Cidade

Vítima de depressão, morador de rua morre de frio na Avenida Paulista

Adilson Justino tinha família na Vila Formosa, mas saiu da casa para morar na rua. No domingo (12), tornou-se uma das vítimas do frio na cidade

Por: Sérgio Quintella - Atualizado em

Adilson Justino - Frio
Justino, em foto de 2006: sintomas de depressão (Foto: Arquivo Pessoal)

Havia apenas duas semanas que o homem encontrado na Paulista morava nas ruas. Na juventude, Adilson Justino era “o palhaço da família”, na definição de uma prima. Arrancava gargalhadas com imitações de Cauby Peixoto e Madonna e fazia sucesso com sua especialidade culinária: panquecas commel. A notícia de que amanheceu morto na madrugada gelada de domingo (12) em plena Paulista, aos 53 anos, chocou quem conhecia o paulistano da Vila Formosa.

+ Voluntários se mobilizam para ajudar sem-teto a enfrentar o frio

Ele foi encontrado por volta das 4 horas, na altura do número 500 da avenida. O padre Júlio Lancellotti foi até lá depois de receber o telefonema de uma testemunha. A vítima estava com os documentos no bolso. No Instituto Médico-Legal, ficou constatada a morte por infarto, provavelmente causada pelo frio. “O rapaz me disse que não tinha onde ficar”, relata a artesã Iracema de Paula, que vende produtos de crochê na calçada onde ele estendia o colchão. “Se soubesse que precisava de coberta, teria dado uma.”

Ex-vendedor da extinta Casa Bevilacqua e operador de telemarketing, Adilson nunca se casou e não tinha filhos. No início dos anos 2000, tentou a vida no Rio de Janeiro, de onde retornou há nove anos para viver com um tio em Guarulhos. Nesse meio tempo, apresentou sinais de depressão e síndrome do pânico, nunca tratados. Acabou desempregado e, após brigas, afastou-se dos pais e dos dois irmãos. Na véspera do último Natal, na casa de familiares, chamou atenção pela aparência franzina, com rosto pálido e dificuldade de locomoção.Há quinze dias, brigou com o tio e saiu de casa. “Achamos que ele tivesse voltado para o Rio. Ele morreu do jeito que sempre foi: solitário”, lamenta o primo Antonio de Araújo, que soube da tragédia pela TV. Ao enterro, no Cemitério da Vila Formosa, compareceram cinco pessoas. Não estavam os pais nem o irmão — apenas a irmã, três primos e uma ex-cunhada.

+ As principais notícias da semana

Fonte: VEJA SÃO PAULO