Música

Valorizados pelos colecionadores, vinis chegam a custar 5.000 reais

Número de apreciadores dos “bolachões” voltou a crescer. Em algumas lojas especializadas da capital, a procura dobrou nos últimos cinco anos

Por: Pedro Henrique Araújo - Atualizado em

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Roberto Maia: coleção com 15.000 discos (Foto: Mario Rodrigues)

A popularização dos CDs, no início da década de 90, levou os discos de vinil a um quase completo ostracismo no mercado da música. Recentemente, no entanto, o número de apreciadores dos “bolachões” — além dos DJs e dos audiófilos que não os trocam por nada — voltou a crescer. Em algumas lojas especializadas da capital, a procura dobrou nos últimos cinco anos. O preço médio gira em torno de 20 reais e é possível encontrar barganhas por apenas 1 real. Dentro desse universo, há um seleto grupo de LPs e compactos que atingem cotações muito maiores, em função de sua raridade.

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O topo da lista é ocupado no momento por álbuns como “Sound Factory”, de uma obscura banda carioca de mesmo nome. As 300 cópias, lançadas nos anos 70 por uma pequena gravadora, têm covers de Robert Johnson, Jefferson Airplane e outros grupos, além de três faixas autorais. Por uma questão de mercado, não por seu valor artístico, o disco é cotado a 5.000 reais. Abaixo desse patamar há outras raridades, como o curioso “Paêbirú”, uma parceria de Zé Ramalho com Lula Côrtes, de 1975. A viagem lisérgica da dupla ficou famosa porque o galpão da gravadora Rozemblit, do Recife, sofreu uma enchente e grande parte da tiragem foi destruída. Hoje, um exemplar sem riscos e com a capa em bom estado custa cerca de 2.500 reais.

 

“Colecionador paga esse valor para ter algo que ninguém tem, é como um fetiche”, diz Celso Luis de Lima Marcilio, proprietário da Celsom, no centro. Com 20.000 discos em seu sebo, ele vende cerca de 500 por mês, em uma faixa média de 40 reais cada um. Além disso, mantém uma coleção particular com 1.532 LPs e 418 compactos (vinis menores, com uma ou duas faixas em cada lado) em uma chácara da família, em Ibiúna. Cego há catorze anos, ele usa apenas o tato e sua impressionante memória para reconhecer algumas obras na estante. “Às vezes eu descubro qual é o disco por um detalhe do encarte”, conta.

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O vendedor Celso Marcilio: cego há catorze anos, ele reconhece vários de seus álbuns pelo tato (Foto: Mario Rodrigues)

Na última segunda-feira, o produtor Alex Lima Ferreira entrou na Celsom por volta de 1 da tarde com doze discos para vender. Pedia 1.500 reais por um pacote que incluía Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Tonico do Juazeiro, Ary Lobo, D’Angelo e Racionais MC’s. O funcionário Fernando Espírito Santo é o responsável por narrar para o chefe qual é o estado físico de cada um dos LPs. Após pensar um pouco, Marcilio acabou fechando a negociação por 1.300 reais. “Esse lote não é comum. Tem rap, forró e um álbum bacana de groove. Serve para vários tipos de pessoa”, avalia. “Só chega material assim quando alguém está se desfazendo da coleção, o que é o caso.”

 

Na outra ponta do mercado estão consumidores como o jornalista Roberto Maia, dono de 15.000 álbuns e conhecido como “o homem-enciclopédia”. Com acervo voltado para bandas estrangeiras, o paulistano é dono de mais de 250 álbuns somente dos Beatles. “Eu tinha mania de querer um registro deles de cada país. Consegui do Japão, da Itália, da Espanha e da Argentina”, afirma. “É uma maneira de tornar a coleção interessante para você mesmo.”

 

Muitas vezes, o valor dos vinis oscila ao sabor dos modismos do momento. Títulos com cotação na estratosfera podem cair de uma hora para outra — e vice-versa, como as ações de uma bolsa de valores. “O que manda mesmo no preço é a lei da oferta e da procura”, diz Rodrigo Gonçalves de Lima, vendedor virtual há dois anos. Em janeiro, ele abriu um espaço físico no centro, a Discos Leprechaun. Durante algum tempo, com a redescoberta da bossa nova, obras antigas de João Gilberto e Tom Jobim foram disputadíssimas. Aos poucos, porém, o furor dos clientes diminuiu.

Outro exemplo dessa oscilação é o clássico “A Tábua de Esmeralda”, lançado em 1972 por Jorge Ben. Há pouco mais de um ano, ele era encontrado por 10 ou 20 reais. Atualmente, custa cerca de 100 reais. Outro que ganhou um upgrade foi o único disco do pernambucano Di Melo — com o mesmo nome do cantor, de 1975 —, um dos pilares da soul music brasileira. Há dois anos, podia ser arrematado por 200 reais. Hoje, vale o triplo.

 

 

PARADA DE SUCESSOS

Alguns dos títulos mais valorizados no momento nas lojas especializadas

Sound Factory
(Foto: Reprodução)

Sound Factory

“Sound Factory” (1970) — 5.000 reais

Disco de uma banda brasileira que contém versões de músicas do bluesman Robert Johnson e de outros grupos estrangeiros; só 300 cópias foram lançadas

Módulo 1000
(Foto: Reprodução)

Módulo 1000

“Não Fale com Paredes” (1970) — 5.000 reais

O álbum do grupo psicodélico carioca foi comercializado apenas no Rio de Janeiro e ficou pouco tempo no mercado

Roberto Carlos
(Foto: Reprodução)

Roberto Carlos

“Louco por Você” (1961) — 3.000 reais

Com forte influência de bossa nova e bolero, é conhecido como o “álbum renegado do Rei”, que nunca mais permitiu seu relançamento

Zé Ramalho e Lula Côrtes
(Foto: Reprodução)

Zé Ramalho e Lula Côrtes

“Paêbirú” (1975) — 2.500 reais

Uma enchente no galpão da gravadora acabou com parte dos discos da parceria. As cópias que sobraram alcançam hoje um alto valor

Fonte: VEJA SÃO PAULO