escapa!

— Vou para uma convenção.

— Ei, abre uma brecha! Estou com saudade de você.

Do outro lado da linha ecoa uma respiração profunda. Ela geme:

— Eu também. Estou com saudade de mim mesma.

É impressionante a paixão que a maioria das empresas e seus executivos demonstram por reuniões. Tenho o privilégio de trabalhar em casa. Mas ainda me lembro da época em que gastava grande parte de meu tempo em longas reuniões. Tomava litros de cafezinhos e fazia esforço para não bocejar enquanto os executivos falavam, falavam e falavam. Com frequência, foi perda de tempo e de paciência. A maioria se empenhava em concordar com o alto escalão sem dar na vista. Um amigo debatia longamente sua opinião, apresentava dados. Quando o chefe discordava, reagia com admiração, mesmo tendo ouvido alguma asneira. Humildemente, mudava de opinião. Certo dia, comentei:

— Não se envergonha de bajular tanto?

— Eu, hein? O homem é um poço de vaidade. Se discordar, vou para a lista negra.

Devia estar certo: hoje ocupa um cargo altíssimo na empresa. Os chefes que me perdoem, mas raramente algum suporta ser contrariado diante do próprio staff. Muitos adoram reuniões justamente para se pavonear, desfraldando opiniões sábias. Seu propósito é evidenciar quanto são aptos para continuar no timão. Soube de um que tem o hábito de estender as reuniões muito além do fim do expediente. Fala, conta piadas, discute projetos presentes e futuros enquanto seus executivos perdem jantares, cinemas e, com o tempo, a namorada.

Para mim, a hora do almoço é sagrada. Vivem me convidando para reuniões nesse horário, como se fosse vantagem! Como discutir um trabalho criativo enquanto meu interlocutor espeta pedaços de picanha com o garfo? Já conheci uma mulher que marcava dois e até três almoços de negócios no mesmo dia. No primeiro comia uma salada. Disparava para o outro encontro, em que mandava ver no prato principal. No terceiro, sobremesa e café.

— Assim, meu tempo rende mais — explicou- me.

Jamais me convencerá de que vale a pena. Comida e correria não combinam.

E a tecnologia torna tudo mais difícil. Ninguém mais pode fugir de reunião dizendo que a agenda está lotada. Inventaram a videoconferência. Ou seja, a reunião eletrônica, capaz de alcançar qualquer um a qualquer hora!

Não sou dono nem diretor de empresa para avaliar as vantagens de tantas reuniões, almoços de negócios, encontros de fim de semana. Os funcionários são contratados por seu talento, especialização, currículo. Mas quando realizam suas tarefas?

Fiz essa pergunta para minha amiga cuja saudade confessei. Sem sequer tentar defender o excesso de reuniões, ela rendeu-se:

— Acumulo muita coisa para o fim de semana.

— Ou seja, você vai para a empresa e não trabalha porque passa boa parte do tempo em reuniões. E aí executa em casa as tarefas profissionais. E sua vida pessoal, onde fica?

— Nem sei mais o que é vida pessoal!

Ela prometeu que nos veríamos na outra semana. Fingi acreditar. Serão necessárias tantas reuniões? Tenho muitas dúvidas. Mas fico pensando: quem entra nesse círculo vicioso não consegue mais trabalhar de verdade

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